O que Angola me faz crescer profissionalmente

Dipanda, 40 Anos de Angola


Dipanda, 40 Anos de Angola

José de Noronha Brandão

Director de Relações Públicas da agência ZWELA.

Em Angola sente-se a onda de instabilidade dos mercados internacionais, da China à América, passando pelas bolsas europeias. Um país a comemorar os 40 anos de Independência, dos quais mais de 20 foram em guerra, só na última década teve espaço e tempo para delinear estratégias económicas com alcance.
Baía de Luanda:
    Baía de Luanda

O horizonte que hoje se tem é mundial e o país de facto estava ancorado numa perspectiva de receita com base no petróleo. Nos últimos dois anos, muito se perspectivou a diversificação da economia, para além do ouro negro. Mas as políticas para serem implementadas necessitam de tempo, tempo em muito encurtado por esta crise da queda dos preços do petróleo nos mercados internacionais. Há um problema grande a nível das divisas, pois muitas empresas, as que dependem de matéria-prima do estrangeiro, não estão a conseguir transferir pagamentos, pelo que as mercadorias também não chegam. Sendo a economia uma cadeia, e havendo elos menos funcionais, tudo acaba por ter algum, mesmo que ténue efeito, sobre o todo.

Nesta altura, há duas Angolas: o mercado interno, que continua pujante e ávido, mesmo com o aumento de impostos, a diminuição de receita; e a Angola para empresas estrangeiras que sentem a dificuldade de, mesmo recebendo, não conseguirem transferir o dinheiro.

O Banco Nacional de Angola vem enfatizando a necessidade de se reinvestir no país, ressalvando a necessidade de acabar com a dependência das transferências para o estrangeiro, mas são orientações que há muito vêm sido ditas. Hoje, no pânico do momento, é que as empresas estão a acordar para este facto.

Há portugueses e outras nacionalidades a regressarem aos seus países, dado esta contingência das transferências. Mas como em qualquer emigração, este é um factor de cariz mundial, não é um problema exclusivo de Angola. Pelo que não se pode, nem deve culpar uma economia, só porque não nos é favorável no pagamento das contas que deixámos nos países de origem.

No mercado da comunicação em específico, a crise não acabou com o negócio, refinou os conceitos de entrega e aumentou a exigência do profissionalismo. Há tanto a acontecer, a TVI África é um exemplo, fez o seu lançamento oficial e deslocou cinco figuras cimeiras da estação. As empresas do tecido económico angolano, sobretudo as privadas, apostam grandemente neste mercado e são cada vez mais.

Os casos de emigrantes a regressarem deve-se sobretudo a dois factores: a questão da crise que tem um efeito psicológico grande, tomando as pessoas a opção de regressarem para junto dos seus, onde, pelo menos, o conforto de um abraço é tudo. O segundo factor é a questão de que muitos emigraram sem a noção de que culturalmente achavam que conheciam a África portuguesa, mas a África que encontraram é independente, é um país com as suas idiossincrasias, instituições e comportamentos muito distintos da ideia de há décadas.

Não conheço nenhum português, ou outra nacionalidade, em dificuldades, mas não conheço todos os que cá estão. Conheço pessoas descontentes com o facto de não conseguirem transferir os seus salários, razão que as trouxe a trabalhar cá: sustentar vidas, famílias, dívidas, um salário melhor, etc.

Tudo para dizer, esta não é uma crise-surpresa, é uma situação que economicamente se antevia há muito. Não se pode é esperar que sejam economias alheias e, sobretudo, expostas a mercados internacionais, a resolver os problemas que nós, em Portugal, não conseguimos há décadas. E não temos nem 40 anos de Independência, nem passámos uma guerra civil.

Cláudia Rodrigues Coutinho:
De Luanda para o Mundo

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