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Cultura

Marcas do colonialismo na obra de artistas portugueses e angolanos abordadas em livro

As marcas deixadas pelos discursos colonialistas na obra pictórica de artistas portugueses e angolanos, desde 1930 e ao longo de quase setenta anos, está no centro de uma nova edição da Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) portuguesa.

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A obra, "Uma Travessia da Colonialidade: Pintura, Colecções e Intervisualidades", da autoria da investigadora Teresa Matos Pereira, é o 17.º título da colecção Estudos de Museus, e procura explicar as ligações entre o discurso pictórico dos artistas e as dinâmicas históricas, políticas e culturais que marcaram Portugal e Angola naquela época.

O livro corresponde à dissertação de doutoramento da autora, reúne documentos e cerca de 200 imagens que ilustram mais de 500 páginas.

Teresa Matos Pereira propôs-se investigar a "permanência de planos de contiguidade entre passado e presente, tomando como elementos de ancoragem as imagens pictóricas em relação às demais artes plásticas", nomeadamente o desenho, a fotografia e a escultura.

O objectivo era aprofundar "um olhar relacional e transversal", capaz de averiguar dinâmicas e, sobretudo, entender a "complexidade de representações no seu articulado intertextual e 'intervisual' que continuam a configurar as texturas sociais e culturais em Portugal", segundo a autora.

No livro, Teresa Matos Pereira reuniu imagens, crónicas e até poesia que revelam "a imagética da 'colonialidade', os estereótipos, os discursos críticos, identitários, em torno da arte e da cultura angolanas durante o Estado Novo e após a independência".

A autora recorreu a documentação existente em arquivos e bibliotecas nacionais, espólios de várias instituições e particulares, bem como testemunhos de artistas.

Marcelino Vespeira, Cruzeiro Seixas e José de Guimarães são alguns dos artistas portugueses referidos pela autora, cuja passagem por África marcou a sua obra.

No livro, contextualiza ainda as marcas históricas deixadas em ambos os países por um passado ainda mais longínquo, com os contactos estabelecidos ao longo de cinco séculos.

Nesta ligação, "o modo de colonização protagonizado por Portugal, nomeadamente a apologia de uma política de assimilação cultural", atravessou a política, a economia e a cultura, tocando assim as diferentes esferas de poder, sublinha.

O livro estrutura-se em duas partes, uma primeira intitulada "Colonialismo: Entre a Ideologia e Prática", que contempla os capítulos "Nação e Império: Ideologia Colonial do Estado Novo", "Regimes Visuais do Colonialismo Português", "Discursos, Representações e Debates em Torno da Arte Africana", "Pintores do Império e a Construção de uma Imagética de Angola" e "Discursos Dissonantes: Surrealismo e Anticolonialismo".

A segunda parte aborda "Cadências e Ciclos de uma Colonialidade: oposição, persistências e revisionismos" e desenvolve-se através de quatro subtemas: "Cultura, Resistência e Independência", "Discursos Pós-Coloniais e Leituras da Colonialidade", "Projectar a Nação, Pensar a Angolanidade: Teoria e Prática Pictórica" e "Rotas, Memórias, Presenças Angolanas e Silêncios".

Teresa Matos Pereira é licenciada em Artes Plásticas (Pintura) e mestre em Teorias da Arte, e, em 2011, doutorou-se em Belas Artes (especialização de Pintura), pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (FBAUL).

É professora ajunta na Escola Superior de Educação do Politécnico de Lisboa.

Artista visual, trabalha como investigadora na Centro de Investigação e Estudos em Belas Artes (FBAUL) e no Centro Interdisciplinar de Estudos Educacionais – Escola Superior de Educação de Lisboa.

A Colecção Estudos de Museus é um projecto editorial da DGPC em parceria com a editora Caleidoscópio.

Tem como objectivo divulgar trabalhos de investigação sobre aspectos ainda não conhecidos da realidade museológica nacional, ampliar o conhecimento sobre a vida e obra de ilustres museólogos portugueses e ajudar à reflexão sobre formas de organização dos museus.

Destina-se ao público em geral interessado em património cultural e, em particular, a investigadores, estudantes e profissionais de museus.

Cada obra publicada passa previamente por um conselho editorial constituído pelos historiadores e museólogos Alice Semedo, Clara Frayão Camacho, Fernando António Baptista Pereira, Pedro Casaleiro, Raquel Henriques da Silva e Vítor Serrão.

A "Travessia da Colonialidade" está disponível em livrarias e lojas dos museus, palácios e monumentos da DGPC.

Excepcionalmente, devido à pandemia covid-19, na presente edição não se realiza sessão de lançamento, segundo a DGPC.