Os 5 em Angola

Descubra as diferenças


Descubra as diferenças

Filipa Moita

Autora da página de Facebook Os 5 em Angola, que relata as experiências de uma família portuguesa de cinco elementos que imigrou para Angola.

Penso que já toda a gente sabe como se vive em Luanda, quais as suas dificuldades, qual a luta diária dos angolanos para ter acesso às condições mínimas de saúde, escola e habitação e do seu drama quotidiano para sobreviver numa das cidades, por vezes chamada sem conhecimento de causa, das mais perigosas do mundo.
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Aqui vive-se diariamente um certo tipo de “guerra” com a incerteza de se conseguir chegar ao fim do dia ileso, não pela insegurança real, mas pelo acaso da vida.

Mas nem tudo é dificuldades, pelo menos para todos. E quero deixar aqui esclarecido duas coisas: não pertenço a nenhum partido angolano (nem português) e não estou a criticar nem a julgar ninguém. Apenas observo e depois relato, isenta de juízos de valor. E esta minha regra vale para todas as minhas crónicas, Ya?

Esclarecido isto, gostava de vos descrever de uma forma geral, os locais de refeição e que servem de exemplo a quase todos os locais onde se pode desfrutar de uma refeição de nível médio/alto aqui em Luanda.

Antes de mais, deixem que vos diga que por aqui já temos uma excelente oferta dos mais variados restaurantes e cozinhas para todos os gostos e preços, desde as famosas pizzas, ao marisco, à carne, ao sushi à Haute cuisine. E que no que respeita aos melhores restaurantes de Luanda, o nível é claramente igual ou superior aos melhores restaurantes europeus com alguns Chefs de renome aqui a operar. Considero que Luanda está bem apetrechada e que de vez em quando sabe bem, ao corpo e à alma, experimentar as múltiplas ofertas da capital.

O momento da refeição é uma ocasião para parar e relaxar do stress do trabalho e informalmente, incrementar as nossas relações pessoais de forma saudável. E por isso, gosto especialmente do meu intervalo para almoço. Enquanto faço isso, observo e apercebo-me de uma realidade muito diferente. A realidade dos profissionais angolanos. Aqueles profissionais que por uma sorte da vida, ou fruto de muito trabalho, puderam estudar nas melhores faculdades de Angola ou terem um curso superior tirado numa boa universidade europeia ou americana. E estes profissionais representam 10% da juventude estudantil de Angola e que felizmente regressaram à sua terra natal para contribuir para o seu desenvolvimento. Trabalham nas grandes empresas nacionais e internacionais e ocupam médios ou grandes cargos.

E na hora do almoço, é ver angolanos, portugueses, ingleses, brasileiros, espanhóis, franceses, a almoçar no mesmo espaço, num ambiente de amena conversa, saudações de amigos, de conhecidos e de grupos a festejar um determinado acontecimento.

Sem constrangimentos, sentamo-nos à mesa de estranhos e partilhamos a mesma mesa, o mesmo ambiente, sem diferenças, sem divisões ou tabus. Tudo acontece normalmente, da forma correcta. E é tão diferente esta envolvente, este espaço e esta dinâmica pois por momentos esquecemos um pouco onde estamos. Por momentos, não pensamos na tristeza que nos invade quando simplesmente passeamos na rua e deparamos com a pobreza extrema de grande parte da população. E tentamos evitar a forçosa depressão, ficando mais tempo dentro do restaurante, aproveitando mais um bocadinho, a semelhança com um outro qualquer país europeu, sem dramas ou problemas de maior.

E aqui, pelo menos para mim, há algo que me constrange pois vejo, observo e constato uma outra realidade, tão diferente e tão ambígua, neste enorme País de contrastes.

Observo o que cada vez mais parece óbvio, que uma pequena parte da sociedade angolana é mesmo rica. E fico perplexa com o que vejo. Não levem a mal, não estou a criticar, apenas a constatar o que já me tinham falado.

E começo por descrever as senhoras e jovens angolanas. Primeiro que tudo, têm bom gosto e sabem vestir-se, ah se sabem. Vejo-as a desfilar nos seus vestidos, nos seus fatos e sapatos de alta-costura e adereços que nem vou mencionar, pois corro o risco de ferir susceptibilidades. As angolanas são bonitas, sabem-se tratar e são extremamente elegantes. Aliás, em Lisboa via-as a irem aos médicos, às compras no El Corte Inglês. E digo-vos que é difícil acompanhá-las. Estão a ver como a portuguesa se veste para ir a um casamento? Pois elas usam isso no dia-a-dia de trabalho. E percebo o interesse delas em fazer compras fora de Luanda. Comprar algo aqui é impossível pois é tudo extremamente caro. E há necessidade de trazer em grande quantidade para aguentar os meses que aqui se está sem gastar nestas peças. E são vaidosas, gostam de estar arranjadas e fazem por isso, todos os dias. E não pensem que isto só acontece com a alta sociedade. As angolanas em geral gostam de investir em si e de ser ver bonitas. Podemos ver a desfilar na rua, a pessoa mais simples deste mundo, usando umas calças de ganga, um top e havaianas e na mão, uma mala Michael Korrs ou Chanel. São cópias mas que têm bom gosto e gostam destes “luxos” isso não se pode negar.

E eles? Sim, os angolanos também são bastante vaidosos e gostam de se vestir bem e quando o fazem, cuidado! Arrasam! Gosto de observar o seu cuidado com a apresentação, e constatar o seu investimento em roupas, acessórios e perfumes. Aliás, grande parte dos clientes dos salões de beleza são clientes masculinos. E aprimoram-se ainda mais à sexta-feira, considerado o dia do Homem, dia em que saem à noite para se divertirem. Se estiverem a pensar nisso, os dias das mulheres são todos os outros dias da semana. Aliás, quase todos os angolanos são vaidosos e gostam de se vestir bem, de ter o seu carro sempre limpo e de ter a sua mulher arranjada. Isto é um facto! E isto vale para todos, com mais ou menos posses. Já ouvi um amigo dizer que uma parte do seu ordenado é sempre dado à mulher, para ela gastar no cabeleireiro e em produtos femininos. Bem que esta regra poderia ser aplicada a outras culturas….

Depois sai-se deste ambiente elitista e exclusivo e entramos na outra realidade angolana, a mais real e mais dura para milhões. Sim, milhões que lutam diariamente pela sua sobrevivência e a das suas famílias, pessoas que num dia podem acordar e constatar que a sua casa vem abaixo sem aviso prévio, pessoas simples que vêem vender a sua fruta na cabeça e que carregam nas costas mais do que os filhos pois carregam a dura realidade de terem de se levantar de noite e andar dezenas de quilómetros para vender uma simples cesta de fruta. E já regressam a casa de noite, sempre com os filhos atrás pois as creches são só para alguns.

Vemos a realidade dos miúdos à espera no passeio para engraxarem sapatos, arrumarem carros, venderem gelados ou recargas de telemóvel, debaixo de um sol implacável e que em vez de água para matar a sede, compram whisky de pacote. E são tão novos, tão crianças ainda e que já não esperam ou almejam mais do que isto para si. E os seus olhos são tão tristes.

E a realidade e luta daquelas mães que não sabem se ao dar à luz, morrem elas, os seus bebés ou ambos, num sistema de saúde publico, que apesar de ter evoluído muito nos últimos anos, ainda tem carências significativas?

Isto é um pouco da realidade angolana, aquela que me pedem para não dramatizar ou comentar, pois se o faço, pode ser considerado que estou a criticar negativamente ou a maldizer. Pelo contrário, ao dizer isto, ao escrever o que vejo, estou a relatar o que aqui se passa e que toda a gente vê e ao fazer isso, demonstro a meio mundo que apesar destas enormes dificuldades que diariamente afectam ricos e pobres, há um grande número de angolanos a lutar ferozmente pelo seu País e por melhores condições de vida. Combatem uma luta desigual pois no meio destas condições de vida precárias, e do pouco que têm, fazem muito e ainda distribuem por quem não tem mesmo nada. Não são estas pessoas fortes? E com garra de vencer? Eu não tenho dúvidas disso!

Depois temos todos aqueles angolanos que com o seu trabalho justo e honesto, trabalham de sol a sol, fins-de-semana incluídos, passam fome e desdobram-se em mil e uma tarefas para poderem dar o mínimo aos seus filhos. E com este suor e trabalho árduo, conseguem juntar o suficiente para poderem inscrever os filhos numa faculdade de Angola e possivelmente construir uma casinha para albergar os seus pais e os seus filhos, na esperança ténue de um dia esta simples casinha poder servir de herança aos seus filhos. E é só isto que podem deixar aos filhos. Por enquanto.

Para outros, para uma minoria, a realidade é bem mais suave e suportável. Vivem em prédios de luxo, possuem 2 a 3 carros de gama alta, vão aos melhores restaurantes de Luanda, fazem compras nas melhores capitais europeias, têm mais do que uma casa de férias e de fim-de-semana, têm os filhos a estudar no estrangeiro, estão constantemente a viajar e falam da realidade angolana como algo que não pode ser mudado pois subsiste a ideia de que o povo não quer ou não trabalha o suficiente para evoluir para melhor. E como pode o povo angolano fazer melhor se o custo de vida é insuportável e o acesso à habitação e educação é extremamente difícil?

Para uns a vida é mais fácil, dado o histórico familiar, mas como pode o angolano normal, por ex. um motorista, com o seu ordenado de 800 USD (alguns ganham menos), pagar 200 USD para que os seus filhos possam ingressar na escola, considerando as outras despesas todas? E estou a falar do ensino básico. Imaginam o preço das propinas nas faculdades? Tudo isto nos leva a pensar de como a vida é injusta e de como uns têm tanto e outros tão pouco. De acordo com o Coficiente de Gini (o coeficiente de Gini segundo a ONU, a CIA e o Banco Mundial permite medir a igualdade de riqueza da população – quanto mais próximo de 100 menos igualdade de riqueza) Angola tinha em 2000 (não dados mais recentes) o valor de 58,6, abaixo por ex. da África do Sul, que em 2009, tinha 63,1 e por ex. acima do Gana, que em 2006, tinha o valor de 42,8. Existe espaço para fazer melhor? Naturalmente que sim!

No meio de todas estas condicionantes e limitações, o certo é que Angola permite-nos trabalhar, desde o nascer até ao por do sol. Permite-nos ter tempo para a família e desfrutar de forma especial e única dos momentos de convívio entre os novos amigos aqui descobertos e que possivelmente irão originar amizades verdadeiras pois no meio do caos e do menos positivo, os bons momentos por mais simples que sejam, são sempre especiais pois lembram-nos que há mais iguais a nós, e que no fundo, apesar de longe dos nossos, os nossos que tal como nós estão por aqui, já começam a fazer parte da nossa nova família angolana.

Aqui somos muito poucos, e como não temos familiares por perto, uma simples partilha de uma refeição, de uma aventura ou de um por do sol, enche-nos de alegria e de um sentimento de estar junto a outros que tal como nós, embarcaram nesta aventura consciente. Estamos juntos, certo? 

Por isso, sem receios, digo que Angola faz-nos temer pela vida quase diariamente, exige-nos sangue frio em muitos momentos de um só dia, mas também nos dá o melhor da vida.

Exige-nos que apreciemos o melhor de cada momento, de cada amizade, de cada alegria pois não temos tudo o que estávamos habituados, mas o pouco que temos é muito importante e tem de ser vivido de forma apaixonada e intensa. Impele-nos a procurar novos amigos e a constatar de que conseguimos apreciar, dar valor e saborear aquelas coisas que antes tínhamos como garantidas pois tínhamos em quantidade.

Aqui aprende-se a dar valor ao pouco. E isso é tão positivo e enriquecedor. Ainda mais para quem tem filhos como nós. Acreditem, é esta a base de uma boa educação. Educar e viver com pouco para dar valor quando se tem mais. E as coisas mais fúteis como ter um telemóvel, umas calças de marca ou a ultima Nintendo deixa de importar pois uma ida à praia ou à piscina ou o comer um gelado com uma vista soberba enriquecem-nos muito mais a alma e isso, Angola dá-nos de graça. Não existem índices ou coeficientes no mundo, da ONU ou de outras entidades, para medir esta felicidade genuinamente obtida de graça e com prazer, porque se existissem, certamente Angola estaria muito bem posicionada. O índice mais próximo que conheço é a Felicidade Interna Bruta, ou Gross National Happiness, mas não tenho dados para partilhar convosco. Se alguém tiver, que avise.

E quando podemos e temos liberdade, fazemos como os angolanos, vivemos a vida da melhor forma possível, como se esse dia fosse o ultimo.

A quem diariamente fala comigo de forma virtual, quero dizer que a nossa vinda para Angola foi ponderada e consciente e cada vez mais penso que foi uma excelente decisão. Permitiu-nos repensar as nossas prioridades de vida e de objectivos familiares. Deixámos de lado as futilidades e dedicámo-nos a dar mais valor ao estarmos em família, a aproveitar melhor cada momento livre e a aproveitá-lo ao máximo. Não temos dias fáceis, não minto, mas de forma mais fácil conseguimos resolver os problemas. Porque temos outra disponibilidade. E porque ao olharmos à nossa volta e ao vermos a pobreza que nos rodeia e em que muitos vivem, olhamos para nós e pensamos que o que nós temos, é o suficiente para nós, que provavelmente temos a mais. E partilhamos o que temos com quem nada tem. E aí pensamos que temos mesmo muita sorte pois temos saúde, uma família unida e que é o bastante para sermos felizes. Tudo o que vier a mais é bom. Isto foi o que Angola nos ensinou em pouco tempo. E é isto que transmitimos aos nossos filhos e que eles já aceitaram como o correcto.

Por isso os angolanos têm uma peculiar forma de viver e estão sempre bem-dispostos, aproveitando o dia ao máximo e com tudo o que têm direito.

Pois nunca se sabe onde estaremos no minuto seguinte.

Por isso dêem graças a Deus pelo que têm.

Há quem não tenha mesmo nada.

Fiquem bem, Ya (ainda estou para descobrir se é assim que se escreve)?

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A Sinfonia do BNA

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