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Coronavírus: um “malware” para a economia

Michel Pedro

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A epidemia do novo coronavírus, agora designado por COVID-19, já fez mais de 2800 mortos. O surto e o número de vítimas que se registam “estremeceu” a economia mundial, sendo que a de Angola não podia ser excepção. O medo de contágio força o encerramento das “portas” para os viajantes chineses e as incertezas tomam conta dos mercados internacionais.

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O que se pensava ser apenas uma gripe que passaria em poucas semanas ou de fácil tratamento, o coronavirus é afinal um “malware” que ameaça desestabilizar a economia mundial, especialmente os países que têm relações muito fortes com a China com poucas opções de se fecharem ao país asiático por completo e que são, muitos deles, petro-dependentes, como é o caso de Angola.

Agora que se está diante de quase uma obrigação a que se fechem as fronteiras aos viajantes chineses, ou a qualquer um que esteja em solo chinês e queira regressar ao país de origem, devido ao vírus, a economia mundial tem reagido negativamente ao surto, causando “pânico” nos principais mercados internacionais e, consequentemente, pressionando os indicadores económicos e preços de commoditys, acções, para mínimos.

A título de exemplo, economistas citados pela agência de informação financeira Bloomberg, projectaram, na semana passada, um crescimento mais lento desde 1990 da economia chinesa. O Goldman Sachs “estima que o PIB deve mostrar expansão de apenas 2,5% neste trimestre e se recuperar nos meses seguintes”.

Para a nossa economia, as coisas podem correr de mal a pior, uma vez que as vendas do petróleo bruto angolano concentraram-se nos últimos anos na China, com um volume de 65% da nossa produção até ao ano passado, sendo que outros 21% têm como destino India, Espanha, Estados Unidos, África do Sul e Portugal.

Em 2018, Angola exportou 23,7 mil milhões de dólares em petróleo para a China, de acordo com o jornal Expansão, que para um preço médio de referência de 70,6 USD por barril, corresponde a quase 336 milhões de barris. Embora parte dessa enorme quantidade tenha servido para pagar a linha de financiamento com o gigante asiático, e apenas o restante obedece a uma venda comercial.

De acordo com notícias postas a circular nos sites de agências de informação financeira “uma série de indicadores preliminares da economia da China em fevereiro confirma que o surto de coronavírus afetou a produção e o consumo, já que as fábricas ainda operam abaixo da
capacidade e o transporte é limitado”. O que se traduz na diminuição de oferta de bens e
serviços chineses.

No entanto, as exportações do petróleo angolano para a China - que podem ser afectadas - não serão o único problema. O nosso país importa até os mais básicos dos bens de consumo (mesmo um alfinete ou uma agulha), pois não há produção local. No sentido contrário, o nosso mercado registará uma demanda insustentável de bens com origens chinesas, basta ver a quantidade de telemóveis, por exemplo, que são produzidos na China.

A mim não me preocupa apenas o sector petrolífero, onde os riscos de contágio são menores devido às formas como se processam as transacções nesse sector. A nossa economia é fortemente caracterizada pelo comércio, com o informal a dominar, é este tipo de transacção que a mim preocupa devido ao grande fluxo de pessoas a viajarem para a China.

Com uma economia 70% informal, as compras no exterior são feitas presencialmente, sem possibilidades de os fornecedores enviarem mercadorias para Angola com simples envio e recebimento de e-mais ou outros meios que viabilizem o comércio, diferente do que acontece no mercado formal, onde um importador pode comprar ao seu fornecedor sem a necessidade de se deslocar.

São inúmeras viagens para a China que sustentam o nosso mercado, em especial o paralelo. Desde o surgimento do vírus, essas viagens reduziram, são poucos os que ainda se arriscam viagens, o que exerce forte influência nos preços.

Angola já regista graves problemas na economia devido à desvalorização do Kwanza causada, principalmente, pela queda do preço do barril de petróleo, empresas declararam falência, tendo agravado a taxa de desemprego e, por conseguinte, reduzindo o consumo, pois os consumidores optam pela contenção de gastos enquanto esperam sinais de recuperação da economia até poderem voltar a trabalhar.

Opinião de
Michel Pedro