Escritor Adolfo Maria considera que “há um outro clima de liberdade” no país

O escritor Adolfo Maria, privado da nacionalidade angolana durante as quase quatro décadas em que esteve exilado em Portugal, considerou que "há um outro clima de liberdade" em Angola, "uma atitude totalmente diferente da anterior".
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"Antes, havia restrições", disse Adolfo Maria, na apresentação da sua análise sociopolítica, económica, histórica e cultural materializada no seu livro intitulado "Angola - A Hora da Mudança", na União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), em Lisboa.

Adolfo Maria, expulso pela polícia política em 1979, frisou que "a prova" de que não havia liberdade foi "o que sucedeu com a repressão a aqueles jovens chamados revus", os 17 activistas que foram detidos e acusados de preparação de golpe de Estado em 2015, e que acabaram por ser condenados a penas efectivas de prisão.

Nacionalista ligado à denominada Revolta Activa, um grupo contestatário que surgiu no seio do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) em 1974, o escritor assinalou que "há um outro clima de bastante liberdade" após João Lourenço ter assumido, em 2017, a Presidência do país, sucedendo a José Eduardo dos Santos, chefe do Estado durante 38 anos.

"Agora, há um apelo à sociedade civil. A comunicação social estatal passou a ser muito mais arejada, falando dos problemas do país. Neste momento, considero que há um outro clima, de bastante liberdade", vincou.

Considerando que o mandato de João Lourenço "é uma lufada de ar fresco", Adolfo Maria afirmou que anteriormente à mudança na Presidência havia "uma coação no poder" com José Eduardo dos Santos na Presidência.

"A liberdade era aquela que ele queria dizer, embora houvesse já órgãos de comunicação social independentes. Mas havia realmente restrições", declarou, acrescentando que, "teoricamente, havia liberdade" em Angola.

Nascido em Luanda em 1935, Adolfo Maria lembrou que "Angola era um Estado pluripartidário desde os acordos de Bicesse", que, em 1990, permitiram um armistício temporário na guerra civil, entre MPLA e União Popular de Libertação de Angola (UNITA), e determinaram a realização das primeiras eleições livres e democráticas, supervisionadas pelas Nações Unidas.

De 83 anos, Adolfo Maria - que esteve 10 anos à espera de passaporte angolano, atribuído depois de João Lourenço ter sido empossado para um mandato presidencial - referiu que, embora exista liberdade, "há muitas coisas a corrigir no Estado".

A título de exemplo, o escritor e nacionalista angolano defendeu uma revisão da Constituição, "para uma clara separação dos três poderes: legislativo, executivo e judicial".

Adolfo Maria afirmou que o livro "Angola - A Hora da Mudança" enquadra-se "no objectivo de sempre: contribuir para o progresso de Angola".

"Daí os temas que aborda e a maneira como são tratados", acrescentou, desejando que o livro seja "útil" e "encoraje o debate dos temas que trata", porque "o debate é extremamente necessário".

"O país precisa de debate, tanto o poder político como os cidadãos", afirmou, admitindo que para já não tem planos definidos para viajar para Angola.

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