Estamos em Angola!

Consegu(ir)!


Consegu(ir)!

Cláudia Rodrigues Coutinho

Casada e com 2 filhos. Deixou a vida que tinha, em Portugal, e experimenta, desde Setembro 2015, a dimensão de uma família lusa, a viver, em Angola.

Aproveitando a breve pausa do médico que nos atendia, ela inclinou-se para mim com um olhar bem convicto e firme (expressão que ainda guardo), e de um modo, simultaneamente, sereno e curioso, perguntou-me: "Mãe?... Porquê Angola? Mas porque temos de ir para este país? Porquê, mãe?"
Cláudia Rodrigues Coutinho:
    Cláudia Rodrigues Coutinho

Lancei-lhe um sorriso e olhar confiantes (na tentativa de disfarçar a surpresa daquela pergunta e da minha inércia para a responder), e disse-lhe que o tínhamos de continuar a consulta. Ela voltou-se de novo para o médico que a olhava de uma forma serena e atenta e assim continuámos a ouvir.

Nunca respondi à pergunta. E ela nunca mais a fez.

E não precisou de a fazer, pois, desde esse dia, que permanece comigo.

Estávamos os três na consulta do viajante, no Instituto de Medicina Tropical, em Lisboa, para tratar as informações e recomendações que eram necessárias saber para a realização da nossa viagem para Angola.

Esta consulta, para além da administração das vacinas, serve para alertar e abordar todos os temas que importam considerar para quem viaja para os países tropicais.

No nosso caso, à primeira pergunta do médico sobre o tempo de permanência, em Luanda, eu respondi: para viver... por tempo indeterminado... Senti um olhar de curiosidade e admiração...

Esta consulta aborda todos os assuntos que são importantes para o esclarecimento e para a segurança e saúde, de todas as pessoas que viajam para os países tropicais: são administradas as vacinas da febre amarela e tifóide, é feita a prescrição do medicamento da profilaxia da malária e da vacina da hepatite, somos informados sobre o comportamento e os hábitos dos mosquitos (do dengue e da malária) e de todas as doenças possíveis, é recomendado como e quando devemos administrar os repelentes dos mosquitos (que como o médico disse, passaria a ser o nosso perfume), quais as marcas dos repelentes que são aconselhadas devido às suas componentes, qual a temperatura ideal do ar condicionado das casas como mais uma medida preventiva, o vestuário que devemos usar (leve e claro) devido à temperatura, os riscos de comer fora de casa, como as saladas, as frutas cruas, o gelo, etc., o uso da água da rede, o risco da raiva dos cães e gatos de rua (a raiva  pode ser fatal), o risco dos assaltos,  de não podermos andar livremente  na rua com sinais que despertem a atenção, é feita a prescrição de alguns medicamentos que devemos sempre ter como as diarreias e outras infecções, informação sobre o clima, sobre os hospitais, como desinfectar a água... enfim... um sem número de tantas novas preocupações e rotinas  que teríamos de começar a praticar e a acolher no nosso futuro dia a dia em Angola, em Luanda.

O D. não ouviu absolutamente nada de tão fascinado que estava com a encantadora marquesa que se encontrava ali no consultório a olhar para ele como que a chamá-lo a descobrir as suas tantas funcionalidades e utilidades. Oportunidade, esta, que ele não deixou passar, nem que não fosse para experimentar o seu conforto e explicação para os manípulos.

A M., por seu lado, permaneceu todo o tempo imóvel e sem pestanejar, a escutar e a registar cada palavra e cada informação que era dita pelo médico (e que ainda hoje ela continua a seguir cegamente).

Eu olhava-a, de vez em quando, de soslaio e reparava que também ela, de vez em quando, me observava. Tentava perceber a minha expressão. Mas não dizia nada..Só olhava e escutava..

Hoje confesso que aquela interrogação conseguiu “amolgar” a segurança que me revestia até ao preciso momento da entrada naquele consultório.

Na verdade, eu não sabia responder à pergunta da minha filha no contexto em que estava.

Eu estava ali, com os meus filhos, numa consulta que expunha de forma clara e evidente todos os riscos de viver em Luanda.

Até então, segui apenas a minha intuição e o meu coração e entendia que era esse o lado certo onde devíamos estar.

Aquela pergunta chocou nas seguranças e certezas de uma mãe que deseja o melhor para os seus filhos.

De uma mãe que deseja a segurança dos seus filhos, de uma mãe que deseja uma educação eficaz e segura, que deseja o seu bem-estar, de uma mãe que deseja o conforto e a segurança. De uma mãe que deseja a sua felicidade.

Confesso que aquela pergunta me fez tremer.

Confesso que aquela pergunta me conferiu uma insegurança inquietante.

Uma insegurança na Mãe.

Na Mãe que tem de saber sempre tudo.

Na Mãe que tem de saber responder a tudo.

Na Mãe que tem de saber, sem margem de erro, sobre o que é melhor para os seus filhos.

Na mãe que tem de saber onde e como estão mais felizes.

Aquela pergunta substitui o ponto final pelo ponto de interrogação e reticências.

Bem sei que nesta missão de sermos pais, nem sempre, as respostas surgem no momento que queremos.

As perguntas ficam muitas vezes por responder e determinam, até, novas dúvidas e interrogações.

Estava a ser confrontada com uma insegurança que me transportava para um medo que não conseguia contestar (e que ainda, confesso, por vezes permanece).

Estamos a viver em Luanda, há sensivelmente cinco meses e as hesitações continuam..

Nuns dias consigo responder e noutros dias não consigo responder.

Mas uma coisa, eu sei. Estamos todos diferentes. Estamos mais abastados em experiências e conhecimento de novas realidades (boas e más). Estamos mais abastados por conseguir olhar sem julgar, por conseguir falhar e persistir.

E fico feliz quando penso naquilo que já conquistamos e concebemos de novo.

Era coisa que nunca aconteceria se tivéssemos ficado do outro lado.

E agora que estamos cá, ninguém nos pode tirar todos os sabores e ensinamentos por, simplesmente, termos “Ido”.

A sensação das borboletas na barriga que experimentaram (experimentei) no primeiro dia de escola, em Luanda, constituiu uma das primeiras e grandes provas à nossa capacidade de superar.

No primeiro dia de aulas da M., entrámos no portão da escola de mãos dadas e bem apertadas. Chegámos sem conhecer nada nem ninguém e naquele momento vários pensamentos me percorrem. Enquanto a M. e o D. experimentavam um primeiro dia de aulas incerto e angustiante, os seus amigos experimentavam mais um primeiro de aulas, perfeitamente tranquilo e certo. Será que estava certo? Seria o melhor para eles?

Não sabíamos onde eram os blocos e a sala. Lá fomos perguntando às vigilantes e sob as suas orientações lá chegámos ao local certo. Perguntámos onde era a sala e quando nos preparávamos para subir, fui avisada que os pais não podiam subir.

A partir dali a M. seguiu sozinha e por sua conta.

Senti um amasso no estômago e ao mesmo tempo um enorme orgulho enquanto observava a minha filha a subir aquelas escadas, de forma serena. Umas escadas que ela não conhecia e não sabia o que ia encontrar e quem ia encontrar.

Só sabia que tinha de ir e encontrar. E foi. E conseguiu.

Sei que tem muitas escadas para subir ao longo da sua vida, onde o medo do desconhecido controla a harmonia das certezas e das verdades já adquiridas.

Mas que depois de ultrapassadas são transformadas em somas, em vez de subtracções. E são essas somas que constituem a nossa estrutura, o nosso crescimento.

Fui-me embora da escola e deixei-a por sua conta.

E ainda bem. Sabia que apesar de estar a sentir medo e angústia, também ia ficar a conhecer o sentimento de uma enorme realização por ter conseguido!

Temos aprendido muito com esta experiência onde resistem pontos de interrogação sobre onde devemos estar, sobre com quem devemos estar, sobre onde estamos melhor e sobre como estamos melhor.

Será que saberei dar a resposta certa sobre a razão de estarmos “daqui”?

Eu não sei a resposta.

Mas sei que, todos os dias, olho para os filhos e sinto um imenso orgulho e uma grande admiração por, simplesmente, estarem(mos) a conseguir .

E sobre isso eu não tenho a menor dúvida!

No meio dos medos, das incertezas, das angústias, das saudades e das borboletas na barriga, impera a maior sensação que nos transporta para a liberdade única de termos tentado e de termos conseguido!

De conseguirmos ser filhos, netos e amigos à distância.

De conseguirmos transformar conhecidos, em amigos.

De conseguirmos transformar casas frias e desconhecidas nos nossos lares.

De conseguirmos transformar a saudade, em força e inspiração.

De conseguirmos viver no cinzento das nuvens.

De conseguirmos pertencer a todo o lado e a lado nenhum.

De conseguirmos (re)inventar.

De conseguirmos superar.

De conseguirmos ultrapassar.

De conseguirmos transformar o “longe” no “perto”.

De conseguirmos partilhar os nossos sorrisos e choros com os ecrans do Skype, Messenger ou Whatsapp.

De conseguirmos transpor as nossas vivências nos melhores adjectivos e nas melhores fotos.

De conseguirmos resumir as nossas emoções em smiles com a cara triste ou alegre, em bonequinhos, em cifras e em corações.

De conseguirmos aprender.

De conseguirmos transformar um lugar e um país que não é o nosso, no lugar onde somos felizes.

De conseguirmos saber estar.

De conseguirmos saber viver.

De conseguirmos saber compreender.

De conseguirmos respeitar.

De conseguirmos respeitar Angola.

De conseguirmos entender.

De conseguirmos entender Angola.

De conseguirmos sentir Angola no coração.

De conseguirmos sentir sempre Portugal no coração.

De conseguirmos saber receber e aproveitar a simpatia do povo Angolano através da sua humildade, bondade e resiliência.

De conseguirmos vibrar com o ritmo das músicas angolanas e adoptá-las como os nossos.

De conseguirmos saber olhar e gostar de uma Angola que nos surpreende, que nos causa incertezas e ao mesmo tempo nos seduz e encanta.

De conseguirmos ouvir e saber gostar, em simultâneo, das músicas de Yola Semedo, Yuri da Cunha e C4Pedro ou da Mariza, Rui Veloso e Camané.

De conseguirmos gostar de mufete e caldo de peixe e de bacalhau cozido e cabrito.

De conseguirmos saber estar.

De conseguirmos falhar.

De conseguirmos (re)começar.

De conseguirmos Chegar

De conseguirmos Partir.

Lembro-me sempre das palavras da poetisa Cecília Meireles:“ Liberdade de voar num horizonte qualquer, Liberdade de pousar onde o coração quiser”.

Sermos pais é uma bênção (não temos de ser todos pais e respeito quem decide não o ser).

Ajudar um filho a crescer para se tornar numa pessoa digna, humilde, que respeita os outros, que é honesta e segura de si, designa uma missão que nos arrebata para imutáveis duelos sobre as nossas convicções e verdades.

O sentimento de os ver crescer de perto, de estar com eles diariamente, a dar o melhor de mim, a dar o que consigo dar - o meu tempo, o meu bem-querer, as minhas repreensões, os meus conselhos, os meus medos e erros – independentemente do lado onde estamos, constitui, com toda a certeza, o meu ponto de exclamação.

E posso responder unicamente à M.:

Porque, Sim!

Porque estamos em Angola!

Porque conseguimos tentar!

Porque conseguimos “Ir”!

Porque conseguimos “ consegu(Ir)!”

 

P.S. Depois de ter escrito a crónica “Sobre(viver) em Angola”, não podia deixar de aproveitar esta oportunidade para agradecer a todos os que me são queridos e a todos os (des)conhecidos que leram e entenderam o meu texto. Escrevi-o de coração e recebi cada mensagem vossa com muita alegria e motivação. A escrita constitui um dos grandes pontos de exclamação da minha vida. Quando escrevo ponho a limpo todas as minhas emoções e (in)certezas. Obrigada por me ajudarem a conseguir.

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