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Uma visão estratégica: Infraestrutura portuária beneficia várias gerações


Uma visão estratégica: Infraestrutura portuária beneficia várias gerações

Jean-Claude Bastos de Morais

Fundador e Presidente do Conselho Consultivo do Grupo Quantum Global, uma empresa de investimento com foco em África

Posicionado entre os dez maiores portos do mundo, o porto de Jebel Ali tem uma extensão de 134km² e está equipado com 67 docas que movimentam 21m TEUs (unidade equivalente a 20 pés). Construído em 1976 e inaugurado em 1979, Jebel Ali começou com um novo programa de expansão de forma a suportar 55m TEUs até 2030.
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A visão de Sheikh Rashid bin Saeed, líder do Dubai na época, em transformar a zona do deserto em um dos maiores portos do mundo foi considerada impensável na altura. Muitos dos seus conselheiros tentaram dissuadi-lo de prosseguir com o desenvolvimento do porto de Jebel Ali visto que o porto Rashid, localizado mais proeminentemente no Dubai Creek, ainda estava a ser subutilizado. Jebel Ali estava localizado numa zona remota a 30 km de Dubai e sem nenhum porto natural. A margem da sucessão de liderança do Sheikh, Rashid bin Saeed pelo seu filho e actual governador da região, sua alteza Sheikh, Mohammed bin Rashid, o mesmo é apontado de ter referido que o então porto não estava destinado a sua geração, nem a geração vindoura mas a sua construção deveria prosseguir pois haveria um momento que não o poderiam financiar. Após 40 anos, Jebel Ali não é só o maior porto artificial do mundo, como também o maior activo comercial do EAU em tempos modernos. 

A história do Dubai pode servir de lição para África, a medida que o desenvolvimento portuário cria repercussões positivas para os outros sectores, como o sector da tecnologia e transportes, além de criar empregos e aumentar o crescimento regional. Investir em grandes projectos de infraestrutura de longo prazo, como o caso dos portos, pode desempenhar um papel crítico no crescimento inclusivo e sustentável.

Muitos países africanos ainda sofrem um défice de infraestrutura, especificamente nas áreas de energia, transporte e tecnologia. A exemplo do Dubai, o desenvolvimento portuário é uma área, que se aproveitada, tem o potencial de vincular as comunidades menos desenvolvidas as oportunidades do mercado e reduzir o custo de produção das empresas, aumentando assim o crescimento e a produtividade (que é tipicamente mais alta em países que possuem infraestrutura adequada), além de reduzir o custo de fazer negócios (Africa Investment Index [AII]).

De acordo com o relatório do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) “Desenvolver as Infraestruturas de África para fortalecer a sua Competitividade”, que explora os desafios enfrentados por África no seu plano de desenvolvimento, revela que os projectos de infraestrutura têm o poder de acrescer em 2% o crescimento do PIB continental. De acordo com o relatório, o desenvolvimento infraestrutural quando sustentável é crucial para a integração económica de África. As economias africanas podem iniciar esse processo de integração se tais projectos infraestruturais forem concebidos de forma a conectar os centros de produção. O que proverá maior competitividade para a África, permitindo que o continente explore os mercados regionais e beneficie-se da globalização através do investimento e do comércio”.

Projectos de grande escala e de longo prazo, como o desenvolvimento de portos, só são possíveis com apoio nacional e governamental. As parcerias públicas privadas (PPP) podem actuar como o financiamento necessário criando assim condições para a criação das condições necessárias para o desenvolvimento portuário.

Algumas empresas de investimento em África já começaram a tirar proveito do enorme potencial financeiro e de desenvolvimento portuário. O Grupo Quantum Global, por exemplo, é uma empresa de private equity com sete fundos africanos focados no sector, incluindo um fundo de infraestrutura. O Fundo financiou uma PPP (Parceria Público e Privada) entre a Caioporto S.A. e o Governo angolano para desenvolver um porto de águas profundas na província de Cabinda em Angola. O PoC está estrategicamente localizado a nove quilômetros da costa central de Cabinda, com a fase inicial a incluir o desenvolvimento da infraestrutura portuária, uma vasta instalação de quase 150 hectares com terminais e estruturas marinhas bem como unidades de armazenamento industrial, escritórios administrativos e de logística. Sendo o primeiro porto de águas profundas de Angola, o PoC será um catalisador para a criação de um ecossistema económico em Cabinda e Angola em geral, e um portal para os países da região. Como visto no Dubai e nos Emirados Árabes Unidos, o sucesso do porto Jebel Ali permite que os efeitos multiplicadores de outras indústrias também sejam aprimorados. O PoC será um centro de importação e exportação que acolherá zonas francas e criará um ecossistema para cadeias de suprimentos abrangentes que melhorem directamente o PIB. A médio prazo, prevê-se que o porto crie cerca de 30.000 novos postos de trabalho, dos quais 1.600 serão postos directos no porto e nas infraestruturas adjacentes, reduzindo assim o desemprego local em 16%.

O porto Jebel Ali, actualmente reconhecido globalmente pela sua produtividade, é um elemento chave da estratégia global de comércio do Dubai e, portanto, surge como catalisador da prosperidade económica e do desenvolvimento sustentável. No contexto africano, onde o desenvolvimento de infraestruturas desempenhará um papel determinante no crescimento económico, os projectos de grande porte e longo prazo, como o PoC, têm criado enormes benefícios para os stakeholders nacionais e regionais bem como fortes retornos para os investidores.

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