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Opinião Uma viandante sobre rodas

Pirâmides e palmeiras…

Inês Sarzedas

Viajar é muito mais do que percorrer quilómetros de estrada.

Foram muitas as vezes que passei pela placa que sinaliza a existência desta localidade. Por um motivo ou outro, quase sempre relacionados com a pressa de chegar a um outro destino, nunca foi oportuno desviar caminho. Mas a verdade é que o meu pensamento ficava parado neste nome tão sugestivo, tentando adivinhar o que haveria para lá da linha do horizonte.

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Após pouco mais de 30 quilómetros de estrada de terra batida que parece não ter fim (sensação que tenho sempre que vou ao encontro do desconhecido), uma paisagem árida e empoeirada, com pouca vegetação, onde apenas a imponência dos embondeiros se destaca, sem vislumbrar vida humana, uma última curva mais acentuada deixa-me perceber que tenho que parar. Cheguei. Tenho a certeza. A paisagem a este ponto do percurso muda radicalmente e tenho a noção que realmente chego ao destino pretendido. 

Do alto de um morro, observo tudo o que se apresenta ao meu olhar e imediatamente consigo perceber porque razão, no século XVI, deram a este local o nome que ainda hoje mantém. Parece que estou perante uma tela pintada a óleo, de cores fortes e traços bem delineados. Nesta pintura há mar, falésias e praia. Há um rio, palmeiras e campos cultivados. Há uma aldeia, pequenos barcos de pesca ancorados, mulheres e crianças junto à margem. Se fosse um sonho, estaria diante de uma paisagem egípcia. Um oásis.

Ora, não em modo de sonho, mas talvez numa visão deslumbrada de quem avista terra depois de muito tempo sem a ver, quem chegou aqui por via marítima há cinco séculos atrás, foi isso mesmo que pensou. Olhou para as reentrâncias e saliências das falésias em torno da praia e viu pirâmides. Olhou para as palmeiras que acompanham o rio ao longo das suas margens até à foz e viu um oásis. Em homenagem a esta paisagem mística tão típica do norte de África, assim se baptizou esta comuna, situada na província de Benguela, de Egipto Praia.

Ainda no alto do morro onde me encontro, está situado o Forte de São Sebastião do Egipto. Construído pelos portugueses em meados do século XIX, após a abolição da escravatura em Portugal, o intuito era proteger as povoações locais das armadas holandesas e inglesas que por aqui passavam e aproveitavam a formação rochosa das enseadas para se evadirem ao patrulhamento do Atlântico contra o tráfico negreiro. Hoje, encontra-se num estado de degradação bastante acentuado, mas ainda mantém o seu ar imponente na paisagem.

Lá em baixo, a extensa praia convida a um passeio. Desço a pé o pouco que resta da estrada empoeirada e páro junto ao início do areal. O calor que se faz sentir obriga-me a ficar uns minutos à sombra de algumas árvores, cujo nome desconheço, mas muito oportunas. Aproveito para decidir para que direcção vou. Há praia para os dois lados. Opto por ir para o lado direito, onde se situa a foz do rio. Não muito distante, consigo ver que existe um caminho que dá acesso a uma das margens, apenas separado do mar, nesse ponto, por um banco de areia e alguma vegetação. Começo a caminhada e os primeiros metros não são fáceis. A areia está coberta por cascalho, redondo e de tamanho relativamente grande, o que provoca algum desequilíbrio e obriga a ir com atenção, olhando para baixo para não cair. A Natureza sabe o que faz e estes sedimentos, neste preciso local, têm a sua razão de existir. Dizem os populares que o mar deita fora aquilo que não lhe pertence. Aqui é assim e em dobro. O rio “deita fora” os sedimentos que a corrente transporta e o mar não “os aceita”, fazendo assim uma barreira natural, não permitindo que as águas se juntem e o rio siga o seu percurso, bem definido, até à foz.

A praia está praticamente deserta. Por ser Domingo, achei que iria encontrar mais pessoas. Apenas um casal passeia pelo areal, enquanto fotografam a paisagem. Talvez não seja um lugar ainda muito conhecido. Talvez a distância a que se situa do Lobito e Benguela seja o motivo para que escolham outra praia, mais perto de casa. Como não há restaurantes nas proximidades do Egipto Praia ou mesmo bares de praia, obriga as famílias a uma logística extra vir até aqui passar o dia.  

Terminada a parte mais “difícil”, continuo agora pela areia, fina e clara, até chegar onde o rio se cruza no meu caminho e não me deixa avançar mais. Do outro lado estão as falésias e, mesmo com a água pelos joelhos, não adianta atravessar, pois não teria por onde andar, a maré está cheia. Contorno então o estreito caminho que me leva até à margem direita do rio e, deslumbrada como os navegadores do século XVI, entro numa outra dimensão. Perco o azul do oceano e o amarelo da luz que bate nas falésias e agora é o verde que abunda. Um verde intenso e vivo, uma atmosfera quase bucólica, sarapintada por outras cores, aqui e ali, nos barcos ancorados e na roupa das mulheres e das crianças com quem me cruzo. Até a água do rio é esverdeada, devido ao “excesso” de verde das margens. Deixo para trás o lado mais “turístico” e entro no lado onde as gentes desta comuna retiram o bem-estar dos seus dias. Deste lado não há “domingos”. Aqui todos os dias são dias de construir o amanhã.

O rio Balombo, cuja nascente se situa no Planalto Central, na província do Huambo, como quase todos dos rios de Angola, é uma mais-valia no âmbito da agricultura e da pesca. As suas águas são abundantes em bagre e lagosta. Dizem os pescadores sobre o bagre que “nem é doce nem salgado”, “é estranho e muito apetitoso”. A lagosta verde é uma espécie endémica desta região e que faz dela uma apetecível fonte de exportação para as outras províncias e até mesmo para outros países africanos. As águas do rio são também uma fonte de irrigação para os terrenos ao longo das margens, onde se cultivam cebola, tomate, feijão e milho. Mantém ainda as palmeiras vigorosas e estas, por sua vez, estão dispostas de forma a criarem uma estufa natural, havendo sombra na medida certa para proteger as plantações do sol. 

Aproximo-me de umas senhoras que lavam roupa e louça no rio. Acolhem-me com sorrisos e gargalhadas simpáticas, sem nunca deixarem os seus afazeres. Um pouco mais afastada deste grupo barulhento e bem-disposto está uma senhora com um bebé. Chora com todas as suas forças. Está sentado no chão, sobre uma samacaca, só com a fralda vestida e escorrem-lhe lágrimas até ao peito. “É sono”, diz a mãe, que percebe o meu ar intrigado a observar a cena. O facto de me ter visto não altera em nada a sua vontade de chorar. Lembro-me que tenho um “sambapito" na mochila e, com a concordância da mãe, retiro o papel que envolve o doce para lho dar. O choro termina imediatamente e, de olhar atento, o seu bracito rechonchudo e nu estende-se na minha direcção para aceitar a oferta. Eu e a mãe rimos com gosto. Rapidamente deixamos de perceber se o que escorre pelo queixo do pequenote são o que ainda resta das lágrimas ou a saliva peganhenta do “sambapito”, pela falta de jeito com que põe e tira da boca a guloseima. Fica a certeza porém, que enquanto durar aquela bolinha doce, não haverá mais choro.

E sem mais choros, agora são gargalhadas de outras crianças que me levam de volta à margem do rio. Duas meninas chapinham dentro de água. Mergulham, fazem diabruras, atiram água uma à outra e riem-se muito por isto. Que pena não ter vindo preparada para um dia na praia. Ter-me-ia juntado a elas. Constrangimentos de adulto não me permitem fazer o mesmo que a Mariana e a Neusa, que não se preocupam nada em molhar o que trazem vestido. Uma de calções e blusa, a outra com um vestido côr-de-laranja, talvez seis ou sete anos de idade, o importante mesmo é a diversão. E afinal, não são duas, mas sim três meninas. A Vanessa, cuja presença não reparo logo, por estar mais afastada, não se junta à brincadeira. É mais velha que as outras e anda atarefada com algo que não sei o que é. Enfia os braços na água até ao cotovelo, de joelhos, espera um pouco (é o que me parece que faz) e depois afasta-se, sempre de joelhos e com as mãos dentro de água e sempre para o mesmo sítio. “O que estás a fazer?”, “A apanhar camarão”, “E o que vais fazer com o camarão, é para levares para casa, para comer?”, “Não!!!” Por esta altura estamos as duas num impasse. Eu, por ainda não ter percebido o que iria ela fazer aos camarões. Ela, de sorriso maroto, prolonga propositadamente o meu estado de ignorância, encantada por saber mais que eu. “Então, é para quê?”, “É para dar ao meu pai. Ele é pescador”. “Espera…” Levanta-se e vai até ao sítio onde sempre ia a determinada altura da sua tarefa, volta a enfiar os braços na água e retira um recipiente. Regressa com orgulho estampado no rosto. Nas mãos traz uma panela de alumínio, tapada com uma tampa do mesmo material e presa num dos lados com um atilho de pano (também me explica que o atilho é para a tampa “não se ir embora”). Pelo esforço, a panela parece pesada. Lá dentro, por cima de uma quantidade significativa de areia, que tem a mesma função do atilho de pano, saltitam duas ou três mãos-cheias de camarões pequenos. A água escorre-lhe pela franja encarapinhada e o seu sorriso é contagiante. Faz-me lembrar um dos meninos da Terra do Nunca, onde um pensamento feliz se torna realidade. Volta a ir colocar a panela no sítio onde estava e eu aproveito para me afastar. Levo comigo o seu sorriso e a sua alegria inocente de criança.

Já de volta à estrada, sinto que foi um dia bem passado. Deixo para trás este oásis, já com vontade que chegue o dia do próximo passeio, por outros lugares. E que sejam igualmente bonitos como este.

O pôr-do-sol? … Fiquei de olhos “pregados” ao céu, até à última nesga de luz.

Opinião de
Inês Sarzedas