Centenas protestaram em Luanda contra desemprego e “marimbondo” João Lourenço

Centenas de jovens marcharam contra o desemprego e o "marimbondo" João Lourenço, reivindicando o cumprimento das promessas eleitorais, num protesto marcado por alguns momentos de tensão com a polícia, mas também pela "conquista" da liberdade de expressão.
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Na ruidosa manifestação, que percorreu a zona central de Luanda, começando pelas 10h00 no Largo da Sagrada Família, e terminando pouco depois das 15h00 na rua do Primeiro Congresso (junto do antigo Parlamento), ouviram-se apitos, buzinas e palavras de ordem contra o governo liderado por João Lourenço.

Viveram-se também alguns momentos tensos quando manifestantes mais exaltados tomaram a polícia como alvo da revolta.

A criação de emprego foi a principal reivindicação dos manifestantes, com os jovens a mostrarem o seu desagrado gritando "Queremos o nosso emprego", "Abaixo o MPLA" e "João Lourenço é marimbondo" [vespa, sinónimo de algo nefasto e expressão usada pelo próprio Presidente para se referir à corrupção].

Um porta-voz da organização, Geraldo Dala, de 33 anos, lamentou que o Presidente João Lourenço, que prometeu durante a campanha eleitoral de 2017 criar pelo menos 500 mil postos de trabalho, não tenha conseguido reduzir ainda os níveis de desemprego.

"Decidimos sair mais uma vez à rua - esta é a terceira marcha - porque não se estão a cumprir as promessas eleitorais do Presidente João Lourenço. A juventude está desempregada", disse o ativista, salientando que as estatísticas mais recentes dão conta do aumento do desemprego no país, o que corresponde a mais de três milhões e 600 mil pessoas desempregadas, e lamentando que "não existam políticas públicas concretas para a empregabilidade".

Críticas partilhadas por uma outra ativista, Marinela Pascoal, de 21 anos, que também veio "cobrar" os empregos prometidos e sublinhou que ter emprego é essencial para as famílias conseguirem sustentar-se e é um direito: "Como cidadã sinto que a falta de emprego lesa os meus direitos humanos. Sem emprego não tenho dinheiro para comprar comida nem aderir à educação", nem adquirir energia, vestuário ou outros bens.

Pouco passava das 10h00 quando os jovens, alguns envergando t-shirts alusivas ao “Movimento Revolucionário: onde estão os 500 mil empregos” se foram concentrando na praça da Sagrada Família.

Exibiam cartazes e faixas contestando o governo e queixando-se de que “o povo está a sofrer com as picadeiras dos marimbondos”, mas também com apelos ambientais.

Um dos manifestantes aproveitou para dizer “não à destruição florestal”, enquanto várias zungueiras faziam algum negócio, como Isabel Miguel António.

Apesar de não ter participado na manifestação, a vendedora de pão, de 40 anos, disse concordar com os jovens: "Têm razão porque precisam de trabalhar".

"A pessoa tem de vender, não temos um emprego", desabafou, queixando-se de que estão "a sofrer muito".

Paulino Joaquim Mujanga, do Movimento Revolucionário de Angola, afirmou que "o emprego é mais difícil", enquanto Meguido Mosse, um jovem manifestante de 20 anos, associou a existência das zungueiras ao desemprego e destacou que a falta de emprego "cria criminalidade".

Vigiados de perto pela polícia, que avisou que a marcha teria de parar no Largo da Maianga, para assegurar o cumprimento da lei que exige que as manifestações fiquem a um mínimo de 100 metros dos órgãos de soberania, cerca de 300 jovens iniciaram o desfile por volta das 12h00 em direcção ao Palácio Presidencial.

Pelo caminho, moradores e transeuntes paravam para fotografar e alguns mostraram o seu apoio, juntando-se ao desfile, que prosseguiu sempre marcado pelo ritmo cantado das palavras de ordem anti-governo.

Na Largo da Maianga, onde foram travados por um cordão policial, alguns jovens dirigiram a revolta contra a polícia, que foi brindada com insultos e provocações, enquanto elementos da organização se esforçavam por controlar os mais exaltados para evitar a violência.

E houve quem prometesse não desistir, como "Mister Poor", de 29 anos, que apesar de caminhar só com uma perna e apoiado em muletas, acompanhou todo o desfile: “Estamos cansados com as falsas políticas que eles não cumprem. Eles em vez de darem emprego aos jovens, ficam [a polícia] a bater nas zungueiras. Hoje vamos ficar aqui, pode ser que a polícia venha com cães, mas nós vamos ficar aqui."

Alguns metros abaixo, os manifestantes que tentavam chegar mais perto do Palácio Presidencial foram novamente travados e alguns elementos da polícia rodearam e afastaram à força alguns jovens que insistiam em aproximar-se e gritavam “a polícia é do povo, não é do MPLA”.

Apesar de um polícia ter sido atingido com uma pedra e de se terem ouvido alguns disparos com balas de borracha, as autoridades conseguiram controlar os ânimos sem que tenha havido registo de incidentes de relevo.

Os jovens decidiram continuar a avançar, procurando alternativas para ‘furar’ a barreira policial, mas acabaram por se concentrar na Avenida Primeiro Congresso (onde se situava o antigo Parlamento), onde anteriormente eram proibidas e reprimidas manifestações que terminavam com intervenção da polícia e detenções.

Pouco depois das 15h00, um dos elementos da organização, Miguel Nhoca, usou o megafone para encerrar a manifestação e ler um manifesto, considerando que esta foi "uma das maiores marchas de sempre" e falando da "conquista da Maianga e da Mutamba" [centro de Luanda] como um triunfo da liberdade de expressão.

No manifesto, os jovens deram conta do "aumento da taxa de desemprego em mais de oito por cento desde 2017 até Janeiro de 2019" e disseram que vão pedir uma audiência com o Presidente para apresentar os motivos da sua insatisfação e as suas reivindicações.

Além de Luanda, a marcha contra o desemprego estava também agendada para as províncias de Malanje, Bengo, Kwanza Norte, Lunda Norte, Uíje e Benguela.

Segundo um balanço provisório de Geraldo Dala, a marcha correu bem no Uíje e no Bengo, mas não chegou a concretizar-se no Kwanza Norte, porque foi "interdita".

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