Pedro on the Road: “Percebi que Angola era o meu país preferido em África”

António Pedro Moreira é aventureiro por natureza e o desafio que traçou para si comprova-o. Há mais de um ano deixou o conforto do lar, em Portugal, para partir numa viagem de bicicleta por terras africanas. Ao todo são mais de 15 mil quilómetros, quase sempre a pedalar. O destino? Cabo da Boa Esperança na África do Sul. Do nosso país, onde esteve um mês, leva na bagagem das memórias a imagem de uma Angola diferente, de gente solidária e sempre pronta a estender a mão.
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“Angola foi uma loucura”, garante Pedro. Nóqui, Luanda, Barra do Kwanza, Cabo Ledo, Porto Amboím, Sumbe, Canjala, Lobito, Benguela, Catengue, Chongorói, Cacula, Lubango, Tchibembe, Humbe. Durante 30 dias Pedro viveu e respirou Angola com apenas 11 dólares. A experiência pode ser acompanhada através da sua página do Facebook, "Pedro on the Road".

Pedro, antes de mais fale-me um bocadinho de si. Onde nasceu, como foi a sua infância…

Nasci e cresci em Portugal, numa cidade do Norte a cerca de 30 minutos do Porto. Tive uma infância espectacular, diria. Acho que sempre fui um miúdo activo e imaginativo, e isso fez com que me entretivesse facilmente, fosse sozinho ou acompanhado, a fazer coisas “normais”, ou coisas parvas que, no fundo, eram das mais divertidas.

Criava grupos com os amigos, como os “Aventureiros”, ou o “Trio Dinâmico”... aquele mundo pequeno de uma tão pequena cidade era para mim um minúsculo Universo onde me aventurava, explorando fábricas abandonadas, celeiros em construção, casas desertas onde alimentávamos o temível sonho de estarem assombradas, correndo em campos, a comer uvas sentado em muros redondos, descer ruas de bicicleta de braços abertos e olhos fechados lado a lado com amigos estilo alma-gémea, a recitar poemas escritos na noite anterior, a brincar ao quarto escuro e perceber pelas primeiras vezes o que um beijo na boca era, a beber as primeiras cervejas depois de uma noite a andar de skate pelas ruas desertas, a apanhar autocarros para ir até ao único cinema das redondezas... onde eventualmente um beijo na boca trouxe consigo o amor de uma vida que ainda hoje trago comigo.

O miúdo deu lugar ao rapaz e o minúsculo universo de Vale de Cambra (nr: cidade onde nasceu) deu lugar ao pequeno mundo que fui abraçando, primeiro com os meus pais, depois com os amigos, depois sozinho... evoluindo, mudando, sorrindo.

Como surgiu a ideia de pedalar nesta aventura por terras africanas?

Depois de uma grande viagem pela Ásia, sabia que tinha de continuar. Não sabia onde... mas pensei... África é um continente onde, alguém que exija determinados confortos tem alguma dificuldade, a menos que pague por eles. Neste momento sou alguém que prescinde desses confortos. Um chão e um tecto é fixe, para mim. Mas não sei como serei no futuro. Decidi então correr África o quanto antes, enquanto sou alguém que pode ficar em qualquer lado, dormir no chão sem acordar a queixar-se. Talvez venha a ser sempre assim, mas não o sei....

A ideia do pedal surgiu quando um dia os escuteiros de Portugal me chamaram para ir falar da minha viagem a Lisboa. Estavam lá o Idílio, que tinha ido do Canadá à Argentina de bicicleta, e o Rafael e a Tânia, que tinham ido de Portugal à China da mesma forma. Ouvindo-os falar, ouvindo aquelas estórias, decidi que também queria passar por aquilo, à minha maneira. Nunca mais olhei para trás.

Anda na estrada há quanto tempo? Onde começou a sua viagem e qual é o destino?

Saí de Portugal no dia 4 de Fevereiro de 2014. Fui até Brazzaville (República do Congo) e depois não me deixaram entrar em Kinshasa (República Democrática do Congo), onde contava fazer um passaporte novo, sendo que o meu estava completamente cheio. Tive de voltar a Portugal no dia 25 de Dezembro do mesmo ano. Voltei a África no dia 11 de Abril, ao Togo, depois para o Benim, de onde voei para Brazzaville. Peguei na bicicleta e mandei-me de novo. Portanto, neste momento, estou em viagem há quase quinze meses.

Esta não é a primeira vez que participa numa viagem do género. Quando é que decidiu colocar uma mochila às costas e partir em busca do desconhecido?

Estava em Hampi, na Índia, em 2009. Na altura tinha um trabalho de que gostava, como psicoterapeuta em Birmingham, Inglaterra. Fui passar duas semanas à Índia e certo dia dei por mim num grupo de umas quinze pessoas. De todas, quem estava a viajar durante menos tempo era eu, essas duas semanas, e depois de mim era alguém que ia andar naquilo cinco meses. Olhando para as pessoas ao meu redor, e constatando isso mesmo – que eram pessoas, nada mais – percebi que qualquer ser humano o podia fazer. Não era preciso ser especial, herói... Voltei à Inglaterra, apresentei a minha demissão e “bazei” passado uns meses.

As suas aventuras pelo mundo já resultaram num livro, "Daqui Ali - De Portugal a Singapura Por Terra". Pensa passar para o papel as memórias desta viagem também?

Sim, o “Daqui Ali – De Portugal a Singapura Por Terra” correu bastante bem, e voltará a haver um novo “Daqui Ali”. Mesmo que o outro não tivesse corrido bem, haveria este, para dizer a verdade. Vem aí o “Daqui Ali – De Portugal à África do Sul de Bicicleta”.

Como descreveria a sua experiência em Angola? Quanto tempo esteve no nosso país?

Angola foi uma loucura, no melhor dos sentidos. Passei um mês neste país e desembolsei apenas dez euros (nr: cerca de 11 dólares), tudo à conta da simpatia dos portugueses, angolanos e luso-angolanos que fui encontrando. Sem nunca ter pedido nada a ninguém (senão água, na estrada), as pessoas desdobraram-se em esforços para fazer da minha estadia a melhor possível, muitas vezes oferecendo-me estadia e refeições. Quando tal não acontecia acampava, fosse na beira da estrada ou com a polícia, ou na praia. A minha afeição por Angola foi crescendo e quando saí do Lubango, com todas as visões passadas no coração e presenteado com aquelas novas, percebi que Angola era o meu país preferido em África. Grandes cenários que chegaram aos meus olhos, grande simpatias que chegaram à minha alma.

Que locais visitou?

Entrei em Nóqui e daí tive de ir à boleia até Luanda, pois não tinha travões na bicicleta. Foi a única viagem em que não pedalei. De Luanda passei para a Barra do Kwanza, Cabo Ledo, Porto Amboím, Sumbe, Canjala, Lobito, Benguela, Catengue, Chongorói, Cacula, Lubango, Tchibembe, Humbe... e Namíbia. Creio não me estar a esquecer de nenhum aí pelo meio.

O que mais o marcou durante a sua estadia em Angola?

A simpatia das pessoas, ainda que não tenha sido algo raro em África. Gostei muito de todo o trajecto, mas adorei mesmo a Fenda da Tundavala, no Lubango, e o trajecto daí para baixo.

Tem grandes estórias para contar?

São inevitáveis numa viagem destas. À boleia do maior comboio do mundo na Mauritânia; passagem de fronteira fascinante da Guiné-Bissau para a Guiné-Conacri; entrada agreste na Serra Leoa com os pedidos de suborno por parte da polícia, a que resisti; levado para a prisão na Serra Leoa; seis viagens à embaixada da Nigéria no Benim para a obtenção do visto nigeriano; dois meses na Nigéria parado pela polícia vinte e três vezes, sempre confundido por um terrorista; entrada nos Camarões negada devido ao encerramento da fronteira terrestre; quinhentos quilómetros na floresta do Gabão incluindo participação numa cerimónia com uma tribo onde fiz as vezes de xamã, depois de ter comido umas raízes com propriedades psicotrópicas; a rejeição de entrada em Kinshasa e a viagem de volta a Portugal; o mês em Angola com dez euros...

Já anda nisto há algum tempo, ainda assim conhecer Angola a fundo surpreendeu-o?

Surpreendeu-me imenso. Há muitos portugueses em Angola que chegam e contam estórias. Muitas delas eram assustadoras e davam-me ideia de ser um país extremamente perigoso. Mas rapidamente percebi que as estórias que me contavam não eram de Angola, mas de Luanda! Pois Luanda pode ser perigosa e tudo mais, mas Angola não o é. De todo.

Teve oportunidade de conhecer muitos portugueses a viverem em Angola?

Talvez isto seja óbvio, mas foi o país estrangeiro onde conheci mais portugueses.

Onde está agora?

Windhoek, Namíbia. Cheguei recentemente, deixei a bicicleta e parti com dois amigos que conheci na Internet. Alugámos um carro, fomos ver a Namíbia e voltámos. Para variar, é fixe viajar com outras pessoas.

E depois de dobrar o Cabo da Boa Esperança, o que se segue?

Depois de chegar ao Cabo vou de “férias”. Primeiro duas semanas com um amigo em Myanmar e depois, quase três, com a minha namorada no Camboja. E depois disso... escritas, livros, diversão e amor!

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