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Ensino em Angola pós pandemia: analogias do processo de isolamento e o retorno às aulas

Neidelênio Baltazar Soares

Estudante do Curso de Química da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira

Desde o mês de março que em Angola as instituições de ensino foram fechadas por conta do novo coronavirus que assolou o mundo todo, apesar disso, já existe perspectiva de retorno as aulas marcadas para o mês de Julho.

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Nesse capítulo, as aulas anteriormente suspensas em virtude do primeiro Decreto Presidencial Legislativo Provisório que foi renovado no dia 25 do mês de Maio com o primeiro Decreto sobre o Estado Emergência nacional. As actividades lectivas terão seu reinício a partir de 13 de Julho, com abertura das instituições de nível superior e do II ciclo do ensino secundário, e a partir de 27 de Julho o reinício do I ciclo do ensino secundário e do ensino primário. O reinício do funcionamento do ensino pré-escolar fica sujeito a regulamentação própria conforme divulgado pelo jornal DW. 

Com a data de retorno às aulas marcada, estudantes, pais e educadores preocupados com a situação do país e pela forma como o processo de ensino e aprendizagem se dá, debatem os rumos da educação em Angola pós covid-19. Neste cenário, questões como: “Qual é a saída ideal para proporcionar o aprendizado ainda no mesmo ano letivo? Quais as melhorias esperar no sector educacional? Qual é a importância do espaço escolar para o aprendizado? A presença física, o convívio social? Qual o impacto da pandemia/isolamento no pensamento sobre ensino presencial/distância em Angola?

Estas questões não fogem dos muitos debates tidos em torno do ensino em Angola. Esse artigo vem reforçar a discussão sobre como deve ser a formação dos professores em Angola.  O ensino tradicional que muitas escolas ainda apresentam face aos desafios da atualidade. Qual deve ser o papel dos pais na educação dos filhos. A falta de vontade política para resolver os problemas de educação e outros temas ligados ao ensino.  

Face ao cenários que nos encontramos, a princípio é necessário reunir a comunidade estudantil e repensar um novo modelo de ensino que abrange a carga horaria estipulada no início do ano, para criar uma interligação com os conteúdos que deverão ser abordados, e isso pressupõe pensar na reorganização geral do ano letivo abrindo novas possibilidades para o termino em 2021 sem prejudicar os estudantes. Deve-se pensar agora em desenvolver competências, habilidades e atitudes de acordo com a situação que todos passaram e a reorganização do sistema deve ser feita em módulos e etapas de aprendizagem.

Como Paulo Freire afirmou: “A educação é um processo, onde quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender”.  A educação é um direito de todo cidadão conforme está consagrado na Constituição da República de Angola. Durante o isolamento social, foi possível complementar o ensino, por meio inclusive de aulas pela televisão. Porém, essa educação acontece melhor quando há um vínculo que por sinal, foi quebrado durante meses pelo covid-19. A modalidade de educação presencial é fundamental porque permite que os alunos em uma determinada instituição vivam as sensações de estar lá por meio do contacto físico com os professores, colegas e funcionários do estabelecimento, assim essa modalidade agrega valores culturais e sociais saudáveis para construção de uma sociedade onde o indivíduo se preocupe com a colectividade. 

A covid-19 deixa para nós uma nova forma de pensar as escolas em Angola, e abre um novo processo de valorização das mesmas. Durante a pandemia os testemunhos e os desabafos dos encarregados de educação foram registrados, e ficou notória a dificuldade que os mesmos tinham em complementar o ensino das crianças, e a falta do local de estudo que tem servido como acolhimento conforme as crianças estavam acostumadas - a escola.

Percebeu-se que a Educação à distância ainda não deve ser encarada como uma das alternativas para um novo modelo de ensino em Angola, além de ser ineficaz, muitas famílias não dispõem de recursos tecnológicos para atender à demanda, além da despreparação por parte dos professores, o país não possui capacidades de acesso à Internet que favoreçam as comunidades estudantis mais vulneráveis. Para tanto, será necessário começar a pensar em como a tecnologia pode ajudar no processo de ensino-aprendizagem. 

Quanto ao papel das famílias, durante o distanciamento social, percebemos a responsabilidade que os encarregados delegam as escolas, no entanto é necessário que as famílias passassem a participar activamente da vida escolar dos filhos e acompanhar de perto os seus estudos de modo a ajudar no processo de ensino e aprendizagem. Com isso, teríamos mais crianças interessadas verdadeiramente pelo aprendizado, é esperado com isso a valorização das escolas e dos professores.  Desta forma estaríamos concordando com Perrenoud quando afirma que: “Educar antes de tudo é mobilizar o aluno para que se torne um aprendiz” essa mobilização também é esperada dos encarregados de educação, apesar de ser um dever do estado garantir. 

Portanto, 2020 será um marco histórico e decisivo na educação angolana. Será necessário começar a pensar na resolução dos problemas educativos, e isso demanda em garantir investimentos e criação de políticas públicas no sector conforme afirmou a ministra da Educação na abertura do ano lectivo, para garantir um verdadeiro ensino de qualidade no país. Novas metodologias que precisam de ser adoptadas para o ensino, e será necessário viabilizar a construção de mais escolas para eliminar de uma vez o quantitativo de alunos fora do sistema de ensino, mais universidades para formação de quadros e acesso ao ensino superior, será necessário proporcionar e desenvolver actividades de ensino, pesquisa e extensão, e também melhorar o acesso a computadores e Internet, e desenvolver materiais adequados, ensinar a estudar a distância, formatar mecanismos de controle, monitoramento e avaliação.

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Neidelênio Baltazar Soares