Os 5 em Angola

Já começa a custar…


Já começa a custar…

Filipa Moita

Autora da página de Facebook Os 5 em Angola, que relata as experiências de uma família portuguesa de cinco elementos que imigrou para Angola.

Começou o nervoso miudinho. Aquele nervosismo saudável que antecede algo de bom e pelo qual esperamos há muito tempo. Uma ansiedade que nos consome dia após dia, bocadinho a bocadinho e nos faz acreditar que há sacrifícios pelos quais vale a pena tolerar para dar valor a coisas que antes eram tidas como certas e que nem sequer ligávamos.
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Chegou aquela altura do ano. Aquele momento em que damos por concluído, mais um ano escolar. Aquela altura do ano em que os nossos filhos colocam de parte os livros e manuais escolares e deixam de se importar com a escola, pois entram de férias. E com as férias deles, começam também as nossas. Acabaram-se as rotinas, os trabalhos de casa, os horários para tudo e mais alguma coisa, as competições ao sábado e mil e uma actividades que nos deixam felizes mas exaustos.

E estando aqui em Angola, este novo período tem um sabor ainda mais especial pois estamos longe de tudo e de todos aqueles que nos são familiares. É a altura do ano mais esperada, aquela em que vamos rever as “nossas pessoas”, aqueles que deixámos tão longe, na nossa outra terra. E sabe tão bem essa ansiedade, esta excitação de começar a contar os dias e as horas no calendário, de se programar os dias ao minuto, de forma a fazer tudo e ver todos aqueles de quem sentimos falta e que não abraçamos há meses, pois falar, falamos quase todos os dias! E já passaram 6 meses, desde a última vez que estivemos em Portugal.

Já determinámos onde ir nas férias e quem temos de visitar, sem falta. Já avisámos todas as nossas pessoas de que estamos lá no dia x. E esperamos ter tempo para ver e fazer coisas que há muito não fazemos e que nos apertam o coração de saudade.

Não me estou a queixar, longe disso, mas a constatar que é um bom ensinamento para nós e para as crianças. Dar mais valor ao que temos e ao que de momento não podemos possuir. E Angola ensina-nos a valorizar mais a vida e o que nos rodeia, seja pouco ou muito. Diz-nos como ser felizes e a apreciar a família e os amigos. E a resolver de forma mais fácil, aquelas situações que antes eram capazes de nos chatear o dia inteiro. Aqui, certas coisas deixam de ter uma grande importância face a outras que sim, merecem atenção. Eu chamo a isto crescer como pessoa e vejo que os meus filhos, fizeram o mesmo. E fico contente com isso. Era isto que eu queria para eles. Foi um objectivo cumprido em poucos meses.

Fazia bem a muita gente, ir para fora do seu País, do seu “ninho”, sair da sua redoma de vidro e durante um tempo, ser privado de tudo aquilo que tem ao seu alcance com facilidade. Neste novo lugar, somos obrigados a valorizar o que temos. Não é verdade que quando temos uma coisa de que gostamos perto de nós, deixamos de lhe dar importância? E se não a tivermos connosco, mal a consigamos obter, não lhe damos muito mais valor? E não a apreciamos muito mais? Muitas pessoas iam dar muito mais importância ao que têm e ao País que os viu nascer. Até das pedras da calçada se pode sentir a falta e estou a falar de apenas um certo tipo de piso que serve para andar!

E no entretanto, continuamos a contar os dias para o nosso regresso. E a nossa lista continua a aumentar. Já fizemos projectos de compras, já planeámos várias refeições de sushi, de sardinhas, de caracóis… ah, os caracóis. Já está planeada uma ida à Periquita em Sintra, uma visita ao nosso estádio de futebol e a aquisição de um novo cachecol e camisola do FCP para a próxima época. Já pensámos num mega lanche na loja da Nutella, uma visita ao castelo de São Jorge e em jantares com amigos e família. Sim, já temos a nossa lista de To Do’s para realizar em Portugal. Será possível realizá-los a todos em poucos dias de férias? Não sei, mas vamos tentar.

Isto é algo que não sei se vou conseguir descrever em palavras. Não sei se vos consigo descrever o que sinto, esta necessidade de ver outras pessoas, de ter liberdade para passear na rua a qualquer hora. A liberdade para poder pegar no carro e conduzir, ir buscar os meus filhos à escola, passar no supermercado e chegar a casa, a horas decentes, como o fiz tantas vezes em Lisboa. E sem receios…

Falar-vos da necessidade que tenho, de não sentir constantemente o coração apertado ao ver e ouvir coisas que não gosto, que não compreendo e sobre quais não posso fazer nada ou resolver. Preciso de ver coisas e aspectos mais bonitos da vida, de ver pessoas que vivem melhor e que não sofrem, tanto todos os dias.

E por isto e outras tantas coisas, as saudades apertam e dilaceram-nos o coração pois crescemos a ter tudo e a poder desfrutar das coisas conforme desejamos. As lembranças começam a vir-nos constantemente à mente e o desejo de reviver o que já tivemos não nos deixam. O Facebook permite-nos o contacto com os nossos amigos, mas de certa forma, também têm um efeito nefasto na nossa sanidade mental. Fico contente por ver os meus amigos bem e a divertir-se, mas por outro lado, não poder desfrutar de um arraial ou de uma bela sardinha assada no pão, ou mesmo sair e ir à minha loja favorita em Lisboa, deixa-me triste, deprimida. Há sempre um lado bom e mau de qualquer situação. De certa forma, e estando aqui em Angola, procuro ver o lado positivo da vida e acreditem que os há. E não são poucos!

No meio do caos, desenvolvemos mecanismos de defesa e skills que nos permitem lidar com situações das mais duras e violentas que existem. Mal saímos de casa, somos imediatamente obrigados a enfrentar um conjunto de situações que nos exigem compreensão e resolução no imediato. Isto várias vezes ao dia, e ao longo de várias semanas ou meses, dota-nos de uma capacidade brutal de adaptação. Mas dá-nos igualmente um cansaço dilacerante e, pouco a pouco, começamos a desligar, a escolher as situações onde temos de investir mais e a deixar de lado, as menos importantes. Seleccionamos e decidimos, várias vezes ao dia. E paralelamente, temos de trabalhar, de sol a sol e a lidar com a frustração de não termos cá, muitas das coisas que antes tínhamos e que nos ajudavam no nosso dia-a-dia.

No decorrer do tempo, habituamo-nos a não ter certas coisas e a dar importância a outras que não conhecíamos. Suportamos a ausência dos nossos, “agarramo-nos” aos nossos vizinhos, a novos amigos ou colegas de trabalho. Partilhamos experiências, momentos e situações. Unimo-nos mais que nunca, num Pais que não é o nosso mas que, apesar de difícil, tanto nos ensina todos os dias.

Posso não ter uma bela sardinha no pão mas tenho o prazer de conseguir fazer feliz, um menino de rua com um simples pastel de nata. E o sorriso dele compensa-me de mil e uma maneiras. Em Lisboa não posso fazer isto sem ser criticada, e fui-o várias vezes. Quem no seu juízo perfeito, paga um café dentro do Atrium Saldanha, a um mendigo? Eu…

Por isto e muito mais, é necessário sair de Angola para respirar ar puro e sentirmos que há mais mundo para além de Luanda e das suas dificuldades. Precisamos de sair de cá e ver outros países, de sentir mais civilização e mais ordem. De colocar de parte o caos, as dificuldades, o trânsito e a pobreza e carregar baterias para poder aguentar com o coração, as injustiças diárias que se constatam diante de nós e que de todas as formas, nos obrigam a repensar o verdadeiro sentido da vida.

Já devem ter reparado que estou triste e ansiosa por ter “férias de Angola” e neste momento sinto-me uma criança, privada dos seus brinquedos e que anseia por brincar de novo com eles junto dos seus amigos. Não me levem a mal, mas neste momento, preciso desesperadamente de carregar as baterias, de ser mimada, de deixar de me preocupar com o que vejo por alguns dias, deixar de me sentir triste por não poder ajudar mais. Necessito de me colocar em primeiro lugar por um tempo e encher o coração de pensamentos positivos e energia. Fortalecer a mente e torná-la forte para aguentar mais um ano de escola e de trabalho.

E preciso de o fazer sem estar no trânsito diário horas a fio, suportar as melgas ou ver o lixo espalhado pela cidade com crianças a brincar no meio dele. Preciso de sentir o cheiro a flores, de comer um bom sushi, de ver as minhas vistas conhecidas e ver a minha família e amigos. Preciso de estar com o meu marido e apenas com ele, para podermos por a conversa em dia, talvez com um jantar a dois, sem crianças a solicitar constantemente a atenção, pois aqui não há avós ou família para ajudar neste tema. Preciso de conduzir o meu carro num transito com regras e ordem, de ir a lojas de roupa, de comprar livros e passear em shoppings conhecidos.

Preciso desesperadamente do céu azul de Lisboa, das suas inúmeras esplanadas e da Ribeira do Porto, como de ar para respirar.

Preciso de me sentir segura a andar na rua com os meus filhos, sem olhar por cima do ombro com receio de alguém que me possa assaltar ou suportar alguns polícias que só pensam na gasosa. Preciso de ver os meus monumentos, de ver as minhas ruas, a calçada portuguesa, de comer um pastel de nata de Belém, de ir ao Parque das Nações e ver o Tejo, de ver as minhas praias, o meu País e as minhas gentes.

Preciso disto tudo e de muito mais, simplesmente, para respirar. Está a ser uma crónica difícil de escrever, confesso. Mas ao fim de um certo tempo aqui, precisamos de ar!

Adoro Luanda e o seu jeito especial de ser e já a sentimos entranhar-se em nós e do fundo do coração, gostamos de cá estar. Todos os dias nos surpreendemos com tudo e todos os dias há experiências novas a guardar dentro de nós, para sempre. Mas também precisamos de tudo aquilo que deixámos em Portugal. E o facto de não termos as coisas quando as desejamos ou precisamos, mais aumenta a nossa carência e desejo por elas.

Não se preocupem, estamos bem, apenas com muitas saudades de casa.

E continuamos a contar os dias!

Fiquem bem, Ya?

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A Sinfonia do BNA

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