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Olho preguiçoso, uma condição que afecta milhões de crianças

Maria Inês Rodrigues

Maria Inês Rodrigues é licenciada em Medicina pela Universidade de Coimbra, em Portugal. Actualmente coordena o Departamento de Oftalmologia do Luanda Medical Center.

O olho preguiçoso, que medicamente assume a denominação de ambliopia, consiste na assimetria de acuidade visual entre ambos os olhos, ou seja, um olho vê melhor que outro.

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É uma condição extremamente comum, frequentemente diagnosticada de forma tardia, que afecta 1 em cada 50 crianças. Se não for atempadamente detectada e corrigida, a assimetria visual torna-se irreversível.

A ambliopia pode ter várias causas, sendo que passa sempre pelo facto de um olho estar a ser impedido de focar correctamente, ou menos correctamente que o contra lateral.feiação de duas imagens, uma enviada por cada olho, e quando as duas são muito distintas essa conjugação não é possível. Como mecanismo de defesa, o cérebro anula uma delas, geralmente a de menor qualidade. Ao fazer isto, o olho que envia a pior imagem não se desenvolve sensorialmente como devia, uma vez que não é estimulado, a informação que fornece deixa de ser solicitada pelo sistema nervoso.

As causas da ambliopia são várias e dividem-se em três grupos:

- Estrabismo (quando os olhos não estão alinhados entre si);

- Deprivação (quando um dos olhos não recebe estímulo visual, o que acontece, por exemplo, na presença de catarata ou ptose palpebral);

- Refractiva (quando existe uma grande assimetria no erro refractivo de cada olho, ou seja, quando na graduação das lentes dos óculos).

A ambliopia não induz qualquer sintoma, e apenas um rastreio oftalmológico a pode detectar.

No entanto, existem alguns sinais de alarme que podem levantar a suspeita de a criança estar a desenvolver ambliopia. Tal como referido acima, se estivermos na presença de estrabismo ou ptose palpebral a probabilidade de ambliopia é elevada. Os outros factores não são visíveis, e por isso são apenas detectados mediante observação oftalmológica – daí a importância da avaliação oftalmológica por um especialista.

A detecção precoce desta situação permite várias atitudes terapêuticas que não só travam a instalação da ambliopia, como também revertem a perda visual. Ou seja, mesmo que um olho já se encontre com uma acuidade visual reduzida comparativamente ao outro, pode recuperá- la, uma vez que os olhos apresentam plasticidade sensorial até aos 7-8 anos de idade. No entanto, é possível recuperação (ainda que parcial) da visão até aos 14 anos. É importante realçar que quanto mais precoce for a intervenção, melhor será o prognóstico. Mesmo que a recuperação não seja total, uma recuperação parcial será sempre positiva.

O tratamento da ambliopia é direccionado à causa subjacente. Por exemplo, nos casos da ambliopia refractiva, o uso de apropriada correcção óptica associada ou não à oclusão do olho com melhor visão conduz a bons resultados. Cada caso é um caso, e a abordagem deverá ser individualizada e adaptada a cada criança. Quanto mais precocemente instituído, menor a probabilidade de perda definitiva de visão do olho amblíope.

É muito importante um rastreio oftalmológico em idades precoces para despistar qualquer um dos factores enumerados, que na sua maioria passam despercebidos, e uma eventual ambliopia em desenvolvimento.

Um simples rastreio realizado por um médico oftalmologista poderá detectar precocemente o olho preguiçoso. Uma vez que o tratamento é possível e a reversão do processo também (caso seja realizado em tempo útil), evitam-se danos permanentes na visão da criança que em muito afectarão a sua qualidade de vida.

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Maria Inês Rodrigues