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Jorge Buescu: “Angola tem sobre a realidade europeia algumas vantagens” para combater a covid-19

Depois do choque inicial que a covid-19 provocou no mundo, a guerra estabelecida entre o vírus e os países parece estar a abrandar. No entanto, apesar de os países já terem vencido algumas batalhas, a guerra está longe de terminar.

: Miguel Manso/Público
Miguel Manso/Público  

No caso de Angola, o combate ao vírus pode vir a ser, em alguns aspectos, mais fácil do que em alguns países da Europa. Em entrevista ao VerAngola, Jorge Buescu, Professor no Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), explicou que o nosso país "tem sobre a realidade europeia algumas vantagens" para combater a covid-19.

A maior vantagem é o facto de Angola ter uma população "muito mais jovem" do que a Europa e de ter "uma estrutura de contactos entre regiões muito menos densa", apontou o professor universitário, admitindo que estes dois factores podem "ajudar a moderar a propagação e letalidade" do coronavírus.

Contudo, o especialista lembra que o facto de o país ter "piores condições sanitárias" e de os meios hospitalares serem "mais limitados" pode ter algum impacto na propagação da covid-19.

Na Europa a evolução da doença deu-se bem mais cedo do que no continente africano. Vários países tiveram de fechar lojas, cafés, restaurantes e outros serviços não essenciais. O número de infectados disparava de dia para dia e o número de mortes em apenas 24 horas, em alguns países europeus, chegou a ultrapassar os 700. Questionado sobre se Angola poderá vir a atingir proporções deste género, Jorge Buescu considerou que "à partida não há razão para que o vírus se comporte de forma diferente".

"Deve esperar-se uma fase inicial de propagação silenciosa e exponencial", completou, explicando que o "surto inicial pode ser mais lento, talvez menos visível devido à falta de testes, talvez com menos doentes graves devido à demografia, mas será sempre exponencial".

Perante a realidade europeia, o responsável afirma que o vírus não deve ser subestimado: "Se há lições que se podem extrair da fase europeia, é que não se pode subestimar este vírus".

Analisando a propagação do coronavírus em África, Jorge Buescu voltou a frisar que o facto de população ser mais jovem é uma vantagem, o que poderá proporcionar uma propagação "mais lenta". "No entanto, no outro prato da balança estão a falta de condições sanitárias e de higiene e a falta de recursos hospitalares. É muito difícil prever o efeito combinado de todas estas condições estruturais".

"A verdade é que África é, até agora, o continente onde os casos conhecidos têm crescido mais lentamente. Não é de excluir, pelo menos nalguns países, que haver poucos casos conhecidos se deva a não se estar a testar de forma adequada", acrescentou.

Por fim, admitiu que a melhor estratégia para combater o vírus é localizar e isolar as cadeias de infecção para parar a epidemia no início.

"Mas está é uma epidemia muito traiçoeira e silenciosa, quando se dá por isso já ela explodiu, como aconteceu na Europa em Fevereiro e Março". Nesse caso as únicas medidas a tomar são: "Diminuir o número de contactos entre as pessoas, diminuir a probabilidade de transmissão por contacto, nomeadamente com uso de máscaras, higienização, etc.", finalizou.