Ver Angola

Política

UNITA condena uso excessivo da força policial que já matou mais que a pandemia de covid-19

O "governo-sombra" da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) condenou esta Segunda-feira o que considerou ser um uso excessivo e desproporcionado de força das autoridades contra os cidadãos, que fez até agora cinco vítimas, contra as duas associadas à pandemia da covid-19.

: Paulo Novais/Lusa
Paulo Novais/Lusa  

Num comunicado divulgado esta Segunda-feira, o "governo-sombra" da UNITA tece diversas críticas à actuação do Governo liderado por João Lourenço desde o início do estado de emergência decretado a 27 de Março.

A UNITA chama a atenção dos angolanos para não se distraírem "pois, o MPLA e o seu executivo pretendem desviar o foco dos cidadãos, tentando levá-los a concentrar todas as suas atenções na covid-19 e a esquecerem-se da fome, da saúde precária, da péssima qualidade de educação no país, das faltas gritantes e inadmissíveis de água e luz, das degradadas vias de comunicação que dificultam a circulação de pessoas e bens".

Volvidos dois meses desde o início do estado de emergência, a UNITA constatou que muitas famílias enfrentam sérias dificuldades, incluindo a fome, o que obriga muitos angolanos a recorrerem à caça aos ratos e aos contentores de lixo, na busca de alimentos.

"Os anúncios feitos no sentido de se apoiar as populações mais necessitadas com a cesta básica não foram efectivados de forma satisfatória, a julgar pelas informações e constatações, na medida em que a campanha em causa enferma de vícios, o que agrava cada vez mais a condição de vida de cidadãos vulneráveis que ficam sem saber se morrem em casa confinados com a fome ou saem à rua à procura de mantimentos para mitigar a fome, enquanto a covid-19 não lhes bate à porta", critica o "governo-sombra" do partido do "Galo Negro".

A UNITA alerta que com o surgimento da covid-19, o Governo "esquece-se ou finge esquecer-se de outras doenças que são a maior causa de morte", apontando as mortes por tuberculose, diabetes, insuficiência renal e outras doenças crónicas, mas sobretudo de malária, e os relatos sobre o surgimento de um surto de síndrome febril ictérico e febres hemorrágicas.

"O Governo Sombra da UNITA entende que a situação do novo coronavírus não devia fazer com que os hospitais tivessem os seus serviços condicionados, porquanto o executivo deveria construir hospitais de campanha e criar alas nos hospitais existentes para o tratamento de pacientes da covid-19", refere o comunicado, apelando ao Ministério da Saúde a rever "tais medidas atentatórias à dignidade da pessoa humana e permita que os cidadãos sejam atendidos".

Criticam ainda o executivo de João Lourenço "por continuar a brindar a sociedade com escândalos derivados da corrupção que se diz combater, da má gestão financeira, do peculato, do compadrio, do tráfico de influências, enquanto os cidadãos morrem de falta de tudo".

Em causa está o anúncio recente de aquisição por parte do Governo do condomínio Ngombe, uma área infra-estruturada com 200 residências, na comuna de Calumbo (município de Viana, província de Luanda) para servir de centro de tratamento de pandemias, pelo valor de 25 milhões de dólares.

"Cada residência vai custar aos nossos bolsos 124.880,94 dólares", critica a UNITA, questionando o que está a ser feito com os imóveis arrestados nos últimos meses e afirmando que as casas em questão são de baixa renda e o seu valor real de mercado é de apenas 13 mil euros.

"O mais grave é que informações que chegam aos ouvidos de todos os cidadãos revelam que as referidas casas pertencem ao assessor do ministro de Estado e Chefe da Casa de Segurança do Presidente da República que é, como todos sabemos, coordenador da comissão inter-sectorial de luta contra a covid-19", diz a UNITA, acrescentando que enviou técnicos ao local "onde estão construídas essas casas milionárias", verificando que estão em avançado estado de degradação.

A UNITA questiona igualmente os gastos com os 244 médicos cubanos contratados para apoiar o combate contra a covid-19, admitindo que o custo possa ascender aos 17,6 milhões de dólares por ano.

"Quantos médicos angolanos o Estado poderia pagar com o salário de cada médico cubano? Quantos angolanos, o Estado poderia tirar do desemprego, com empregos directos e indirectos?", pergunta o governo sombra da UNITA, liderado pelo antigo vice-presidente do partido Raúl Danda.

Relacionado