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Opinião A opinião de...

Acção psicológica pode servir como freio na actuação da Polícia Nacional

Cesário Sousa

Psicólogo criminal, escritor e vice-presidente do Centro de Investigação e Biografias de Angola (CIBA)

O modo de actuação policial no nosso país é uma das inquietações que insiste em acompanhar a dinâmica social em Angola. A conduta indecorosa de alguns efectivos da Policia Nacional – que de certa forma, vai se tornando habitual – tem manchado a imagem da Policia Nacional como instituição de segurança e que deveria ser, a priori, a propagadora das condutas que se pretendem tornar dominantes: condutas paralelas às leis estabelecidas pelo Estado angolano.

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Não podemos perder de vista as dificuldades que são intrínsecas ao trabalho dos agentes da nossa Policia. Tais dificuldades inviabilizam a clareza da execução das tarefas a serem desenvolvidas: questões como a periculosidade no exercício da profissão, estresse excessivo continuado, etc., condicionam a actuação da Policia no cumprimento da sua missão vocacional, causando graves problemas à saúde mental destes agentes.

Diante das condicionantes acima citadas – que impactam de uma ou de outra forma na actuação da Polícia – pautar as actuações da Policia em condutas que estão dentro das margens das Leis requer um investimento permanente em programas de assistência, onde os psicólogos, assistentes sociais e psiquiatras nos ajudarão a desenvolver mecanismos satisfatórios para maiores equilíbrios diante da pressão social (fruto das mudanças políticas, econômicas e sociais), transformando assim as estruturas interna e externa desta instituição. A par da modernização que vem sendo feita na corporação – mediante a disposição de mais meios financeiros e a aquisição de equipamentos modernos – olhar para o apoio psicológico permanente dos agentes deve ser uma acção prioritária, no sentido de se ver reduzido o impacto negativo da actuação da policia.

Aqui estamos diante de um apelo que vem surgindo no seio da população angolana: a necessidade em se capacitar a policia angolana para lidar com as distintas situações, prevenindo conflitos, não por meio da coação, mas sim, pela via do diálogo e sempre perseguindo a legalidade. Acções do gênero demandam controle psicológico dos agentes para agirem na legalidade. É verdade que, no decurso da preparação dos agentes, são incorporados princípios comportamentais no processo de formação, não querendo com isso dizer que o domínio emocional será, daí em diante, constante independentemente da situação a ser enfrentada. Portanto, precisamos desconstruir a ideia colectiva que há sobre a não fragilidade dos agentes da policia: estamos diante de seres humanos, movidos pelos sentimentos, pessoas que também são afectadas pelas determinantes sociais.

Daí a necessidade do Ministério do Interior – com particular destaque para a Polícia Nacional de Angola, instituir nas suas estruturas um sector de assistência e intervenção psicológica permanente. A estrutura que se propõe pode estabelecer grupos de efectivos com dias específicos na semana para receberem a assistência, que poderá ser por meio de terapias obrigatórias, colóquios, reuniões, etc. Tal sector não servirá apenas como forma de prevenção das acções injustificadas dos agentes da Policia, mas, essencialmente, servirá como meio de garantir a saúde mental dos efectivos da Policia Nacional.

Opinião de
Cesário Sousa