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Carlos Rosado: Estado deve estar preparado para intervir em empresas de Isabel dos Santos

O economista Carlos Rosado considerou que o Estado tem de estar preparado para intervir e financiar as empresas do universo Isabel dos Santos, depois de a cervejeira Sodiba ter assumido dificuldades.

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Após o arresto de participações sociais e contas bancárias decidido pelo tribunal provincial de Luanda em Dezembro, a empresária, filha do ex-presidente José Eduardo dos Santos, viu também as suas contas bancárias serem congeladas em Portugal, a pedido de Angola, o que poderá ter impacto nas empresas. “Depende do muito da fase em que estão”, disse Carlos Rosado à Lusa.

Se a situação não deverá causar problemas a bancos como o Banco de Fomento Angola e o EuroBIC ou à operadora de telecomunicações Unitel, outras, ainda numa fase inicial e mais dependentes dos accionistas, podem sentir dificuldades, como é “aparentemente” o caso da Sodiba, disse.

Em entrevista recente à agência Lusa, Luís Correia, presidente do Conselho de Administração da Sociedade de Distribuição de Bebidas de Angola (Sodiba), que produz em Luanda a marca de cerveja Luandina e a portuguesa Sagres, admitiu preocupações a médio prazo pois o plano de negócios da cervejeira está dependente da injeção de 1500 milhões de kwanzas no primeiro trimestre e foi travado pelo arresto da PGR.

Carlos Rosado considerou, por isso, que o Estado deve ter soluções para acautelar a situação das empresas. “As empresas detidas a 100 por cento por Isabel dos Santos e que estão numa fase inicial precisam de financiamento, se a accionista tem as contas congeladas e não pode pôr dinheiro acho que tem de ser o Estado a fazê-lo”, salientou, admitindo que arranjar soluções bancárias neste momento “não será fácil”.

Em situação semelhante à da Sodiba poderão estar outras empresas detidas por Isabel dos Santos como a rede de hipermercados Candando ou a operadora de televisão Zap.

“Não sabemos se estas empresas com poucos anos, que ainda dependem do apoio dos accionistas já geram ‘cash flow’ suficiente para pagar os investimentos. Portanto ou recorrem ao financiamento bancário ou aos acionistas”, explicou. No entanto, “só conhecendo as contas das empresas é que podemos tirar conclusões”.

Carlos Rosado afirmou que Isabel dos Santos “que se gaba de ser boa empresária e boa gestora e boa investidora” deveria também ter capitalizado as empresas para os problemas que poderiam enfrentar.

“As empresas normalmente não recorrem aos accionistas, só numa fase inicial, depois de atingir a velocidade de cruzeiro vivem delas próprias, não faz sentido pedir dinheiro aos accionistas”, observou.

Para o economista, o momento é de incerteza e as questões têm de estar acauteladas.

“Isto, no mínimo, introduziu incerteza e não sei como é que o Estado vai resolver: se for necessário o accionista pôr dinheiro, como disse [o PCA da] Sodiba, quem é que vai pôr o dinheiro se as contas estão congeladas”, questionou, referindo que não lhe parece que “esta questão tenha sido acautelada”.

Alem disso, as empresas enfrentam problemas “pelo simples facto de Isabel dos Santos ser accionista”, pois já são “vistas de maneira diferente”.

É preciso também saber “o que é que o Estado vai fazer com essas empresas” e, sobretudo, se haverá disponibilidade financeira para intervir, eventualmente através do IGAPE, o instituto que gere as participações do Estado.

Carlos Rosado lembrou que está em curso “um programa de privatizações muito ambicioso” e que este “não será o melhor momento” para privatizar, mas avisou que o Estado tem de estar preparado.

“Se ficarem com os activos é para vender, presumo que seja esta a intenção do Estado. Mas têm de estar preparados para os problemas que possam surgir, se Isabel dos Santos não pode pôr lá o dinheiro tem de ser alguém por ela”, sublinhou.

O economista assinalou também “o paradoxo” que se vive num momento em que “o Estado quer privatizar e sair da economia, mas atravessa uma fase em que vai ter de aumentar a presença na economia”.