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Antigo secretário-geral do MPLA avisa que ainda vão surgir “surpresas” no combate à impunidade

O antigo secretário-geral do MPLA aconselhou esta Quinta-feira, num debate sobre a impunidade na Assembleia Nacional, para muitos não baterem palmas, “porque ainda muitas surpresas hão de surgir”, faltando saber “quem serão os próximos”.

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Álvaro de Boavida Neto, actualmente deputado da bancada parlamentar do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), interveio no debate sobre "O Combate à Impunidade como Factor Primordial à Boa Governação", realizado na Assembleia Nacional, por proposta do partido maioritário.

"Aconselho a muitos de nós a não batermos palmas, porque ainda muitas surpresas hão de surgir, pelo andar da carruagem na sociedade no geral. A pergunta que não se cala, quem serão os próximos", disse o deputado.

Para Álvaro de Boavida Neto, "o tema sugere reflexão, ponderação e objectividade, sobretudo o novo aprendizado de lealdade, honestidade e patriotismo, independentemente do contexto, constituindo-se num imperativo capital".

Segundo o deputado, o sentido a ser privilegiado sobre a impunidade deve e deverá ser o de justiça igual para todos, salientando que esta matéria não pode ser tratada "com ressentimentos".

"Muito menos com o endurecimento dos nossos corações ou ainda estratificando a sociedade, com cidadãos bons e maus, sem percebermos bem os contextos que Angola se sujeitou", afirmou.

O ex-secretário-geral do MPLA, entre 2018 e 2019, admitiu: "Houve saques pequenos, sim! Saques médios, sim! Saques grandes, certo! Para bom entendimento houve roubos".

"Em determinada etapa da nossa história, o anormal passou a ser normal, ou melhor, o imoral também era pandemia não publicitada, que uma minoria com força de poder político, com as amarras das influências, disseram às populações que tudo era normal e moral, partindo do atrofiamento das famílias, estando hoje a viver-se esse caos pelo qual somos chamados à construção da nova consciência nacional, em que a impunidade está em primeiro lugar indiscutivelmente", frisou.

O deputado afirmou que "muita reza" é o que hoje Angola precisa "em razão dos saques, roubos, açambarcamentos, pilhagem económica e social".

"O certo é que estes senhores penhoraram a nossa soberania, comprometeram o futuro das populações vindouras, com dívidas que precisaremos de muitos anos para as solvermos, na eventualidade de termos o petróleo em alta", acrescentou.

De acordo com Álvaro de Boavida Neto, a falta de escolas, hospitais, água potável, energia eléctrica, estradas, desenvolvimento do sector produtivo e económico "é o reflexo do nosso egoísmo, sendo uma consequência desproporcional de ambição de alguns compatriotas".

"Todos juntos fizemos muito mal às nossas populações, pois só a generosidade heróica do povo angolano pode ser a solução para o bem da nossa mãe pátria. Morreram milhares de pessoas, muita gente padece de fome, vivem na miséria e acumulam sonhos mortos", salientou.

Álvaro de Boavida Neto falou em "misericórdia", que deve ser clamada ao povo, por não termos "sido justos para com estes".

Sobre a juventude, pediu que a sua fragilidade e entusiasmo juvenil são sejam usadas "para semear e alimentar o ódio, que fará germinar sangue, muito mais mortes e não terá progressos e desenvolvimento que tanto" se quer.

"Os jovens têm sonhos, precisam de viver, ninguém tem o direito de adiar, chega de sofrermos por uma Angola diferente, mas igual para todos", apelou.

Durante o debate, os deputados foram unânimes sobre a necessidade de se combater a impunidade, tendo o presidente da Assembleia Nacional, Fernando da Piedade Dias dos Santos, destacado o consenso alcançado.

"Saímos daqui mais claros sobre o meandro da luta contra a impunidade, a corrupção e a necessidade da boa governação e penso que há consenso que esse combate deve continuar, devemos todos contribuir para que se mantenha e fortaleça a boa governação", disse o presidente da Assembleia Nacional, lembrando que "é uma luta de todos".

"É um processo contínuo, deve haver coragem, transparência e persistência", sublinhou, enaltecendo o debate, que registou "alguns excessos", mas o que, considerou, "é normal, é democracia".