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Comércio

Fábricas de bebidas param por falta de divisas e quebra do poder de compra

A falta de divisas e a quebra do poder de compra estão a paralisar a indústria nacional de bebidas, levando as fábricas a suspender total ou parcialmente a actividade, referiu o presidente da associação do sector.

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“Temos, neste momento, fábricas que estão paradas, outras que produzem a menos de 50 por cento da sua capacidade de produção por causa desta conjuntura económica” e da crise que se arrasta desde 2014, lamentou o presidente da Associação das Indústrias de Bebidas de Angola (AIBA), Manuel Sumbula, em entrevista à Lusa.

Além da perda de poder de compra da população, que “caiu bastante” nos últimos anos traduzindo-se numa quebra acumulada do consumo de cerca de 50 por cento, entre 2018 e 2019, a indústria sofre os efeitos da falta de divisas e da desvalorização da moeda.

“Nos últimos tempos, a necessidade de divisas aumentou de forma brutal porque os recursos diminuíram bastante, fruto da descida de preços do petróleo”, justificou.

Como Angola usa unicamente o petróleo para arrecadar divisas no mercado internacional, a prioridade do Governo tem sido a diversificação da economia para poder exportar e ter outras fontes de divisas.

Mas, por enquanto, a disponibilidade de divisas é insuficiente, pelo que os industriais têm estado em contacto com o executivo e o Banco Nacional de Angola para encontrar alternativas que permitam “previsibilidade” na produção do sector e na sua relação com os fornecedores, de quem dependem para adquirir matéria-prima.

“É insustentável manter uma indústria com o peso da nossa com este nível de desvalorização do kwanza. Nós vendemos os nossos produtos em kwanza, mas para importar matéria prima precisamos de transformar estes kwanzas em dólares, em divisas. O tempo que um banco ou o BNA demoram a disponibilizar essas divisas, leva o kwanza a desvalorizar criando um problema brutal para quem vai comprar as divisas para importar matéria-prima”, referiu o responsável da AIBA.

A associação defende, por isso, a possibilidade de activar uma reserva de divisas especificamente para esta indústria, uma proposta que já foi apresentada ao BNA.

“É preciso que as medidas sejam tomadas de forma célere para evitar que mais fábricas parem. Precisamos de ter capacidade de produção para abastecer o nosso mercado”, insistiu, lembrando que praticamente a totalidade da matéria-prima usada nos processos produtivos das bebidas é ainda importada.

A situação tornou-se ainda mais complexa com a introdução de novos impostos como o IVA (Imposto sobre o Valor Acrescentado) e o IEC (Imposto Especial de Consumo).

E se o IVA “é um imposto mais justo”, no caso do IEC “as taxas são demasiado elevadas” para a realidade nacional, com a indústria a propor uma distinção entre categorias, segundo o teor alcoólico das bebidas, e a redução das taxas para 10 por cento nas cervejas e 2 por cento no caso dos sumos e refrigerantes.

Manuel Sumbula destacou que, nos últimos dez anos, a indústria angolana de bebidas tem dado um contributo valioso para a balança comercial, um impacto que estimou cerca de 1,5 mil milhões de dólares por ano, bem como para a criação de emprego.

A indústria tem estado “a fazer uma luta grande no sentido de manter as fabricas a produzir a um bom ritmo bom, para manter os seus trabalhadores”, mas mesmo assim foi obrigada a cortar 5000 postos de trabalho nos últimos dois anos, cerca de um terço do emprego que criava na altura, indicou.

Actualmente, o sector gera 13 mil postos de trabalho directos e cerca de 42 mil indiretos nas indústrias adjacentes, que Manuel Sumbula afirmou representarem uma forte aposta.

“O sector da bebida sentiu a necessidade de incentivar outras empresas a investir em Angola. Até 2010 quase tudo era importado e houve uma decisão de trabalhar no sentido de trazer investidores para se instalarem aqui porque temos um mercado de necessidade”, notou.

Uma bebida tem várias fábricas, exemplificou, apontando os rótulos, as embalagens, as tampas, as latas, as garrafas, a matéria-prima. A maior parte já está a ser produzida em Angola, mas no que diz respeito às matérias-primas continuam a ser importados em grandes quantidades o ‘gritz’ (milho usado na produção de cerveja), o malte, o açúcar e a polpa de fruta.

O líder da AIBA disse ainda que a exportação “é uma estratégia”, mas os elevados custos de produção tornam as bebidas angolanas pouco competitivas.

Além de muitas fábricas continuarem a recorrer a geradores, a necessidade de ter estações de tratamento de água para produção bem como para tratar as águas residuais, encarece o produto. Por isso, a exportação “não é solução de momento para sair da crise”.

Ainda assim, a indústria nacional já exporta “de forma tímida” para países da região como Moçambique e África do Sul, para Portugal e França e até mesmo para a China.

A AIBA foi criada em 2014 e congrega actualmente cerca de 40 membros incluindo as maiores empresas como a Refriango, a Cuca ou a Sumol-Compal.