“Pop Color” deixou Lisboa para continuar a desenhar fotografias nas ruas de Luanda

Conhecido na vida artística como "Pop Color", João Ferreira nasceu na província do Uíge, em 1959, mas nos últimos 20 anos aperfeiçoou, em Portugal, a sua técnica de transformar fotografias em desenhos a lápis de carvão, que agora recria nas ruas de Luanda.
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No seu ateliê, a céu aberto, entre o passeio e o banco na calçada da baixa de Luanda, João Ferreira explicou à Lusa que nunca frequentou qualquer escola de Belas Artes. Diz que foi na rua, além de Portugal, ainda com passagens por França e Alemanha, que aprendeu a transformar as fotografias que os clientes deixam em desenhos de lápis de carvão sobre papel.

"Regressei ao meu país, continuo com esse trabalho. Isso chama-se transformar uma fotografia numa obra de arte, porque dizem que esta arte é uma arte feita à mão. É muito natural e tem muito valor, mais do que aquela feita à máquina", desabafa.

Depois de duas décadas a desenhar e a aprender nas ruas de Lisboa, regressou há cinco anos a Angola. É na baixa de Luanda, junto à Mutamba, que garante o sustento para a família, recebendo fotografias que transforma em desenhos a preto e branco por 10.000 kwanzas.

Num dia bom, "Pop Color" pode fazer dois destes desenhos, mas o trabalho, explica, exige calma e paciência. "Depende, há dias com mais clientes, outros nem tanto, quando há chuva e sol. Mas para mim, estou numa fase que estou num ateliê sem tecto, estou na rua, mas estou a viver", conta, enquanto prepara a tela e o lápis para o próximo desenho.

Por entre a curiosidade de quem passa, "Pop Color" encontrou nesta arte o sustento para os três filhos e três netos. Conta que a sua vida "sempre foi por tinta" e foi sempre "popular", pressupostos que concorreram para o seu nome artístico.

"Passei por Portugal, depois fui para Alemanha e França e regressei a Portugal, onde fiquei cerca de 20 anos a fazer esta arte. A pintar na rua em Lisboa, na rua Augusta, a pintar retractos", conta.

“Um dom", como sublinha, que vai dando para viver, embora lamente a falta de espaços de espaços em Luanda "para ensinar aos mais jovens" aquela arte. Até porque, garante, muitos querem aprender.

"E eu quero ensinar, mas não tenho espaço. Por isso, preciso de um espaço para trabalhar e ensinar. Estou mesmo dentro dessa técnica, é o lápis sobre papel, uma técnica que eu trouxe da Europa para aqui. Com uma fotografia faço o esboço com muita calma para o meu trabalho ter a qualidade que gosto", explica.

Aos 58 anos, João Ferreira diz ter perdido a conta aos milhares de quadros que já pintou e que o deixam "orgulhoso", ao ponto de ter sempre alguns exemplares expostos na rua.

"Eu apenas tenho de agradecer, as pessoas passam e continuam a elogiar, a apreciar o meu trabalho e isso dá-me estímulo de continuar. Faço com muito amor, embora o dinheiro seja muito importante. Mas dou valor ao meu trabalho", assegura ainda.

"Pop Color" faz da rua, em Luanda, o seu ateliê, de Segunda a Sexta-feira, das 08h00 às 17h00: "É aqui na rua onde consigo sustentar a família, apenas vivo da pintura".

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