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Com “Luz Foi” Aline Frazão lembra as coisas básicas que ainda faltam ao povo angolano

A cantora angolana Aline Frazão divulga esta Quarta-feira um novo tema, “Luz Foi”, que remete para as coisas básicas, como o fornecimento de luz eléctrica, que ainda faltam ao povo angolano, 45 anos depois da independência do país.

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"Luz Foi", explicou, é uma expressão que os angolanos usam "quando há um corte do fornecimento de energia eléctrica", como aconteceu no momento em que a cantora falava com a Lusa ao telefone, a partir de Luanda.

"É uma coisa que acontece muito. Hoje menos, mas ainda acontece. As pessoas estão a fazer alguma actividade, estão a ver televisão, a ver futebol, a ver a novela e a luz vai. Então 'Luz Foi' é uma canção que fala disso, conta um pouco uma história de que estava a acontecer alguma coisa, neste caso eu estava a ler a 'Geração da Utopia', de Pepetela, e a luz foi", afirmou.

A expressão que dá título à canção "é algo muito simbólico para os angolanos, porque é uma reclamação constante essa questão da luz e da água".

"Há muitos lugares que não têm mesmo fornecimento de energia eléctrica, mas falando da cidade de Luanda [onde a cantora vive], onde há fornecimento de luz eléctrica, a luz ir ou a falta de luz, e da água também, é uma das reclamações constantes dos cidadãos aqui. E acaba por ser um bocado essa a ideia toda da canção, das coisas básicas que ainda nos faltam 45 anos depois da independência", disse.

O tema foi escrito por Aline Frazão pouco depois de ter regressado a Angola, no final de 2016, após dez anos vividos em Portugal e Espanha.
"Em 2017 esta foi a primeira canção que escrevi depois de ter editado o 'Insular', e senti que não cabia no álbum 'Dentro da Chuva' [editado em 2018], que é um álbum acústico de voz e violão, um álbum intimista. Esta canção tinha que ser com banda", contou.

"Luz Foi" já tem "a sonoridade dessa banda", com quem a cantora vai gravar o novo álbum e com quem fez "os últimos concertos pré-covid". O tema divulgado é "um passo intermédio entre um projecto e outro" e, por isso, "não vai entrar no próximo álbum", que começará a ser gravado no início de 2021.

Tendo em conta o assunto de "Luz Foi", Aline Frazão entendeu que o dia 11 de Novembro "era o momento ideal para finalmente lançar essa canção".

Segundo a cantora, a falha no fornecimento de energia eléctrica, de que fala a canção, "durante muito tempo teve que ver com questões práticas, da capacidade de produção de energia eléctrica do país", mais tarde, "durante a guerra, havia problemas relacionados com a guerra civil". "Mas depois, um país que é o segundo maior produtor de petróleo do continente [africano]... acaba por ser um pouco irónico", referiu.

Hoje, "a maior parte dos condomínios, senão todos os condomínios novos da cidade, que estão mais na periferia, já são construídos tendo em conta geradores", fonte de energia alternativa". "A própria estrutura que foi sendo construída no país durante os anos, digamos, de mais dinheiro, limitou-se basicamente a um crescimento económico, não a um desenvolvimento", defendeu.

Para Aline Frazão, a falha no fornecimento de energia eléctrica e de água hoje, dia em que se assinalam os 45 anos da independência de Angola, explica-se "como se explica provavelmente todos os outros problemas sociais que existem em Angola: uma má governação, não priorização das coisas mais básicas, que devem ser as primeiras a serem resolvidas".

Reconhecendo que a recente mudança política no país "foi importante", Aline Frazão mostra algum desalento. "As coisas estão a ser resolvidas? Eu acho que não. Há uma mudança política, que foi importante, mas que até ultimamente não é muito animador. Continua a haver muito pouca flexibilidade para a contestação, principalmente quando vai para as ruas. Há sempre uma estratégia de intimidação, de espalhar boatos e 'fake news' a dizer que vai haver uma grande instabilidade política em Angola, assustar as elites. O fantasma da guerra civil, da instabilidade política, as falsas acusações da UNITA. Ou seja, é tudo muito repetitivo, é sempre o mesmo filme e isso é muito triste", afirmou.

Aline Frazão considera que os acontecimentos recentes, com a repressão de manifestações - "um direito que está consagrado na Constituição de Angola e sistematicamente parece ser algo que incomoda muito o Governo" – são "um pano de fundo triste para esta celebração dos 45 anos como país independente".

"Obviamente que houve muitas coisas que mudaram e a saída do presidente José Eduardo dos Santos foi uma mudança brutal para o país, não se pode tirar peso a isso", salientou a cantora, ressalvando que "ainda há muito trabalho por fazer e muito por cumprir".