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O fecho de um capítulo que não termina: de Angola para Portugal


O fecho de um capítulo que não termina: de Angola para Portugal

Cláudia Rodrigues Coutinho

Casada e com 2 filhos. Deixou a vida que tinha, em Portugal, e experimenta, desde Setembro 2015, a dimensão de uma família lusa, a viver, em Angola.

Em Angola, e em África, eu fui muito feliz. Depois de 4 anos a viver em Luanda chegou a hora de regressar a casa. Parti de vez, este verão, e refletindo sobre estes 4 meses em Portugal sinto-me ainda a chegar, devagarinho. Talvez lá tenha deixado um pouco de mim, talvez lá tenha deixado parte do meu coração.
CRC: Cacuso, Malanje
Cacuso, Malanje   CRC

Regressar a casa depois de nos termos desprendido, um dia, do lugar onde crescemos e nos habituámos, obriga-nos readaptar e reajustar ao lugar que embora nosso soa estranho.

Se é verdade, inquestionável, a grande felicidade do regresso a casa - que é sempre considerado como um caminho certo a seguir (como me disse um professor especial) - também não é menos verdade uma tal nostalgia e total confusão de sentimentos. 

Ora chega a alegria, o contentamento, o conforto do regresso às origens; ora chega, de mansinho, uma incerteza de uma vida que está para reiniciar, e um tal descontentamento que vai pairando na sombra.

Esta confusão de emoções, depois de uma partida, tira-nos o chão seguro e remete-nos para uma espécie de história de uma página em branco que resulta da estranha sensação de que, talvez, nunca mais nos voltemos a sentir bem em lugar nenhum.

E aqui estou, perante vós, serenamente, inquieta, a tentar entender o que África, as partidas e os regressos, tiraram e deram.

Há pessoas que não precisam de partir para um novo lugar para se encontrarem. Mas eu precisei.

Em Angola, África, recebi novas lições. Fui enchendo o que ficou vazio com novas opiniões e conceitos, novos pensamentos, novos hábitos, preferências, normas, novas vivências e novas histórias.

Saí dona de mais ideias: as minhas - que trouxe e traduzem o que era - e as novas, que encontrei, questionei e compreendi, e traduzem um novo modo de ser.

Quando se sai regressa-se com a sensação de que tudo mudou: porque vivemos fora e confirmámos mundo novo. Um mundo completamente distinto do nosso que, por mais incrível que pareça, nos atesta
muitas dúvidas e ansiedades, mas, igualmente, muitas surpresas e satisfação.

Em África atentamos pessoas alegres a sentir a Falta. A Falta de saúde, de comida, de educação, de casa, a falta de oportunidades, de dignidade, de respeito ou de afeto.

Mas ainda assim senhores de uma alegria bem translúcida, límpida, convicta de si e sentida no mais puro estado.

Uma alegria que o nosso mundo desenvolvido, muitas vezes, não vislumbra.

Uma alegria cosida com as linhas dos seus sorrisos e gratidão. Uma alegria das pessoas que encaram o novo dia, como o último. Uma alegria daqueles que lidam com faltas e injustiças que são
incombatíveis.

Encaramos quem, mesmo assim, decidiu combater com as armas da gratidão, o escudo da coragem, e a força da criatividade, da persistência, da humildade e da esperança.

Em África, em Angola, em qualquer partida, vivemos cada dia a agradecer, a partilhar e a sentir com sentido.

Unimo-nos como nunca e experimentamos a simplicidade da vida como sempre.

As cores quentes, fortes e intensas, deste continente traçam-nos imagens mágicas e encantadas. O sol, que está bem próximo de nós, encandece como nunca, atravessa-nos a alma.

Tudo o que descortinamos é grande, imenso e livre, num rasgo de uma natureza imponente, adversa, por vezes injusta, mas, igualmente, límpida e tranquila.

E o ar. O ar abafado, vivo, quente, oferece-nos a sensação de pausa no tempo, como se estivesse suspensa no ar quente.

Nas árvores grandes imponentes, nos caminhos sem fim, nas montanhas magnânimas, no brilho dourado do sol quente e nos sorrisos limpos das pessoas: eu fui muito feliz.

Sabia que estava onde deveria estar.

Fechei, assim, um capítulo, que não termina.


(e assim consegui preencher, finalmente, a página em branco. Obrigada).

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