Desminagem coloca esperanças no mediatismo da visita do príncipe Harry

O gestor do programa internacional de monitorização de minas terrestres (Landmine Monitor) assinalou a redução de fundos internacionais para operações de desminagem em Angola, mostrando-se confiante que a recente visita do Príncipe Harry possa inverter este cenário.
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"Esta semana falei com muitos jornalistas que pareciam ter-se esquecido que as minas terrestres continuam a ser um problema em muitas partes do mundo. Grandes eventos mediáticos como a ida do Príncipe Harry a Angola é exatamente o que o sector humanitário de desarmamento precisa", disse Morgan MacKenna.

O gestor do programa de monitorização da Campanha Internacional para Erradicação de Minas Terrestres (ICBL, na sigla em inglês), falava à agência Lusa, por telefone, a propósito do lançamento do Landmine Monitor 2019, mecanismo que anualmente avalia o progresso das operações de desminagem em todo o mundo.

De acordo com o relatório, Angola libertou, nos últimos em cinco anos, 90 por cento das áreas suspeitas de contaminação por minas, mas os progressos não retiraram o país da lista dos 10 estados mais contaminados, com mais de 100 quilómetros quadrados de terras suspeitas de terem minas terrestres e outros vestígios de armamento.

Morgan MacKenna adiantou que o lançamento do relatório "parece ter maior cobertura da imprensa" este ano e atribui esse interesse mediático à visita que o Príncipe Harry realizou a Angola, no final de Setembro, e durante a qual visitou o antigo campo de minas terrestres no Huambo, que tinha sido percorrido 22 anos antes pela mãe.

"Espero que este interesse se traduza em mais fundos para Angola no próximo ano", disse.

O relatório revela que o país registou uma redução dos fundos para o programa de desminagem após a perda de financiamento da União Europeia, em 2016, e dos Estados Unidos, em 2018, o que se reflectiu na limpeza das áreas minadas.

Em 2018, Angola recebeu 7,1 milhões de dólares de doadores internacionais para os seus programas de desminagem, segundo o relatório, tendo a contribuição nacional sido estimada em 26 milhões de dólares.

Segundo o documento, em 2015 foram desminados 4.1 quilómetros quadrados, tendo-se, desde essa altura, situado a área anual média limpa nos 1.1 quilómetros quadrados.

"Em Angola, ainda temos contaminação massiva e nos anos mais recentes os fundos para as operações de limpeza caíram muito. Isso levanta sérios problemas a Angola, que tem estado muito limitada pela falta de fundos. Os Estados Unidos retiraram uma grande parte dos seus recursos e deixaram o Governo com um grande problema no que respeita à limpeza que é necessário fazer", considerou.

Recordando que desde a adesão ao Tratado para a Erradicação de Minas Terrestres, em 2003, até 2017 Angola conseguiu libertar 141 quilómetros quadrados de terras, tendo sido encontradas 3500 minas antipessoais, mas alertou que há ainda mais de 105 quilómetros quadrados de terras contaminadas.

Apesar do cenário actual, Morgan McKenna, acredita ser possível o país alcançar o objectivo de descontaminação total de 2025.

"Limparam 10 quilómetros quadrados em 10 anos. Têm mais de 100 quilómetros quadrados para limpar e o progresso é muito lento por causa das dificuldades do terreno e do financiamento", apontou. "É absolutamente possível, mas precisam de ajuda internacional e acredito que a visita do Príncipe Harry vai ajudar nisso", acrescentou.

McKenna apontou, por outro lado, o caso de Moçambique, que deu o seu processo de desminagem como completo em 2017, como uma história de sucesso.

Angola e Moçambique continuam a registar vítimas de minas antipessoais a cada ano e o responsável da ICLB defende que os dois países devem também concentrar esforços na reabilitação e inclusão dos sobreviventes.

"Têm de priorizar a reabilitação e a inclusão económica dos sobreviventes, que, após tantos anos de conflito, são muitos. As organizações de apoio têm sido bastante bem-sucedidas, mas é preciso investimento e apoio ao nível dos governos", disse.

Apontou também a necessidade de "reconstruírem as suas capacidades em matéria da ortopedia e próteses", considerando que são actualmente "muito fracas".

O relatório ICBL deste ano apresenta uma revisão dos progressos alcançados nos 20 anos após a entrada em vigor do Tratado para a Erradicação de Minas e o seu lançamento antecede a quarta conferência "Um mundo livre de Minas", que decorre em Oslo, Noruega, entre 25 e 29 de Novembro, e conta com a participação de 170 especialistas, activistas e sobreviventes de minas terrestres.

A conferência vai apelar para um compromisso financeiro e político "claro" que permita cumprir o objectivo de erradicação das minas terrestres até 2025 e fornecer apoio aos sobreviventes e as comunidades afectadas.

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