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Regresso às aulas em Luanda marcado por falta de condições de biossegurança

Professores, alunos e funcionários administrativos de algumas escolas de Luanda queixaram-se esta Segunda-feira de insuficiência de material de protecção individual e de biossegurança contra a covid-19, lamentando a “falta de mínimas condições” no regresso às aulas.

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As aulas presenciais no ensino geral, a nível das classes de transição como a 6.ª, 9.ª, 11.ª e 13.ª classes, e no subsistema de ensino universitário foram retomadas, de forma faseada, depois de seis meses de suspensão devido à pandemia.

Falta de termómetros de medição de temperatura e álcool gel à entrada dos estabelecimentos, escolas sem água corrente, nem viseiras para professores, lavatórios, salas e casas de banhos degradadas foram o cenário encontrado pela Lusa em algumas escolas da capital.

Na escola do 1.º ciclo do ensino secundário n.º 1.057 “Juventude em Luta”, no distrito da Maianga, em Luanda, alguns alunos acorreram à instituição para ter a primeira aula deste dia guardando distanciamento na sala.

Emília Pinto Dóqui, professora da disciplina de Química, valorizou o regresso às aulas, mas lamentou, em declarações à Lusa, a falta de condições básicas para os docentes.

“(Internamente) não há condições de biossegurança, mas vamos trabalhar com o que temos, a escola está a envidar esforços para que trabalhemos mesmo assim, com o que temos, mas gostaria que o Estado visse desse lado. Neste momento não temos energia elétrica, não temos água para a higienização dos alunos”, disse.

A docente que falava no final da aula, diante de uma turma com 14 alunos, apontou a necessidade de os professores disporem de frascos de álcool em gel, afirmando ter usado um que adquiriu com meios próprios.

“Mais respeito aos professores”, sobretudo no que diz respeito à garantia regular de testes de covid-19, foi outra das solicitações da professora Emília Pinto Dóqui, lamentando não ter tido a oportunidade de fazer o teste devido à “confusão” da última semana.

“Não fiz teste no dia indicado para os professores, porque eu acho que o Estado tem de respeitar mais os professores. O Ministério da Saúde tinha de encontrar um meio-termo para atender os professores por escola”, apontou.

“Uma única equipa para aquela confusão toda, não, se ela (ministra da Educação) ainda não viu professor a morrer, quer ver agora? Não pretendo morrer agora, por isso não fiz”, atirou.

Na semana passada, em Luanda, a testagem massiva de cerca de 3000 professores pelas autoridades de saúde ficou marcada pela desorganização nos centros de testes, onde se geraram longas filas e ajuntamentos de docentes.

Por sua vez, os alunos da “Juventude em Luta” congratularam-se com o regresso à escola, afirmando que o Governo tomou “uma boa decisão”, lamentando, no entanto, a insuficiência de condições de biossegurança.

“Fizemos uma fila à chegada para a lavagem das mãos, mas ainda não tem um aparelho para medir a temperatura”, disse a estudante Elizabeth Maria Francisco, 14 anos, garantindo não ter “nenhum receio”.

As condições aqui, afirmou o estudante Faustriliano Leonel da Silva, 13 anos, “estão mais ou menos”.

“Vi que a escola está com falta de água, cada um trouxe o seu álcool em gel de casa e isso é bom para se prevenir”, acrescentou o jovem.

Já o subdirector administrativo da instituição escolar, Miguel João, enalteceu o regresso às aulas, afirmando que a escola "tem um protocolo de entrada e saída de alunos, cumpre com as medidas de biossegurança e de distanciamento".

“Agora o que não cumprimos é o primeiro item do nosso protocolo que é a medição da temperatura, não recebemos o termómetro, estamos a espera do termómetro e também de viseiras para os professores”, notou.

Martinho Sita, encarregado de educação, apelou aos pais para verificarem minuciosamente as condições nas escolas, sobretudo públicas, porque, frisou, "algumas não estão preparadas para receber alunos".

“Esperamos que este regresso e as condições ora criadas sejam contínuas para que possamos prevenir-nos contra essa doença maléfica”, sublinhou.

No município do Cazenga, um dos mais populosos de Luanda, funcionários administrativos da escola do 1.º ciclo do ensino secundário 3053, mais conhecida por “Paiva Domingos da Silva”, lamentaram a “falta de condições mínimas”.

Sem aceitar gravar entrevista, a responsável da Secretaria afirmou que a instituição, em que grande parte das salas apresenta fissuras, carteiras degradadas, casas de banho sem portas, água corrente e buracos no seu interior, não dispõe de condições para o reinício das aulas.

A falta de um termómetro para medição de temperatura, de baldes, tambores ou lavatórios para os alunos, bem como dispositivos de álcool em gel constituem outras dificuldades constatadas na escola “Paiva Domingos da Silva”.

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