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Opinião A opinião de...

Angola: a promessa de um ensino melhor (utopia ou realidade)

Neidelênio Baltazar Soares

Estudante do Curso de Química da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira

O ano 2020 apesar da pandemia e crise sanitária vivida por todo mundo tem sido um ano de grandes promessas até agora, temos verificado por parte das autoridades Governamentais angolanas a promessa de uma educação de qualidade, ganhando bastante destaque nas suas retoricas.

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Na abertura geral do ano lectivo a Ministra de Estado para área Social Carolina Cerqueira, presidindo o acto sob o lema "Por um ensino de qualidade promovamos competência e o bem-estar". Deixou claro os inúmeros projetos em carteiras que o Governo actual tem para garantir que o ensino em Angola tenha qualidades consideráveis e ainda proporcionar uma educação inclusiva onde todos tenham acesso de modo a garantir a diminuição de criança fora do sistema de ensino.

De acordo com Paro (2000) o termo Educação de qualidade muitas vezes é associado a palavra utopia, "que significa o lugar que não existe. Não quer dizer que não possa vir a existir." Na medida em que não existe, mas ao mesmo tempo se coloca como algo de valor, desejável pela comunidade escolar, cabe tomar consciência das condições e contradições que apontam para a viabilidade de oferecer-se uma educação pública de qualidade, partindo de algumas abordagens, como: democratização das relações no interior da escola, adequação das políticas públicas em educação, definição dos objetivos gerais da educação e a metodologia apropriada para concretização do que se apresenta, por hora, como uma utopia. (RIBEIRO, 2011)

O presente artigo surge com o intuito de analisar as possibilidades e caminhos que tornem efetivamente possível o oferecimento de uma Educação Pública de qualidade em Angola em todos níveis e indicar dimensões (intra e extraescolares) que interagem e são fundamentais nesse processo e essenciais para o desenvolvimento do país.

O Presidente da República, João Lourenço, no dia 12 de Junho defendeu, uma aposta substancial no ensino primário e secundário, com um investimento de grande vulto, para elevar a qualidade no futuro e evitar que se continue a assistir a um cenário em que estudantes saídos do ensino superior não saibam fazer uma redacção se quer, conforme citado no Jornal de Angola.

O presidente da República admitiu publicamente que o modo como se tem dirigido a educação em Angola não tem sido correto, e desta forma pode atrapalhar o futuro da nação. Concordando com Mandela quando afirma que "A educação é a arma mais poderosa para mudar qualquer sociedade".

Para Dourado: "A educação como prática social que ocorre em diferentes espaços e momentos da produção da vida social, deve ter por objetivo a formação integral dos sujeitos". Relativamente a Qualidade da educação, é bastante importante pensar nela em duas dimensões (extraescolares e intraescolares) porque elas dizem respeito às múltiplas determinações e às possibilidades de superação das condições de vida das camadas sociais menos favorecidas e assistidas e, ainda, as condições relativas aos processos de organização e gestão, bem como, aos processos ensino e aprendizagem, tendo em vista a garantia do sucesso dos estudantes.

Não basta apenas afirmar publicamente sobre os retrocessos no sistema educativo angolano, existe um conjunto de ações que necessitam ser trabalhados com urgência, e elas vão além da construção de uma escola, ou da formação de um quantitativo de professor e muito menos da disposição de verbas que não são distribuídas para sanar as reais dificuldades da educação no país. Desta forma, o presente artigo é imbuído de sugestões em duas dimensões para se alcançar minimamente a qualidade de ensino em Angola.

Nas dimensões extraescolares deve-se pensar urgentemente na necessidade de criar politicas públicas de modo a resolver problemas que muitos alunos ainda enfrentam como: fome, drogas, violência, sexualidade, saúde, família. Deve-se também garantir a criação de programas com adicional cunho pedagógicos em escolas públicas como por exemplo garantir alimentação (merenda escolar) aos alunos do ensino primário e 1.° ciclo do ensino secundário.

Nas dimensões intraescolares deve-se pensar urgentemente em dar continuidade com eficácia em alguns programas existentes mas que por algum motivo não são aproveitados no país como: proporcionar um ambiente adequado para realização de atividades de ensino, lazer, desporto e atividades culturais, estimular a leitura por meio de actividades de caráter científicos e isso pressupõe ter uma biblioteca com um espaço de leitura favorável e de consulta de acervos para estudos individuais e em grupos, desenvolver a criação de grupos de pesquisa com caráter de extensão com o fim de familiarizar os alunos com a comunidade externa, garantir aos professores acervos para facilitar no trabalho pedagógico, equipar laboratórios de ensino para garantir que a teoria e a prática caminhem juntos no processo de ensino e aprendizagem.

É necessário também que as escolas tenham uma gestão democrática e participativa em todos os setores quer seja administrativo, quer seja financeiro. O perfil do gestor das escolas deve ser de acordo a formação superior e competências pedagógicas. O Projeto Político Pedagógico das escolas deve ser pensado com um fim multidisciplinar e o mesmo deve contemplar a atuação e autonomia escolar. Deve-se pensar em espaços de formação para os docentes (Educação continuada). Os docentes precisam estar comprometidos com a escola para todas as atividades curriculares, desta forma a sua carga horária deve ser repensada. A metodologias adoptadas para o ensino devem ser apropriados ao desenvolvimento dos conteúdos que serão ministrados.

Todas essas questões no primeiro momento parecem utópicas, porém são questões dessa natureza quando pensadas e implementadas que nos permitem ter um ensino de qualidade como Paulo freire nos recomenda, que antes de tudo assumamos a Utopia/esperança como condição fundamental para inspirar e orientar os educadores que buscam superar as contradições de um sistema que nega cada vez mais a "vocação ontológica" de homens e mulheres que buscam em sua espontaneidade a busca pelo "ser mais".

A promessa de um ensino de qualidade na ótica de Paulo feire traz a ideia de uma escola que atenda as peculiaridades e as complexas caraterísticas dos seus estudantes. Dessa forma os pensamentos de freire a cerca da "Utopia" de um ensino de qualidade é importante e fundamental porque nos ajuda a compreender e ter um posicionamento seguro e fiel em direção a uma sociedade justa e solidária, onde todos tenham acesso ao ensino, o conceito de "Utopia" de freire e onde nos baseamos para trazer essa reflexão e a partir daqui seguimos defendendo a inclusão escolar e superamos todas contradições e problemas encontradas no processo de ensino.

Opinião de
Neidelênio Baltazar Soares