Naúlila Luís: “O melhor prémio é criar acessórios e ver as pessoas a usá-los”

A designer industrial formou-se em Portugal, e quando a artista ainda estava na faculdade, criou um dos seus projectos mais conhecidos, uma mala feita com canetas de feltro, a Just Beg. Já lançou duas marcas, a Sushi e a Glamma, e já apresentou o seu trabalho em Paris, uma experiência que considera a mais marcante desde que cria acessórios de moda. Para a designer, a melhor forma para evoluir no seu trabalho, é desafiar-se constantemente.
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Naúlila, fale um pouco sobre si... Onde nasceu, cresceu, onde se formou...

Nasci em Angola, Cabinda. Cresci em Portugal e fiz a minha licenciatura em design industrial nas Caldas da Rainha [cidade portuguesa], na Escola Superior de Arte e Design.

Como surgiu a ideia de criar complementos de moda? Já era um sonho seu trabalhar com acessórios?

O gosto pelos acessórios só veio depois de praticamente terminar a minha licenciatura, apesar de na faculdade, quando o tema era livre na disciplina de projecto/design, eu muitas vezes propunha como projecto a desenvolver acessórios ou malas. No fundo, o meu percurso começou a ser desenhado ali. Comecei a construir acessórios à mão, como a maioria dos designers. Fui me actualizando, acompanhando a evolução da tecnologia, e agora desenho as jóias em formato digital. Não sou uma designer de jóias clássica. Não tenho qualquer formação de joalharia, nem de técnicas de construção de jóias artesanais.

O que é que a inspira a criar e quais são as suas referências?

Sou uma pessoa que gosta de cultura, nas mais variadas áreas, que faz das viagens um dos seus grandes passatempos, e que gosta de tudo o que está relacionado com arte em geral. Sou também uma grande fã, e seguidora atenta, de tudo o que se relaciona com tecnologia, e tento sempre tirar o máximo de proveito de tudo o que ela oferece. No fundo, a minha inspiração é uma fusão de todas estas áreas, que eu aprecio e vivo.

De que forma é que Angola está presente nos seus trabalhos?

O facto de termos nascido num país, faz-nos ficar ligado a ele para sempre, assim como à sua cultura. Existe sempre esta ligação umbilical. Angola e África, nomeadamente as suas tribos, fazem dos adornos uma constante no dia-a-dia. O angolano e também um povo vaidoso, que gosta de se apresentar bem... Essa ligação à África poderá não estar lá, de forma explícita, mas inconscientemente, está lá.

Já criou duas marcas de bijuteria, a Sushi e a Glamma. Porque sentiu necessidade de criar uma segunda marca e o que a diferencia da primeira?

Sou uma pessoa de desafios, e que gosta de se desafiar a si própria constantemente.
A primeira marca que criei foi a Sushidesign, que já tinha o seu público-alvo bem definido e conquistado. Quis criar outra marca para um público-alvo completamente diferente, que tivesse um lifestyle completamente diferente da Sushi. Isso traduz-se nas formas e cores das jóias, e em todo o styling e conceito, por trás das duas marcas. No fundo, quis mostrar que um mesmo designer pode criar marcas tão distintas. É como se tivesse de encarnar diferentes personalidades, quando projecto para uma e outra marca... É como se tivesse a trabalhar para duas empresas, com realidades e conceitos díspares... O que me dá bastante gozo, e é um teste constante à minha criatividade e à minha capacidade de superação.

Os materiais que utiliza e as formas das suas peças são diferentes do habitual. Como tem reagido o público feminino às suas propostas?

Tem reagido bem. As duas marcas utilizam materiais bastantes distintos, que vão ao encontro do público-alvo de cada marca.

Onde é que os seus acessórios de moda podem ser encontrados à venda?

Neste momento as jóias só estão disponíveis nas respectivas lojas online Glamma.pt e Sushidesign.pt.

Quais as experiências mais marcantes, positivas e negativas, desde que criou as suas marcas?

Nestes 12 anos de trabalho de criação de acessórios, muita coisa aconteceu... Positivo, foi conseguir manter as marcas no mercado e sentir que elas evoluem, assim como eu evoluo profissionalmente.

A parte negativa, faz parte do processo de qualquer projecto de empreendedorismo... Estamos constantemente a aprender com os erros, e eventuais falhas, e a tentar sempre melhorar... Talvez o mais marcante nesta actividade foi expor as minhas jóias em Paris, e absorver todo o conhecimento que se adquire dessa experiência.

Já foi premiada pelo seu trabalho como designer? Qual o prémio que mais ambiciona?

Nunca tive um prémio explícito em design, mas já tive o meu trabalho referenciado em revistas e livros de design. Os meus trabalhos também têm sido expostos com alguma regularidade, em Portugal e noutros países. Não ambiciono nenhum prémio em especial... Se surgir será uma consequência do meu trabalho. O melhor prémio, será sempre continuar a criar acessórios e ver as pessoas a usá-los... Não há melhor prémio e gratificação do que isso.

Dê-me dois ou três exemplos de peças que lhe tenham dado um especial prazer em criar.

A mala Just Beg feita com canetas de feltro. Foi o que considero o meu primeiro trabalho como objecto de design, o que teve mais impacto, e um dos mais bem aceites na imprensa. O colar Espelho Meu, para a marca Efeito D. também foi um projecto especial, pois as vendas do colar revertiam para ajudar uma associação de crianças com trissomia 21.

Quem é que gostava de ver a usar as suas bijuterias?

Ninguém em especial. Se as pessoas se identificarem com as minhas peças, e as comprarem por terem essa identificação, eu já fico feliz com isso.

Por fim, qual é o seu maior sonho e quais os projectos para o futuro?

Eu procuro e desafio-me a mim própria, constantemente. Acho que só assim se consegue uma evolução e melhoria, a todos os níveis. Continuar a trabalhar na área do design, definitivamente, e quem sabe criar outras marcas de acessórios, ou noutras tipologias de produto.

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