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A quarentena de Luanda com trânsito, muita gente e pouco distanciamento

Trânsito intenso, aglomerados de pessoas e longas filas para os transportes retratam o estado de emergência em Luanda, onde milhares de angolanos continuam a circular na rua, apesar dos veementes apelos das autoridades para que fiquem em casa.

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Apesar das máscaras de pano serem omnipresentes - até porque ninguém pode andar de transportes sem equipamento de proteçcão - a desobediência às regras continua e o distanciamento social é ignorado, tendo-se tornado mais visível na terceira fase do estado de emergência, declarado pela primeira vez a 27 de Março para travar o avanço do novo coronavírus.

Na estrada que liga Luanda a Cacuaco, as filas para os táxis colectivos são longas, as pessoas amontoam-se mal avistam um “azul e branco” na esperança de conseguir entrar.

Outros seguem quilómetros a pé pela estrada, onde o vaivém de gente começa logo às primeiras horas do dia.

Todos arranjam justificação para estar na rua e a mais frequente é fazer negócio para não morrer de fome, como alegam as zungueiras que aguardam o candongueiro.

No lado oposto da via, a faixa de rodagem caótica enche-se de carros ao longo de, pelo menos, três quilómetros, num dos vários pontos de estrangulamento rodoviário devido às barreiras policiais que controlam os acessos à província de Luanda, onde se concentram os 35 casos de infecção pelo novo coronavírus identificados até ao momento.

Ao longo de um percurso de 22 quilómetros, entre o centro da cidade e a fronteira com o Bengo, a Lusa passou seis destas barreiras.

Com menos transportes, dias e horários específicos para o comércio e venda ambulante a que se dedicam milhares de luandenses, a manutenção da cerca sanitária em Luanda traz dificuldades acrescidas a quem mora ou trabalha nas zonas de fronteira

Na fronteira com o Bengo, algumas dezenas de pessoas que querem atravessar a cerca sanitária têm de aguardar várias horas até que lhes seja permitido ultrapassar a fronteira do Quifangondo.

Paulina Bento Lucas, zungueira, diz que chegou ao local às 04h00 e ainda não conseguiu sair de Luanda porque “as pessoas estão empatadas”.

Mora no Bengo, mas teve de ir a Luanda “comprar negócio” que irá tentar revender na sua província na Terça-feira.

Sabe que existe a cerca sanitária, sabe “dessa doença que apareceu”, mas pergunta: “Vamos fazer como? Se não sairmos para vender as crianças vão comer o quê?”.

Por isso, pede que tudo volte à normalidade. “Temos de rezar. Tudo tem que voltar à normalidade, vamos entregar tudo na mão de Deus”, apela, sublinhando que “muitos estão a cumprir a quarentena”, mas são “os que já têm tudo na arca”.

“São os que têm peixe, frango, tudo, nós não temos nada”, desabafa a vendedora, explicando que acaba por ter de sair de casa praticamente todos os dias, pois aproveita quando não pode vender, actividade que só pode praticar agora às Terças-feiras, Quintas-feiras e Sábados, para se abastecer do “negócio”.

Nas barreiras, a polícia mostra-se entre o indiferente e o indulgente, cientes das dificuldades dos cidadãos, mas também do seu dever.

Sabem que estão ali para fazer cumprir as regras do decreto presidencial relativo ao último estado de emergência, que apesar de algumas concessões, incluindo regresso ao trabalho a 50 por cento e abertura do comércio geral, ainda com horários limitados, mantém a cerca sanitária na província de Luanda.

“Só passa quem tiver credencial e passe de serviço”, afirma um agente à Lusa, pedindo o anonimato.

Outro admite que “é difícil controlar”, lamentando a desobediência dos cidadãos.

Há quem se queixe do excesso de entraves, pois mesmo exibindo os documentos são obrigados a uma espera de várias horas.

Na Panguila, província do Bengo, Abel Manuel, supervisor de uma empresa de segurança, aguarda já há cerca de três horas para poder entrar em Luanda e substituir um dos funcionários.

Explica que por falhas de segurança, devido aos condicionamentos, foi assaltada uma igreja e levaram todos os instrumentos musicais.

“Nós, como seguranças temos de ir lá para intervir, eu já estou aqui desde as 07h00, tenho passe, tenho credencial. Estou a demorar muito. Quando chego, falo com a autoridade e vou esperando, o tempo vai passando e o homem que está no posto fica aborrecido e abandona o posto e o gatuno aproveita essa situação”, conta.

Abel Manuel refere que “fazer a travessia do Quifangondo está muito duro” e o processo deveria estar facilitado para quem tem os documentos.

Paulino Soares Maiongo, taxista, critica a polícia por restringir o serviço dentro da província do Bengo.

“Estamos impedidos de trabalhar na região do Bengo, especialmente neste troço, entre o controlo do Roque e o controlo do Quifangondo. Estamos impedidos de trabalhar e não sabemos porquê”, contesta.

“Nós, que exercemos o serviço de táxi, tinham de nos dar uma facilidade para trabalhar”, implora, garantindo que cumpre a lotação do táxi, que agora não pode ultrapassar 50 por cento da capacidade e não aumentou os preços, mantendo o bilhete nos 150 kwanzas.

O motorista garante, veemente: “Nada de especulação”.

Quanto ao motivo de “tanta gente na rua”, a justificação é a fome. “Eu até vejo senhoras a sair a pé, com quibutos (fardos) nas costas, de banana, mandioca, bombó, e os polícias ainda a dar porrete nas senhoras. Isto é desumano o que está a acontecer, são as necessidades que fazem isso”, justifica.

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