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Saúde

Restrições no fornecimento da vacina pela Índia vai complicar objectivos de África

As restrições da Índia relativas às exportações da vacina contra o coronavírus irá complicar o objectivo de vacinação planeado em África, disse o director do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças da União Africana (Africa CDC).

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A Índia, apelidada de "farmácia do mundo", anunciou na semana passada que irá reduzir o volume previsto de exportações da vacina Oxford-AstraZeneca, produzidas pelo Instituto indiano Serum, porque tem de dar prioridade a uma nova onda interna de infecções.

As vacinas Oxford-AstraZeneca são a "espinha dorsal" da campanha de imunização em África, segundo John Nkengasong, o director do Africa CDC, em declarações na conferência de imprensa semanal da organização, em formato digital, a partir da sede da União Africana (UA) em Adis Abeba, Etiópia.

O Instituto Serum da Índia produz as vacinas AstraZeneca que estão a ser enviadas para África através da iniciativa internacional Covax, que garante o acesso às vacinas a países de baixo e médio rendimento. Pelo menos 28 dos 55 Estados-membros da UA receberam até agora mais de 16 milhões de doses através da Covax.

"Se estas entregas também forem adiadas, é pouco provável que consigamos atingir os nossos objectivos", afirmou Nkengasong. A meta estabelecida pela UA é de vacinar cerca de 30 por cento da população nos seus 55 estados-membros até ao final de 2021.

"Se o atraso continuar - e eu quero realmente esperar que seja um atraso e não uma moratória, porque seria catastrófico se assim fosse - então o cumprimento do nosso calendário de vacinação tornar-se-á problemático, muito, muito problemático", acrescentou.

A Covax tem enfrentado atrasos relacionados com a limitação do fornecimento em termos globais, assim como com questões logísticas. É por isso que alguns países como a África do Sul, a nação africana mais duramente atingida, estão também a procurar vacinas anti-covid-19 através de acordos bilaterais e através do programa de compras por grosso da União Africana.

A África, com cerca de 1,3 mil milhões de habitantes, espera vacinar 60 por cento da sua população até ao final de 2022, por forma a alcançar a imunidade de grupo. Esse objectivo não será, quase certamente, atingido sem a utilização generalizada da vacina AstraZeneca, que é vista como central na estratégia global para erradicar a pandemia do coronavírus.

A vacina do fabricante anglo-sueco de medicamentos é mais barata e mais fácil de armazenar do que outras e constituirá a quase totalidade das doses enviadas no primeiro semestre do ano através da Covax.
Especialistas alertaram que até que as taxas de vacinação sejam elevadas em todo o mundo, o vírus continuará a ser uma ameaça global.

No início da semana, a Johnson & Johnson anunciou que irá fornecer até 400 milhões de doses da sua vacina aos países africanos, mas os primeiros carregamentos não são esperados antes do terceiro trimestre de 2021.

Os países africanos receberam até agora mais de 29,1 milhões de doses de vacinas e administraram 10,3 milhões de doses, tendo dado prioridade aos profissionais de saúde, idosos e pessoas com patologias associadas, disse Nkengasong.

Alguns países africanos confrontam-se actualmente com fortes ressurgimentos da pandemia, como o Quénia, que registou um aumento semanal médio de 53 por cento em casos de infecção durante o mês que terminou.

No Quénia, a campanha de vacinação tem sido caótica, alimentada, em particular, por um elevado nível de desconfiança entre os trabalhadores na área da saúde.

Alguns centros de vacinação ficaram sem doses, em parte porque muitas pessoas que não pertencem às categorias prioritárias estão a receber a vacina.

Por outro lado, a vacina russa Sputnik V está também a ser vendida em clínicas privadas por cerca de 70 dólares por duas doses.

Nkengasong expressou ainda preocupação com uma nova variante altamente mutante, recentemente detectada em Angola entre pessoas que tinham viajado da Tanzânia.

Depois da morte do Presidente da Tanzânia, John Magufuli, funcionários do Africa CDC estão "a utilizar vários canais" para trabalhar com a administração da sua sucessora, Samia Suluhu Hassan, indicou o responsável.

O aparecimento da variante tanzaniana levou Moçambique está a "montar uma estratégia de vigilância intensiva" para detetar a eventual entrada no país dessa mutação do vírus SARS-CoV-2, de acordo com a virologista Nália Ismael, do Instituto Nacional de Saúde moçambicano, num seminário esta Quarta-feira.

Recentemente foi descrita em pacientes em Angola provenientes da Tanzânia uma nova variante com uma dezena de novas mutações em relação às variantes conhecidas. Estes casos merecem a preocupação de Moçambique, uma vez que a Tanzânia faz fronteira a norte com este país lusófono.

"Vamos montar uma estratégia de vigilância genómica mais intensiva, principalmente para as amostras que vêm de Cabo Delgado ou do norte de Moçambique, que faz fronteira com a Tanzânia", disse Nália Ismael.

Segundo a virologista, "a probabilidade de esta variante entrar em Moçambique será a partir do Norte" e "a estratégia de vigilância será mista - incluindo o escrutínio das amostras de pacientes infetados que vierem a ser recolhidas na província de Cabo Delgado, e das que forem recolhidas em eventuais viajantes provenientes da Tanzânia".