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A primeira entrevista colectiva do PR: uma abordagem ontológica


A primeira entrevista colectiva do PR: uma abordagem ontológica

Benjamin Salomão

Jurista

No passado dia 8 de Janeiro, aconteceu mais um marco histórico, político e jurídico na “bebé democracia” angolana: a primeira entrevista colectiva do Presidente da República, após 42 anos de independência de Angola. E, foi exactamente no consulado do actual P.R., João Lourenço, alusiva a celebração dos 100 dias do seu governo.
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A expectativa era grande. Afinal de contas era a primeira vez que teríamos uma entrevista ao P.R., em directo, com perguntas directas, abertas a todos os jornalistas, credenciados a nível nacional e internacional.

Tal como a nossa sociedade já nos habituou, verificamos após a mesma entrevista posicionamentos “radicais”, principalmente nas redes sociais (onde todos agora são analistas e comentadores de todos assuntos, até do satélite angolano (!) mas deixemos esse assunto para outra ocasião). Neste texto pretendemos abordar do ponto de vista ontológico (aquilo que é ou foi) a entrevista colectiva do P.R.

Vamos analisar três aspectos: o P.R., a entrevista, e os jornalistas.

Atentemo-nos aos factos:

O P.R.: João Lourenço, presidente da República de Angola, como sabemos foi candidato e vencedor das eleições passadas, de 23 de Agosto, pelo seu partido - MPLA. Naturalmente mereceu a confiança do partido e, o comunicado da última reunião do bureau político do MPLA reafirmou o apoio ao seu candidato. Como é natural, nesta entrevista seria impensável que o P.R., apesar de algumas perguntas relacionadas, anunciasse uma “espécie” de “colisão” ou “ruptura” com o seu partido ou o presidente do seu partido.

O P.R. tem sido implacável quanto à reformulação do Executivo. Fez mais de 200 exonerações e nomeou tantos outros cargos. Tudo na perspectiva de implementar os princípios elencados no programa eleitoral do seu partido, tais como transparência, imparcialidade e combate à corrupção. Em função da sua actuação, o P.R. ganhou bastante notoriedade e aceitação a nível nacional e internacional, apesar de passarem apenas 100 dias desde o inicio de seu mandato e as mudanças ainda não se reflectirem directamente no modo de vida dos angolanos. Porém, conforme dizem os americanos, “step by step”.

A entrevista: podemos afirmar que a entrevista, ao contrário da “fenomenologia” que algumas pessoas pretendam atribuir, que se compreende devido à atmosfera política criada no antigo “reich”, enquadra-se no âmbito da democracia participativa, como define bem a Constituição da República de Angola (CRA) no seu artigo 2: “A República de Angola é um Estado democrático de direito que tem como fundamentos a soberania popular (…) e democracia representativa e participativa”. Bem como o artigo 40 da CRA: “Todos têm o direito… de se informar e de ser informado, sem impedimentos nem discriminações”. Dito doutro modo, a entrevista colectiva, com perguntas directas ao titular do poder executivo “não é um milagre”. É uma prática natural, corrente e própria dos Estados de direito-democrático-constitucional. Todavia saúda-se a iniciativa do P.R., sem pressão, por iniciativa própria em promover a sua primeira, de muitas, entrevistas colectivas.

De uma forma geral, a entrevista, diferente da conferência de imprensa, é uma sessão onde se abordam variados assuntos, em função das perguntas dos jornalistas e da disponibilidade do actor de responder ou não. Talvez emerja dai a “frustração” de muitos que não viram seus “desejos” consumados. Durante a entrevista, o P.R. foi claro e simples em alguns assuntos tais como: o fundamento das exonerações, a questão do combate à corrupção, a austeridade versus desemprego e a diversificação da economia. Marcou o posicionamento do Executivo quanto ao caso “Manuel Vicente”. Foi evasivo quanto a perguntas sobre o 27 de Maio, a província da Huíla e outros assuntos.

Os jornalistas: ao contrário do que se diz, principalmente nas redes sociais, sobre os jornalistas, pondo em “causa” a credibilidade dos mesmos, sou de opinião contrária. Participaram jornalistas pertencentes a órgãos de comunicação social nacionais e estrangeiros com reputação granjeada. Todavia, os jornalistas angolanos, principalmente dos órgãos privados, são uma espécie de “antigo combatente versus veteranos da pátria”. Basta ouvir o testemunho do jornalista da Huíla, que viajou pelos seus próprios meios. É contundente que a maior parte das inquietações não foram colocadas ou respondidas tal como desejávamos. Porém, não podíamos esperar que a situação do país fosse retratada em 24 perguntas.

Penso que em grande medida os jornalistas estiveram bem, de uma forma ou de outra. Numa entrevista colectiva, o P.R. apenas responde a questões gerais, de forma política, devido à variedade da natureza das perguntas colocadas.

O legado

A iniciativa do P.R. marca uma nova era na relação entre o mesmo e os cidadãos, representados neste fórum naturalmente pela comunicação social, que é o veículo de transmissão de informação entre ambos.

O P.R. afirmou: “O principal escrutinador é o povo”. A entrevista deixa uma árdua missão aos auxiliares do titular do poder executivo. Doravante, há que prestar contas públicas, sem descriminação, através dos órgãos de comunicação social.

Bem haja Angola,

Bem haja o P.R.

Salaam aleikum

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