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Política

Do internacionalismo proletário à globalização: histórias de chineses e cubanos em Angola

Como a sua avó, a cubana Sheila Borges Gonzalez também foi trabalhar para Angola, mas agora ao serviço de uma multinacional chinesa de telecomunicações e não em nome do internacionalismo proletário.

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"Angola é um país novo, em fase de grande desenvolvimento", diz Sheila Gonzalez, empregada da empresa Huawei em Luanda desde 2011.

Sheila Gonzalez, 29 anos, é formada em economia pela University of International Business and Economics (UIBE), uma conhecida escola superior da especialidade, situada em Pequim.

Numa entrevista à agência Lusa nas vésperas da visita do Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, Sheila conta que sempre trabalhou na área das telecomunicações, primeiro em Cuba e depois em Angola.

O seu colega Wang Teng, 33 anos, formado em administração, também trabalhava em Cuba antes de a Huawei o contratar para Angola, em 2011. "No início foi difícil, mas depois acostumei-me", diz. "Angola é um país de oportunidades e já criou muitos milionários".

O nome angolano de Wang Teng traduz a sua integração no país: "Kilamba Kiaxi", o pseudónimo adoptado pelo primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto, durante a luta pela independência nacional.

Aquele técnico chinês diz que já se "acostumou" também a gastronomia local, mas normalmente come na cantina da sua empresa, dirigida por um ‘chef' chinês.

Líder mundial de equipamentos e redes de telecomunicações, fundada em 1988 no sul da China, a Huawei emprega cerca de 170 mil pessoas em mais de 150 países e regiões, duzentas das quais em Angola.

"Luanda é uma cidade muito internacional. Americanos, europeus, chineses - todo o mundo está agora em Angola", afirma Wang Teng.

A comunidade chinesa, estimada em cerca de 250 mil, é uma das maiores e segundo uma técnica angolana de passagem por Pequim, Angola "tem já uma geração de meninos morenos com olhos rasgados", filhos de casamentos mistos.

"Depois de ficarem algum tempo, os chineses concluem que Angola não é só petróleo e começam a investir também na agricultura, que veem como uma nova oportunidade", comentou a técnica, que pediu para não ser identificada.

Entre os cubanos, sobretudo médicos e professores, "alguns também acabam por constituir família em Angola".

Segundo Sheila Gonzalez, "o clima é parecido" e quem fala espanhol "apanha depressa o português". No seu caso, há ainda uma história familiar "muito forte" ligada a Angola.

Após a independência do país africano, em Novembro de 1975, e até ao final de década de 1980, milhares de soldados cubanos lutaram ao lado das tropas do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) contra a África do Sul e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA). "A minha avó trabalhou como enfermeira em Angola", contou Sheila Gonzalez.

Nessa altura, o mundo estava dividido em dois blocos antagónicos, liderados pelos Estados Unidos e pela União Soviética, e a China, que no auge do diferendo ideológico com Moscovo, chegou a apoiar a UNITA, ainda não era o que é hoje: a segunda economia do planeta.