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Defesa

A companhia dos tanques da guerra abandonados

A guerra civil terminou há mais de 13 anos, mas ainda permanecem por todo o país recordações do conflito, como tanques e outros blindados, abandonados, que servem para divertimento das crianças e até dão nome a bairros.

Bruno Abarca:

Cem quilómetros para o interior de Luanda, no Cuanza Norte, três crianças com menos de cinco anos brincam num carro de combate abandonado, praticamente transformado num parque de diversões infantil. Mexem nas peças, penduram-se no canhão ou saltam das lagartas como se de um baloiço se tratasse.

Durante a guerra civil de quase três décadas que se seguiu à independência, opondo forças do Governo, liderado pelo Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), e da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), este tanque, como dezenas de outros, ficou para trás.

António Miguel tem hoje 22 anos e habituou-se a viver com o tanque junto à casa, o mesmo onde brincava em criança – e onde ainda hoje se diverte à falta de outras distracções - com os amigos. “Mexia nas teclas”, conta à Lusa, ainda envergonhado, mas sem receios da presença do tanque, que descreve como “divertido”, mas desconhecendo o seu real estado de armamento.

O bairro de António, com poucas dezenas de casas construídas artesanalmente com adobe, madeira, plásticos e chapas metálicas, foi crescendo ao longo dos anos em torno do tanque e dele recebeu o nome.

Ao longo dos cerca de mil quilómetros da estrada que liga Luanda a Lunda Sul, no interior, palco de intensos combates e emboscadas durante a guerra civil, até 2002, multiplicam-se os blindados abandonados, entregues à destruição natural do tempo.

Alberto Domingos, de 63 anos, trabalhou no Caminho de Ferro de Luanda e com o fim da guerra instalou-se no bairro do tanque. Deixou a capital há nove anos e agora cultiva mandioca para a subsistência dos seis filhos e da mulher num bairro que não tem electricidade ou água, mas que está “defendido” por um blindado.

Quando chegou o tanque já lá estava e por ali permaneceu até hoje, sem criar qualquer incómodo, sendo mesmo uma companhia para os moradores.

“Uma vez já o vinham buscar, mas não conseguiram puxar e ficou sempre aqui. Ficamos assim”, remata Alberto, enquanto aponta para o tanque como uma peça de mobília esquecida.

Os 27 anos de guerra civil em Angola (1975 a 2012) provocaram mais de 500 mil mortos e para cima de um milhão de deslocados, arrasando casas, caminhos-de-ferro, estradas e pontes, além de arruinar empreendimentos económicos, instituições religiosas e a administração pública.

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