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Resort Uhenha: a “glória” do turismo em Saurimo

Localizado em Saurimo, o Resort Uhenha é uma das principais unidades hoteleiras na cidade diamante. Construído no meio do bosque, proporciona aos turistas uma combinação entre o tradicional - inspirado no modo de vida do povo Lunda-Cokwe - e o conceito de hotelaria internacional.

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A maior parte dos turistas, nacionais ou estrangeiros, quando fazem planos turísticos ou contam passear durante o fim-de-semana, pensam de imediato nas províncias do litoral sul (Benguela, Lubango e Namibe). A falta de condições de hospedagem e de um serviço de qualidade nas restantes províncias do país é tido como o principal motivo.

No entanto, é sempre positivo tentar descobrir outras paragens de Angola. Quer sejam destinos longínquos ainda não explorados pelo turismo massificado, quer seja para passear durante um fim-de-semana em locais não habituais.

Ao aperceber-se desta realidade, Miguel da Silva, um empresário da província da Lunda-Sul, decidiu construir o resort Uhenha (que significa 'glória' na língua Cokwe), um pequeno complexo hoteleiro, situado no Bosque Alto, a noroeste de Saurimo, que mistura o design tradicional inspirado no modo de vida do povo Lunda- Cokwe e qualidade de serviço moderno.

O local - que antes era um matagal frequentado por meliantes - transformou-se numas das maiores referências hoteleiras, ao ser construído na reserva florestal da zona do Tchicumina. Apesar de pouco conhecido pela maioria da população da região, o espaço é muito frequentado por membros do governo, empresários e altos quadros do sector diamantífero.

A estrutura começou a ser pensada em 2012 e, apenas três anos mais tarde, teve o início a construção que terminou em 2018, ano em que foi inaugurado. "Tivemos muitas dificuldades em encontrar um arquitecto que pudesse conceber a ideia que tivemos para esse projecto, e foi por isso, que esta estrutura demorou seis anos a ser erguida", conta Miguel Silva, o promotor do espaço.

Para se ter uma ideia, o espaço é uma combinação entre o tradicional e o convencional, em que a parte exterior simula uma sanzala, embora modernizada e organizada com vias de acesso, passeios, cascatas artificiais, estátuas de betão, candeeiros e casas pintadas. Projectado para duas fases, neste momento, a primeira conta com 22 unidades entre casas com quartos suites, quartos médios e quartos normais. Para a segunda fase, já em construção, nascerão mais 20 unidades, perfazendo 42 unidades no total.

Inspirado nos rios da província

Miguel da Silva, conta que a ideia de criar um resort inspirado na tradição do Povo Lunda-Chokwe surgiu no tempo em que trabalhava para as Nações Unidas, ainda nos anos 90, quando lhe foi incumbida a missão de levar uma delegação norueguesa de Luanda até a província da Lunda-Sul.

"Depois de passarmos o rio Cuango (Lunda-Norte), disseram-me que nunca tinham visto no seu percurso pelo mundo, tantos rios sucessivos por quilómetro linear. E, perguntaram-me qual era a maior riqueza desta terra? Eu respondi que eram os diamantes, e eles disseram que não. A maior riqueza são os recursos hídricos", lembra o empresário.

Miguel da Silva, mais conhecido no seio empresarial por Ipupu, conta, foi assim que, quando começou a construir o Resort Uhenha, decidiu atribuir os nomes dos rios da província a cada quarto do complexo. Por exemplo, detalha, os rios de maior caudal, nomeadamente o rio Kassai, Tchiumbe, Luangue, o rio Luatchimo e Chicapa, representam as suites 'vips'. Os rios de médio caudal, nomeadamente, o rio Luvu, Peso, Luavur e Kuilo, representam quartos de casal e os rios de menor caudal representam os quartos de solteiro: rios Tchicumina, Mongo e Nhama, todos eles circundantes à cidade de Saurimo.

As casotas do hotel estão equipadas com uma chaleira e, cada quarto está equipado com ar condicionado, uma televisão de ecrã plano, frigobar, mobílias rústicas e artigos de decoração inspirados nos utensílios usados nas zonas rurais daquela região. Existe um serviço de pequeno-almoço continental servido na propriedade.

O conceito de jardinagem, o sistema de reboque e o paisagismo foi todo concebido pelos colaboradores do Resort Uhenha, pois, segundo conta, havia muitas dificuldades em convencer os arquitectos tanto na construção, como na parte da decoração.

Além disso, os quartos incluem uma casa de banho privativa: "Para além de ser uma instância hoteleira, é, acima tudo, uma instância turística que representa a cultura cokwe, tradição, vida, língua e riqueza, e queremos que toda pessoa que passe por cá (Saurimo), nos venha visitar para ver aquilo que oferecemos nesta combinação natureza versus habitação", sublinha.

"O conceito é tudo diferente e os quartos diferem um do outro na forma da decoração e na forma da construção e tivemos que ser nós a fazer várias aritméticas para conseguir conciliar aquilo que aparece na perfeição para encaixar aqui", diz Miguel, revelando que com a ajuda da esposa conseguiu adequar a decoração ao conceito que quis para o espaço, onde se pode ver uma combinação entre madeira, o junco e o bambu.

Outro segredo no Resort Uhenha é a gastronomia local, que é servida nos principais pratos. Exemplos disso são a carne grelhada local, a famosa "cabra do mato", a "galinha caseira" grelhada ou em cabidela. Mas não é tudo. Há também os sumos locais feitos com frutos silvestres como a Ginguenga, o Maboque e o sumo do Bambu. "É preciso que as pessoas investiguem este sumo porque é espectacular e também serve para fazer chá", aconselha o responsável.

Na vertente cultural, a tradicional Tchianda (a dança mais popular da região das Lundas) é o que domina, com apresentação de vários grupos de dança aos fins-de-semana. "Como sabem, as lundas representam uma profundidade cultural muito ampla, por isso, aos fins-de-semana, temos aqui grupos que desfilam aquilo que é a razão da nossa maneira de viver".

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