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Médicos marcham em memória ao colega que morreu em esquadra policial

O Sindicato Nacional dos Médicos de Angola (SINMEA) marcou, para Sábado, uma marcha que vai encerrar um período de sete dias de luto, iniciado esta Segunda-feira, sobre a morte de um médico numa esquadra de polícia, em Luanda.

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Em causa está a morte do médico Sílvio Dala, do Hospital Pediátrico David Bernardino, em circunstâncias ainda por esclarecer, quando foi conduzido a uma esquadra pela polícia, por alegadamente não usar máscara facial na via pública.

Num comunicado de imprensa, o SINMEA apela a todos os médicos nacionais e estrangeiros que exercem em unidades hospitalares públicas ou privadas em Luanda, bem como aos que ocupam cargos de chefia e colegas reformados a observarem o luto e a participarem na marcha.

"Vamos resgatar a dignidade do médico, que há muito se perdeu. Vamos observar um período de sete dias de luto nacional, durante este período todos devem colocar nas suas batas ou nas roupas um fumo preto ou vestir de preto, se possível com uma máscara preta", exortou o sindicato.

A marcha está marcada para o próximo Sábado, às 12h30, com concentração na paragem de autocarros na Mutamba, de onde partirão em silêncio até à sede da Ordem dos Médicos de Angola.

"Todos vestidos de uma camisola preta com dizeres 'Eu sou o Dr. Dala', uma máscara preta escrita 'Eu sou o Dr. Dala' e com uma bata branca com vários borrões a vermelho, simbolizando o sangue derramado pelo malogrado na maldita esquadra", informa-se na nota.

No ponto de chegada, os médicos deverão depositar as batas e máscaras, para manifestarem o descontentamento da classe.

Por fim, o sindicato propõe ao governo da província do Cuanza Norte, que o hospital onde o falecido médico foi director clínico seja chamado Hospital Materno Infantil Dr. Sílvio Dala.

O Ministério da Saúde apelou à calma da comunidade médica e expressou a sua "mais profunda consternação" pela morte do médico, director clínico do hospital materno-infantil de Ndalatando, destacado em missão de formação no Hospital Pediátrico David Bernardino, em Luanda, na noite do dia 1 de Setembro, "quando se encontrava sob custódia policial, em circunstâncias ainda não completamente esclarecidas".

O secretário de Estado para a Saúde Pública, Franco Mufinda, referiu que se juntou a outras instituições do executivo, nomeadamente a Procuradoria-Geral da República e o Ministério do Interior, que instauraram um processo-crime para esclarecer as circunstâncias reais em que ocorreu a morte, assim como a respectiva responsabilização.

Franco Mufinda frisou que o Ministério da Saúde "reitera o seu firme compromisso para a com a vida e integridade física, psicológica e moral dos médicos e de todos os profissionais de saúde, especialmente neste tempo particularmente desafiante, em que eles são de facto a linha da frente no combate à covid-19", realçou.

"O Ministério da Saúde apela à comunidade médica e a todos os actores do sistema de saúde a calma e a serenidade e não desmotivar na nobre missão de salvar vidas, a qual estamos obrigados pelo juramento de Hipócrates", disse.

Por seu lado, o Ministério do Interior confirmou a morte do médico, que foi conduzido pela polícia a uma esquadra, em Luanda, por supostamente circular na via pública sem máscara facial, obrigatória, devido à covid-19.

No documento refere-se que após dirigir-se à esquadra dos Catotes, no Rocha Pinto, foi explicado ao médico os moldes de pagamento da coima e não tendo um terminal de multibanco nos arredores, telefonou a um familiar próximo para proceder ao pagamento.

Na nota adianta-se que o médico "minutos depois, apresentou sinais de fadiga e começou a desfalecer, tendo uma queda aparatosa, o que provocou ferimentos ligeiros na região da cabeça".

"Devido ao seu estado grave, foi socorrido ao Hospital do Prenda e no trajecto acabou por perecer", sublinha o ministério, frisando que o Serviço de Investigação Criminal interveio, removendo o corpo para a morgue do Hospital Josina Machel.

De acordo com as autoridades, a família do falecido confirmou que o médico sofria de hipertensão, porém, por imperativos legais, será efectuada autópsia ao cadáver para que se determine a causa da morte.

Entretanto, o Sindicato Nacional dos Médicos de Angola contraria a versão da polícia, adiantando que depois da queda o médico foi alegadamente mantido na cela e horas depois foi encontrado morto.

"Só assim que entenderam levar o malogrado para o Hospital do Prenda, onde apenas foi confirmado, na viatura da polícia, a sua paragem cardiorrespiratória irreversível", refere o sindicato.

Um grupo de colegas do Hospital Pediátrico David Bernardino, onde trabalhava o falecido, deslocou-se à morgue para ver o corpo e referiu que "o colega apresentava uma ferida incisiva, tipo corte na região occipital", presumindo-se que tenha "sido submetido a pancadaria e duros golpes que resultou naquela ferida e abundante sangramento", segundo o sindicato.

Entretanto, fonte do Ministério do Interior avançou que a autópsia concluiu que o médico não foi alvo de qualquer agressão.

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