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Plataforma 27 de Maio reclama resgate da memória dos acontecimentos desta data no país

A Plataforma 27 de Maio lembrou este Domingo a necessidade de resgatar a memória dos acontecimentos de Maio de 1977, data que marca uma tentativa de golpe de Estado em Angola, e de procurar "a verdade, justiça e reconciliação".

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O comunicado da Plataforma 27 de Maio, a que a agência Lusa teve acesso, refere que a posição é emitida por este Domingo se ter assinalado o Dia Internacional das Vítimas de Desaparecimentos Forçados, declarado pelas Nações Unidas, com o objectivo de lembrar as suas vítimas, salientando que esta prática "é um crime contra a humanidade e que não prescreve".

A nota sublinha que se assinalam 43 anos desde o início de um processo de repressão política, que culminou na morte de milhares de angolanos e angolanas, incluindo alguns portugueses e portuguesas, que "segundo número da Amnistia Internacional cerca de 30.000 no total", os quais deram um contributo singular na luta de libertação nacional de Angola e/ou no subsequente período de reconstrução nacional.

De acordo com a plataforma, a fractura social resultante desta repressão perdura no país, dado que continua desconhecido até hoje o paradeiro de milhares de membros do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).

"Neste dia, a Plataforma 27 de Maio vem assim relembrar a necessidade de se resgatar a memória dos acontecimentos de Maio de 1977 em Angola, e de procurar a verdade, justiça e reconciliação relativamente a um dos períodos mais traumáticos da história do país, fomentando a discussão sobre o assunto a nível da opinião pública angolana e internacional", lê-se no documento.

Um conjunto de reivindicações foram apresentadas ao Governo, das quais a organização destaca, a elaboração de uma lista de pessoas desaparecidas, a localização, realização de testes de ADN e a devolução dos seus restos mortais às suas famílias e a busca da verdade relativamente aos crimes cometidos.

A identificação dos responsáveis, que não podem ser considerados "vítimas" com a alegação de que responderam a ordens, o respeito pelas recomendações da União Africana e de outras instâncias internacionais são também outras das reivindicações submetidas às autoridades.

A devolução da dignidade e o bom nome às vítimas destes acontecimentos, assim como às suas famílias, são os objectivos da organização.

"A Plataforma 27 de Maio pretende contribuir para o esclarecimento histórico dos acontecimentos em causa, que tiveram repercussões dramáticas na sociedade angolana contemporânea", sublinha o documento.

A organização defende que "é essencial o reconhecimento oficial dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977 como parte integrante da história de Angola contemporânea", bem como a "integração desta parte da história nos currículos escolares, sobretudo em Angola e em Portugal".

No ano passado, foi criada a Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos em Angola entre 11 de Novembro de 1975 e 4 de Abril de 2002, sendo a questão do 27 de Maio o principal "desafio", como admitiu, em Fevereiro passado, o ministro da Justiça e dos Direitos Humanos, Francisco Queiroz, o coordenador da comissão, no final de uma das reuniões do grupo.

"Porque o 27 de Maio gerou dois tipos de vítimas, as resultantes da tentativa de golpe de Estado - porque o 27 de Maio, na verdade, foi uma tentativa de golpe de Estado e gerou vítimas por parte das forças leais ao Governo na altura - e também gerou vítimas por parte da reacção à tentativa de golpe de Estado", destrinçou na altura o ministro.

Segundo Francisco Queiroz, a reacção à tentativa de golpe de Estado gerou mais vítimas do que da parte governamental, e o equilíbrio entre estes dois tipos de vítimas "é o grande desafio da comissão".

"Mas o facto de termos chegado a este ponto e de termos constatado que há estes dois lados, estes dois tipos de vítimas já é um grande avanço", considerou o governante.

A data de 27 de Maio está registada na história de Angola como a de uma alegada tentativa de golpe de Estado, numa operação aparentemente liderada por Nito Alves - que foi ministro do Interior entre a independência do país, a 11 de Novembro de 1975, e Outubro de 1976, reprimida pelo regime do então Presidente, António Agostinho Neto.

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