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Banca e Seguros

Banca tem de se consciencializar que não pode só fazer negócios com o Estado, admite economista

O economista angolano Fernandes Wanda considerou esta Terça-feira ser necessário dinamizar o sector produtivo com recurso ao crédito, afirmando que a banca comercial “não pode só fazer negócios com o Estado”.

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"Até hoje, a banca comercial ainda não se consciencializou que não pode fazer negócio só com o Estado, comprando títulos do Tesouro, isso não é possível, não é sustentável", disse à Lusa o investigador da School of Oriental and African Studies University of London.

Fernandes Wanda salientou que o "dinheiro do Estado, ou vem do petróleo ou vem dos impostos" e, se o sector não petrolífero não crescer, "as perspectivas não serão animadoras para Angola", pelo que a banca comercial deve apoiar o crédito para o sector produtivo, o que não tem acontecido.

O Programa de Apoio ao Crédito (PAC), que visa incentivar os bancos a apoiarem o sector produtivo, tem estado a ser direccionado para o comércio, destacou, indicando que no ano passado "o grosso do crédito" foi absorvido por este sector e não pela agricultura, pescas ou indústria transformadora.

"Então, se não estamos a produzir, se estamos a dar crédito para o comércio, de onde está a vir o produto que está a ser consumido, está a vir da importação", afirmou, sublinhando que é difícil defender as reservas [divisas] desta forma.

"O problema de Angola é que depende muito do contexto externo", frisou o académico.

Os cinco países que são o principal destino das exportações angolanas (China, que recebe 68 por cento do petróleo, Índia com 9 por cento, Portugal com 4 por cento e depois Espanha e Estados Unidos) estão ainda a lutar contra a pandemia de covid-19, o que não ajuda Angola.

"O contexto externo não é favorável", reconheceu Fernandes Wanda, notando que o Governo ser vê obrigado a reduzir os gastos públicos numa altura em que deveria aumentar o investimento para estimular a economia.

O Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM), um programa que permite o investimento em infra-estruturas, parece ter vindo "mesmo a calhar" e pode ser, segundo o economista, uma medida contracíclica desde que se monitorize a forma como o dinheiro é aplicado nos municípios.

"Desde que seja aplicado em medidas que permitam realizar actividades produtivas ou infra-estruturas sociais em que seja usada mão de obra local", defendeu.

Fernandes Wanda é também favorável a uma mudança de estratégia que não passa apenas pela política monetária de "enxugar a liquidez" para forçar a valorização do kwanza.

Segundo o académico, não vai reprimir a demanda, porque as pessoas continuam a precisar de bens e serviços que o país não produz e aí a crise pode agudizar-se, pode gerar instabilidade social".

"A minha recomendação [para o Governo] é chamar os bancos comerciais e mostrar que não é possível continuarem como até agora, a fazer dinheiro através do Estado, têm de apoiar o sector produtivo", reforçou.

"Com o preço do petróleo a baixar, o Estado está no seu limite, depende de impostos e onde pode ir buscá-los? Tem de ser no setor produtivo e este só pode ser estimulado, canalizando empréstimos para a agricultura, para as pescas, para a indústria, o que não está a acontecer", vincou o economista.