João Lourenço: “Roma e Pavia não se fizeram num dia”

O Presidente recorreu na Sexta-feira ao ditado "Roma e Pavia não se fizeram num dia", para admitir que o crescimento económico do país está "lento", garantindo que o impacto da política económico-financeira do Governo na população vai chegar.
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Numa entrevista conjunta de cerca de hora e meia ao semanário Novo Jornal e à Televisão Pública de Angola (TPA), transmitida na Sexta-feira à noite, João Lourenço afirmou que, apesar de o crescimento económico se revelar lento, o ritmo está "de acordo" com o contexto nacional e internacional.

"Roma e Pavia não se fizeram num dia. Estão a ser tomadas todas as medidas de acompanhamento da sociedade e já muito foi feito. É evidente que os problemas não estão todos resolvidos", declarou João Lourenço, empossado Presidente de Angola em Setembro de 2017.

Para o chefe de Estado, o ser humano é um "eterno insatisfeito" – “característica universal" - razão pela qual não se pode esperar que o impacto das medidas económicas do executivo possa começar a ser sentido pela população em cerca de um ano e oito meses.

"Já me disseram que sou um salvador [depois do fim dos 37 anos de regime do Presidente José Eduardo dos Santos - 1979/2017], mas não apanhei o país armadilhado [após se tornar chefe de Estado]. Encontrei dificuldades, mas não encontrei um país armadilhado" economicamente, referiu.

Entre as dificuldades figura a corrupção, disse, defendendo que se não tivesse encetado um programa de combate ao fenómeno, o país estaria "muito pior".

A este propósito, e quando questionado pelos jornalistas sobre os investimentos públicos de milhões de dólares que não tiveram qualquer retorno para Angola, João Lourenço destacou que o principal foco, para já, está centrado no "ataque aos grandes valores", destacando os vários casos que estão em investigação na Procuradoria-Geral da República (PGR).

Ainda na esfera judicial, o Presidente negou ter aliados de peso para poder levar por diante o combate à corrupção no país, observando que esses aliados são todos os angolanos que o querem ajudar a combater o fenómeno.

Sobre um alegado "tratamento diferenciado" da Justiça nos casos que estão aparentemente ligados a altas personalidades angolanas, João Lourenço foi evasivo, respondendo desconhecer "se estão livres", uma vez que há casos em investigação judicial: "Quando se está a ser investigado [pela Justiça] não se é livre".

Na entrevista, João Lourenço realçou, por outro lado, a aposta do Governo na agricultura, para apoiar a diversificação económica do país - 95 por cento das exportações são de petróleo - a construção e reconstrução de escolas, hospitais, centros de saúde e estradas, optando sempre por valorizar o que está a ser feito, embora admitindo que muito está ainda por fazer.

O chefe de Estado referiu também que o Governo tem estado a criar condições para uma maior participação do sector privado na vida económica do país, desdramatizando as dificuldades e lembrando que o Deutsche Bank abriu recentemente uma linha de crédito de 1000 milhões de dólares para apoiar os empresários.

"Organizem-se e recorram à linha de crédito", afirmou, quando questionado sobre as dificuldades que os empresários têm na obtenção de crédito bancário, sobretudo os custos financeiros daí decorrentes.

Em relação à falta de água e de energia eléctrica em grande parte do país, João Lourenço, sempre com respostas curtas, indicou que são duas das outras dificuldades que estão a ser resolvidas paulatinamente.

Na esfera petrolífera, João Lourenço reiterou a aposta do Governo na construção de duas refinarias - Lobito (Benguela) e Cabinda - o que vai permitir diminuir as importações de petróleo e minimizar a "inaceitável situação" de um país que é o segundo maior produtor de crude na África Subsariana "não ter combustível em condições".

Em relação aos subsídios aos combustíveis, que têm permitido uma estabilidade dos preços há mais de dois anos, João Lourenço considerou que a exigência de lhes pôr fim, tal como defende o Fundo Monetário Internacional, vai ser alvo de análise.

"Os subsídios devem ir no sentido de serem alterados de forma razoável", declarou, sem se alongar, lembrando que os preços em Angola estão muito abaixo dos que se praticam noutros países, sem especificar se africanos ou não.

Em relação à implementação do Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA), inicialmente previsto para entrar em vigor a 1 de Janeiro deste ano, adiado, depois, para 1 de Julho e, mais tarde, para 1 de Outubro, João Lourenço assumiu que o executivo estava errado e que "ouviu" as razões do empresariado angolano.

"Onde falhamos? Não é uma falha. Às vezes há males que vêm por bem. Fomos humildes ao ouvirmos o empresariado. Ouvimos e concluímos que eles tinham razão. Agora ainda há tempo para todos se prepararem melhor", respondeu.

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