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A covid-19 e um bairro confinado em Luanda onde ninguém entra ou sai

As ruas habitualmente movimentadas do bairro da UGP, no Futungo de Belas, arredores de Luanda, estavam esta Quinta-feira quase desertas. Por causa de cinco casos de contágio local de covid-19, há seis dias que não se entra ou sai.

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As quatro entradas do sector das Casas Brancas, no bairro da UGP estão fechadas: uma com pinos, outra com troncos de árvore, outra mais à frente com um blindado do exército. A presença policial não é massiva, mas a mediatização do risco sanitário na zona parece ser suficiente para afastar as pessoas no local.

Do lado de lá do cordão sanitário, também não há praticamente moradores à vista.

Foi nesta área, agora considerada de alto risco, que foram identificados vários contactos do chamado paciente n.º 26, um angolano que regressou de Lisboa a 18 de Março e que as autoridades sanitárias associam ao primeiro caso de transmissão local no país.

A sua deslocação nos bairros do Futungo de Belas (Talatona) e do Cassenda (Maianga), implicou a imposição de um cordão sanitário que obrigou a confinar quase 200 famílias.

Alguns moradores contactados pela Lusa queixam-se de ter sido apanhados desprevenidos e da falta de apoio do Governo.

“Isto aconteceu sem pré-aviso. [No Domingo] Eu ia deitar fora o lixo e mandaram-me voltar para trás”, contou um residente que pediu para não ser identificado, lamentando a falta de água e dizendo que já está a racionar os alimentos que ainda lhe sobram em casa.

Também sob a condição de anonimato, uma moradora revelou-se igualmente preocupada com a escassez de água.

“Tive de pedir à minha irmã que trouxesse água”, disse, enquanto carregava várias garrafas de água mineral num carrinho de mão para abastecer o seu agregado familiar de seis pessoas

“Não temos tido nenhum apoio do Governo”, reclamou a mulher.

Um pouco à frente, um jovem regressava também ao bairro carregando pesados garrafões.

Como não podem sair para fazer compras, a solução é recorrer à ajuda de familiares ou amigos que levam as encomendas de carro e as deixam fora do cordão sanitário para que os moradores as venham recolher, constatou a Lusa no local.

“Queremos saber quando é que vão resolver o nosso problema. Podiam deixar sair para comprar só o necessário”, lamentou outra habitante.

Apesar de haver algumas cantinas (pequenas mercearias) no bairro, muitos moradores preferem recorrer à ajuda exterior.

“Muitas famílias não querem comprar lá dentro, então nós aconselhámos que se tiverem familiares que possam comprar o que eles querem que pedissem para trazer até à cerca e comunicassem por telefone para vir buscar”, adiantou a coordenadora de resposta rápida à covid-19, Rosa Moreira.

A responsável explicou que as lojas dentro do bairro continuam abertas para dar a possibilidade de as pessoas adquirirem os seus bens, mas foram dadas recomendações no sentido de evitar aglomerações “e só ir uma pessoa por família” às compras.

Além disso, as cisternas de água “continuam a entrar para abastecer as famílias”, além das orientações para assegurar a distribuição de cestas básicas a famílias sem meios de subsistência.

Rosa Moreira negou também que os moradores não tenham sido avisados, sublinhando que desde o início as equipas têm trabalhado com a população.

“Eles foram informados de que havia um caso, que foi retirado da comunidade, e que todos teriam de aumentar as suas precauções e medidas de prevenção. Foram acompanhados desde o anúncio do primeiro caso que saiu de lá e quando foram anunciados os outros contágios - praticamente a família toda deu positivo - no Sábado, trabalhou-se naquela área com as pessoas que tiveram um contacto mais directo”, indicou.

Outra pessoa ouvida pela Lusa, que pediu para não ser identificada, criticou que “ninguém pode sair para lado nenhum”, acrescentando que não foi autorizada a levar a filha, que sofre de alergias, ao hospital.

Rosa Moreira garantiu, no entanto, que as autoridades sanitárias estão preparadas para prestar os cuidados de saúde necessários, mantendo no local duas ambulâncias.

“Tem um enfermeiro permanente e, se for necessário levar para o hospital, isso está assegurado”, garantiu.

Na área do Futungo são cerca de 120 as famílias confinadas, enquanto no Cassenda outras 40 estão sujeitas ao cordão sanitário.

“Fizemos toda uma avaliação que justificou fazer um cordão sanitário, depois de definirmos um perímetro onde poderia ter havido transmissão local”, frisou Rosa Moreira.

A coordenadora salientou que o Ministério da Saúde está a tentar garantir que todos sejam testados em 10 dias “para que, no 14.º, haja resultados e se possa tomar a decisão”.

O cordão sanitário, avisou, só será levantado “com resultados negativos”.

Rosa Moreira disse compreender a frustração das pessoas face a uma decisão que condiciona a sua liberdade, mas apelou à população para que siga as recomendações.

“As pessoas reagem de maneiras diferentes, umas estão mais sensibilizadas, outras querem sair porque tem os seus compromissos, mas nós pedimos à população que trabalhe connosco nisto porque são medidas para a proteção de todos, para o bem da população e das suas famílias”, sublinhou.