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Economia

"Será bastante difícil" Angola sair da recessão económica este ano, alerta consultora

O economista chefe da consultora Eaglestone considerou esta Segunda-feira à Lusa que "será bastante difícil" Angola conseguir terminar este ano com um crescimento económico positivo devido à descida dos preços do petróleo e à pandemia de covid-19.

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"Assumindo que preço do crude se mantém deprimido nos próximos tempos e tendo em conta a conjuntura económica internacional, que aponta para uma provável recessão mundial em 2020, será bastante difícil para Angola sair da actual recessão em que se encontra", disse Tiago Dionísio em declarações à Lusa, no dia em que a consultora enviou aos clientes uma análise sobre o impacto da queda dos preços do petróleo no país.

A consultora Eaglestone prevê que a descida do preço do petróleo vai originar uma quebra de 5,6 mil milhões de dólares no orçamento de Angola, equivalente a 7,4 por cento do PIB, levando a um orçamento retificativo.

"Os nossos cálculos mostram que as receitas poderão ficar 35 por cento abaixo da meta prevista para este ano caso o preço médio do crude seja de 25 dólares, e não os 55 dólares por barril previstos no orçamento, o que representa uma quebra na receita de 5,6 mil milhões de dólares, ou 7,4 por cento do PIB previsto para este ano", lê-se na nota de análise ao impacto da descida do preço do petróleo nas finanças de Angola.

Na análise, o economista-chefe da Eaglestone escreve que "os últimos dados mostram que o sector petrolífero representou mais de 96 por cento das exportações do país, dois terços dos quais vão para a China, e 60 por cento das receitas públicas no ano passado", o que significa que, "caso se venha a prolongar, este nível de preços bastante mais reduzido poderá ter fortes repercussões nas receitas públicas e na economia angolana".

Para Tiago Dionísio, "a actual conjuntura com preços do petróleo mais baixos deverá levar o governo a apresentar um orçamento retificativo para 2020, onde possivelmente irá incluir uma forte redução (e/ou repriorização) da despesa pública", podendo igualmente "acelerar os esforços de obter mais receitas do sector não petrolífero, anunciar novos financiamentos junto de instituições multilaterais e/ou emitir dívida nos mercados internacionais".

De acordo com o documento, o cenário mais provável é um misto destas medidas "tendo em conta que um corte agressivo na despesa iria prejudicar a atividade económica, que já se encontra muito fragilizada, enquanto recorrer maioritariamente à emissão de dívida iria pôr mais pressão no já elevado nível de dívida pública, cerca de 100 por cento do PIB".

O aumento das taxas de juro exigidas pelos investidores, que subiram significativamente nas últimas semanas, deverá fazer o Governo "aguardar até que as condições nos mercados financeiros", mas isto "coloca mais pressão nos países dependentes do petróleo como Angola".

Assim, conclui, "os próximos passos das autoridades angolanas serão cruciais, nomeadamente em termos de dar um sinal forte ao mercado do seu compromisso de consolidação das finanças públicas, mesmo no atual contexto mais difícil, mas Angola também vai precisar de ajuda de instituições como o FMI, já que o risco de enfrentar problemas no pagamento da dívida é agora maior do que era anteriormente".

Nas previsões desta consultora é assumida uma desvalorização de 30 por cento do kwanza face aos níveis de 2019, para 540 kwanzas por dólar, e uma taxa de imposto de 35,6 por cento.

"Se o preço médio do crude atingir os 25 dólares norte-americanos este ano, então as receitas totais ficariam 35,3 por cento abaixo da estimativa atual incluída no orçamento; isto significa também que o défice orçamental atingiria os 6,0 por cento do PIB este ano em vez da atual projeção de um superávite de 1,2 por cento do PIB", conclui o economista-chefe desta consultora.