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Defesa

Guerra colonial: Investigador defende importância de abrir arquivos para preservar memória

O investigador António Costa Pinto defendeu, em entrevista à Lusa, a importância da desclassificação de documentação classificada como secreta, tanto para a comunidade científica como para a opinião pública, no âmbito da preservação da memória.

: Lusa
Lusa  

"É a abertura desses arquivos que vai dar às sociedades contemporâneas a memória do que foi, no caso português, a guerra colonial", disse quando questionado sobre a importância da desclassificação de material secreto por parte das instituições do Estado, em particular relativo ao período da guerra colonial, passados 45 anos sobre o fim do conflito.

As democracias europeias têm políticas "muito variáveis" a este respeito, declarou.

A questão se fará, ainda, sentido manter documentação daquele período classificada como secreta, o politólogo respondeu: "no caso das guerras coloniais portuguesas, convém não esquecer que a polícia política [PIDE] e, inclusivamente, as agências diplomáticas portuguesas tinham um nível bastante razoável de penetração nos movimentos de libertação".

"Muitos dos seus informadores estavam no quadro desses movimentos de libertação e, às vezes, por razões de segurança, e de vingança política, é natural que documentos mais sensíveis não entrem directamente na esfera pública nos primeiros 30, 40 ou 50 anos, enquanto uma parte desses actores ainda estiverem vivos", comentou.

"Muitas vezes há material mais ou menos sensível que fica mais tempo [classificado], nomeadamente aquele que tem a ver com dinâmicas militares e sobretudo com operações de espionagem", acrescentou o investigador coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

Tanto em Angola como em Moçambique existiam movimentos de libertação diversos, muitas vezes em tensão e em luta entre si, o que Portugal aproveitou, acompanhando também de perto as movimentações independentistas e separatistas em países vizinhos como o Congo, no caso do território angolano, a Norte.

"As Forças Armadas Portuguesas e os Serviços de Informação penetram certos movimentos de libertação, inclusivamente entram no jogo de rivalidade entre eles, como é o caso da formação inicial da UNITA", exemplificou António Costa Pinto.

"É o caso também de dissidências no quadro do Congo, Tchombé, por exemplo, com a secessão de Catanga! É o caso inclusivamente das guerras do Biafra e da secessão do Biafra, onde o sistema colonial português entra directamente nessas tensões e noutros países limítrofes, justamente para tentar neutralizar o mais possível a sua utilização como base contra Portugal e, por isso, muita dessa documentação é relativamente sensível e é natural que nalguns casos demorasse algum tempo até ser dada a conhecer ao público, em geral", afirmou.

A Marinha anunciou no ano passado a desclassificação de um vasto lote de documentos, na sequência de um processo iniciado em 2017, com a primeira reunião da Comissão de Desclassificação criada na instituição por despacho do chefe do Estado-Maior da Armada, em 2011.