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Activistas pedem “respeito” ao “Mural da Cidadania” em Luanda após ser “vandalizado”

Jovens activistas e moradores, em Luanda, pediram esta Segunda-feira respeito ao “Mural da Cidadania”, município do Cazenga, onde estão retractadas diversas figuras da sociedade civil e defensores dos direitos humanos, recentemente vandalizada e que originou a manifestação de repúdio.

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O "Mural da Cidadania" que existe há mais de 10 anos, está localizado no bairro da Petrangol, ao lado de uma frondosa e enorme árvore conhecida como "Mulemba Waxa Ngola", e numa espécie de exposição a céu aberto estão retractados os rostos de sete figuras: o padre angolano Pio Wakussanga, vencedor do prémio de "Defensor dos Direitos Humanos 2018" da África Austral; a activista Cesaltina Cutaia; o activista já falecido Carbono Casimiro; José Patrocínio, fundador da Organização Não Governamental (ONG) Omunga; Mamã Gertrudes, defensora dos direitos da criança; o jornalista e activista Rafael Marques e o activista Inocêncio de Matos, morto na manifestação de 11 de Novembro de 2020.

O local, um antigo estacionamento de viaturas, é utilizado pelos jovens para actividades desportivas e de lazer e os rostos das referidas personalidades da sociedade civil angolana saltam à vista no muro em volta.

Segundo activistas, ouvidos esta Segunda-feira pela Lusa naquele local, há menos de uma semana que o muro havia sido vandalizado, alegadamente sob orientação das autoridades administrativas do município, o que gerou indignação.

Um grupo de jovens manifestou-se na passada Sexta-feira defronte à administração municipal do Cazenga em protesto contra a "vandalização do espaço" já que, segundo relatam, as pinturas ali patentes teriam sido "borradas com óleo queimado de viatura".

Pelo menos 11 manifestantes foram detidos pela polícia, na sequência do protesto, acusados de vandalismo e arruaça, e são presentes esta Segunda-feira em tribunal para julgamento sumário.

Para o activista Fernando Sakuaiela, que lamenta a "profanação" de que foi alvo aquele espaço, o "Mural da Cidadania" é um "espaço de afirmação cidadã" onde estão representadas figuras simbólicas e significativas para a história nacional.

"E que servem para nós como elementos de simbologia e de reavivamento da nossa luta, porque são aquelas com as quais conseguimos nos rever em termos de percurso e discurso, eis a razão que erguemos o Mural aqui na Mulemba", disse à Lusa.

O também coordenador do Projecto Agir, plataforma que reivindica a participação cidadã no espaço cívico, considerou igualmente "constrangedor" quando "pessoas investidas de poder do Estado" vandalizam o património.

"Isto terá motivado a necessidade dos cidadãos se manifestarem junto da administração do Cazenga para que o actual administrador reponha a normalidade devolvendo os bens por nós usados. Gastamos os nossos bens para grafitar a parede, é uma espécie de reposição dos danos morais", justificou.

"Porque a Mulemba é, para nós, um elemento de grande simbologia e o acto que teve a administração do Cazenga foi uma ofensa à democracia e à convivência", apontou.

O "Mural da Cidadania" está sob gestão da denominada "Universidade de Hip-Hop", espaço cívico de debates, e um dos gestores do espaço, há mais de 10 anos, Camilo António "Nation Macaveli" contou que controlam aquele espaço com o aval da administração.

"Somos activistas e aquela pessoa que sentimos que tem um grande feito na sociedade, nós achamos que temos que grafitar ou memorizá-la no "Mural da Cidadania", disse, lamentando a vandalização do espaço.

Para este activista, as figuras ali expostas desempenham um "papel preponderante e uma enorme influência" na sociedade angolana, "pela energia que transmitem". Por isso, realçou, estão aí representadas.

No local, apesar de a parede já ter sido limpa, ainda são visíveis restos de manchas pretas de óleo que fragilizam a pintura original.

Moradores do bairro da Mulemba, que também frequentam aquele espaço, visível para peões e automobilistas que circulam para estrada direita de Cacuaco, condenaram igualmente a vandalização do local pedindo "respeito e valorização".

"Quando chegamos aqui, encontrámos isso pintado de óleo e logo à data da apresentação do novo administrador do Cazenga. É algo mesmo estranho, isso é uma arte, não tinha de ser vandalizada", lamentou Sebastião Samuel.

Também António Costa, outro morador da zona da Mulemba, manifestou repúdio e tristeza pelo ataque de que foi alvo aquele monumento "porque os desenhos não representam perigos para a sociedade".

"Com esse acto de vandalismo, estamos triste e lamentamos", criticou.

A Lusa contactou a administração municipal do Cazenga, mas não obtivemos qualquer reacção.

O "Mural da Cidadania" está anexado ao espaço histórico denominado "Mulemba Waxa Ngola" (expressão em quimbundo que pode ser traduzida como a mulemba deixada pelo rei Ngola), uma alusão ao nome atribuído à árvore, que se transformou em culto popular, por ter sido plantada, reza a história, pelo rei da resistência contra os colonos portugueses, Ngola Kiluanji Kia Samba (século XVI).