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Exposição revela “memória frágil” de um passado africano desconhecido em Lisboa

Fotografias com retractos imaginados, inspirados nos modelos da pintura europeia dos séculos XVII e XVIII, vão revelar uma "memória frágil" de um "passado cultural desconhecido" de Lisboa numa exposição a inaugurar Sexta-feira em Lisboa.

: Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa
Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa  

"Boba Kana Muthu Wzela: Aqui é Proibido Falar!" é o título da nova exposição temporária do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa, que é inaugurada na Sexta-feira na Sala dos Passos Perdidos, onde ficará até 9 de Janeiro de 2022.

A exposição parte de um projecto do artista visual e investigador JRicardo Rodrigues, que utiliza a fotografia no campo da arte "como meio para revelar uma memória muito frágil da história, da relação com África", explicou à agência Lusa.

"Identifiquei alguns trabalhos de historiadores africanos que revelam facetas muito pouco conhecidas dos cidadãos portugueses relativamente a algumas figuras históricas, e a sua ligação com África, por exemplo o caso do Marquês de Pombal", indicou, sobre a investigação realizada nesta área.

Nascido em Angola, JRicardo Rodrigues diz ter tido sempre uma grande proximidade com os historiadores africanos, que lhe falaram da relação de Portugal com algumas figuras importantes da História, entre elas a do Marquês de Pombal, personalidade que "ainda divide a sociedade portuguesa de forma muito radical, porque, por um lado, representa o Iluminismo, e, por outro, o terrorismo de Estado".

Ao descobrir esta ligação do Marquês de Pombal com África, "foi possível começar a abrir portas para um outro campo que não está devidamente identificado, o Bairro do Mocambo, em Lisboa, palavra de origem angolana, bairro africano com origem no século XVI, provavelmente até anterior a esta data, até ganhar essa forma de bairro, e que desapareceu no século XIX".

O antigo bairro quinhentista do Mocambo, actual Madragoa, nas imediações do qual o MNAA veio a instalar-se no século XIX, é o foco do artista para um exercício de imaginação que propõe um outro olhar sobre a presença e heranças africanas em Portugal, mais particularmente em Lisboa.

Reunindo 11 obras das diferentes séries do projecto artístico "Revelar a Memória a partir do Esquecimento", que JRicardo Rodrigues iniciou em 2010 como ensaio visual sobre o século XVIII português, a exposição dialoga também com a tradição artística europeia presente nas salas do MNAA.

"É o desaparecimento desta identidade [do bairro africano] a que eu pretendo regressar através da fotografia", disse à Lusa o artista, comentando que "existem falhas de informação" sobre a História, e por isso, o seu trabalho "tentou imaginar o que poderia ter sido", se o bairro não tivesse desaparecido.

Em encenações fotográficas de grande formato, JRicardo Rodrigues reconfigura a memória a partir da ausência, cruzando o passado com a contemporaneidade, e questionando continuidades e contrastes.

"Cada um tirará as suas próprias conclusões, mas o ponto principal [deste trabalho] é que a nossa memória individual e colectiva é muito frágil", conclui.

O artista antevê que "será, com certeza, uma grande surpresa para muita gente, a partir da exposição e da informação que a complementa", com a programação paralela, que inclui conferências com historiadores, nomeadamente Carlos Mariano Manuel, autor da obra "Angola: Desde antes da sua Criação pelos Portugueses até ao Êxodo destes por nossa Criação", que terá lançamento oficial no Padrão dos Descobrimentos no dia 29 de Outubro.

A exposição aborda ainda as línguas faladas na altura, no bairro, que nele se expressavam com maior liberdade e eram mal vistas pelas autoridades: o umbundu, língua de origem do nome do bairro, e o kimbundu, usado no título da exposição.

Situado já fora da cerca fernandina, o bairro do Mocambo foi o local onde se instalou uma parte significativa da população africana da Lisboa quinhentista, embora hoje pouco reste dessa memória, desconhecida para grande parte dos lisboetas.

A própria toponímia do bairro, renomeado Madragoa no século XIX, já não apresenta vestígios dessa presença africana, que se foi tornando cada vez mais minoritária com as transformações da cidade e a maior fixação de outras populações, indica o MNAA.

As fotografias estão também em diálogo com a colecção do MNAA, inspiram-se nos modelos da pintura europeia dos séculos XVII e XVIII, que o artista reclama como referências.

Nascido em Angola, em 1964, JRicardo Rodrigues vive e trabalha no centro histórico de Lisboa, procura descobrir pela imagem os segredos da cidade e a alma dos seus protagonistas, e os seus projectos fundem a fotografia no desenho e na pintura apresentando uma abordagem radical, sempre na busca do Surrealismo.

Na programação paralela está prevista uma conferência, na Sexta-feira, pelas 17h00, no auditório do MNAA, intitulada "A criação da colónia de Angola e a Batalha de Ambuíla", pelo professor Carlos Mariano Manuel, com entrada livre.

Criado em 1884, o MNAA alberga a mais relevante colecção pública do país nas áreas de pintura, escultura, artes decorativas – portuguesas, europeias e da Expansão, desde a Idade Média até ao século XIX, incluindo o maior número de obras classificadas como 'tesouros nacionais', assim como a maior colecção de mobiliário português.

A exposição "Boba Kana Muthu Wzela: Aqui É Proibido Falar!" é inaugurada na Sexta-feira, às 18h30, no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.