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Cabo Ledo fora dos projectos do PIIM. Falta de água e electricidade deixa habitantes descontentes com decisão

Os habitantes da comuna de Cabo Ledo mostraram-se tristes com o facto de o Plano Integrado de Intervenção no Municípios (PIIM) não incluir a resolução de dois dos grandes problemas daquela comuna: a falta de água potável e de electricidade. Os residentes dizem ainda que o facto de terem ficado de fora dos projectos os fazem sentir-se excluídos da capital.

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Cabo Ledo fica a cerca de 120 quilómetros de Luanda, tem cerca de 2500 quilómetros quadrados de área e habitada por aproximadamente 12.800 pessoas. Conhecida por estar ligada à pesca e por ser uma atracção turística por causa das suas praias, a água chega à comuna através de um camião-cisterna. Já a electricidade chega apenas à sede da comuna através de um grupo gerador que funciona entre as 08h00 e as 23h00.

Em declarações ao Novo Jornal, os habitantes de Cabo Ledo disseram ter esperança que o PIIM viesse resolver os problemas de abastecimento de água e energia, mas ficaram surpresos e descontentes quando a comuna não foi incluída nos planos. "Ficámos todos surpresos e nem acreditámos que isso fosse verdade. Até ao momento nenhum popular aqui compreende isso. É uma falta de respeito o que o Executivo está a fazer com os munícipes da Quiçama, em particular nós, os de Cabo Ledo, que estamos muito próximos da Barra do Kwanza", disseram ao jornal Dias Júnior e Fernando Rufino, moradores daquela comuna há mais de 20 anos.

Também Jorge Francisco Tomé, morador no bairro do Sangano, mostrou-se preocupado com os problemas e a falta de soluções à vista. A Barra do Kwanza, que tem uma estação de energia que abastece Luanda, fica a cerca de 28 quilómetros da comuna, começou por dizer, explicando que o que falta para resolver os problemas de Cabo Ledo é "vontade política dos nossos dirigentes".

"Por isso é que os empresários não querem vir investir em Cabo Ledo, que é um grande ponto turístico de Luanda, e como consequência há um grande índice de jovens desempregados aqui", acrescentou.

José João, empreendedor naquela zona há cerca de 10 anos, concorda com a visão de Jorge Francisco Tomé. Ao Novo Jornal, o empreendedor frisou que estes problemas têm levado a que haja pouco interesse em apostar na região.

"Há mais perdas do que lucros, por isso Cabo Ledo está assim. Com poucas coisas para oferecer aos visitantes. Como é que os empresários vão investir numa zona que nem água e energia tem? É bonito, é, mas isso só não basta. Cabo Ledo é o melhor ponto turístico de Luanda e o Executivo deve pensar bem ao fazer as coisas", disse.

Já Adão Mateus, morador na zona da Praia Sede e pescador, afirmou que a água potável na comuna é como se fosse ouro. "A água potável é como ouro, ninguém a dá a desconhecidos para beber, por isso, é que um litro de água mineral é vendido nas cantinas a quase 1000 kwanzas", indicou.

Já a falta de electricidade tem levado a que alguns alimentos se estraguem, explica. "Vejo muito peixe a estragar-se por falta de energia. A solução é escalar e secar para não estragar. Aqui todos vivemos de geradores e a água é comprada nos tanques, cada banheira custa 100 a 150 kwanzas", revela.

Administração de Cabo Ledo reconhece problemas

A administradora da comuna, Ana Maria Cordeiro Alves, reconheceu os problemas de Cabo Ledo e, ao mesmo jornal, indicou que a administração ainda não tem um plano estabelecido para os colmatar.

"Sabemos que a nível do Executivo se fala da implementação de painéis solares, a longo prazo, infelizmente não temos ainda nada plausível", disse, acrescentando que a falta de financiamento levou a que o projecto fosse parado.

Sobre o abastecimento de água potável, a administradora admitiu que um único camião-cisterna para abastecer todos os habitantes de Cabo Ledo é insuficiente, mas é o que o possível feito para que haja "um pouco de água". "Para colmatar esse défice devíamos ter no mínimo quatro camiões-cisterna tendo em conta as zonas piscatórias que temos e os bairros do interior", completou.

Ana Alves disse ainda não perceber o porquê de a comuna não ter sido integrada no PIIM. "Para o PIIM temos apenas projectos de escolas e a construção da administração comunal. Infelizmente nem água e energia eléctrica constam dos projectos do PIIM", indicou.

De acordo com o Novo Jornal, camião-cisterna que faz o abastecimento de água potável encontra-se avariado, agravando os problemas da comuna. Os habitantes fizeram ainda saber que "quando o camião-cisterna não distribui água à comunidade é um caso sério. A solução é comprar água aos particulares, o que nos deixa mais pobres ainda. Há até famílias que consomem água salobra".