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Economia

Kixiquila: dar parte do salário para depois o receber dos outros é forma de poupar em Angola

Juntam-se em grupos de amigos ou vizinhos, descontando todos os meses parte do salário para uma espécie de cooperativa, que distribui mensalmente o "bolo" por cada um. Em tempo de crise em Angola, a ‘kixiquila’ tornou-se uma forma de poupar.

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Contam os mais antigos que tudo começou com o trabalho comunitário, em que homens e mulheres se organizavam para, em conjunto, tratarem do campo agrícola do vizinho, rodando entre todos e tornando menos pesado o esforço de um único.

Hoje, "jogar a kixiquila", como é apelidado em Angola, baseia-se em dinheiro, com todos os integrantes a descontarem mensalmente a mesma quantia para o bolo, esperando pelo mês "mais desejado": receber a parte de todos os outros, para poder fazer a compra mais aguardada.

"A kixiquila que nós fazemos é mesmo para você dar [contribuir]. Não pode chegar no outro e dizer que ainda não chegou o dinheiro [recebeu o salário], você tem que dar no colega para amanhã ele também te dar", contou à Lusa Moisés Francisco, de 31 anos.

Juntamente com outros três colegas da construtora Somague, em Luanda, e com a autorização do encarregado da obra, desconta rigorosamente, todos os meses, 25.000 kwanzas já lá vão mais de dois anos. Depois, a cada quatro meses, recebe 100.000 kwanzas, contando com o que desconta do próprio salário.

"Eu fiz ‘kixiquila’ no ano passado, que me ajudou. Quando recebi consegui tratar da minha carta de condução. Quando pagam, me dão 100.000 kwanzas, já me ajudam porque dá para pagar na escola, para casa e para a família", explica Moisés Francisco, garantindo que o que retira por mês ao salário "não faz falta". "Banco é bom, mas para mim é melhor ‘kixiquila", atira ainda, recordando que recebeu a última "bolada" em Março.

Apesar de assente na confiança entre todos os elementos do grupo, raramente a gestão resulta em problema, dado o respeito quase natural pelas ‘regras' do jogo: Entregar sempre a tempo e horas os valores combinados.

Que o diga a "mamã" Palmira Madaleno, de 53 anos, criada no bairro do Sambizanga, centro de Luanda, responsável por todos os meses guardar o dinheiro dos ‘jogadores'.

Conta à Lusa que chega a guardar o equivalente a mais de 3000 dólares por mês, de 10 pessoas, e que a confiança em gerir esta espécie de cooperativa informal paga-se com uma comissão de 10 por cento. Até porque, sublinha, "guardar o dinheiro é risco", sobretudo numa altura generalizada de crise em Angola.

A kixiquila pode ser mensal ou descontando uma quantia menor, mas todos os dias, dependendo das disponibilidades. Ainda assim, o suficiente para também Palmira, vendedora de cerveja, tirar um rendimento extra.

"Você não pode por pessoas desconhecidas porque há quem quando recebe [o bolo ‘kixiquila’] depois já não quer dar. Tem de por as vizinhas chegadas, os que conhece e que se dá bem com eles", recorda a ‘guardiã' do bolo, que há 10 anos vive deste jogo. "É o nosso jogo de pobreza. Consigo comprar uma arca, um ar condicionado para pôr em casa. Consigo virar-me com esses bocados", garante Palmira Madaleno.

Também em Luanda, a zungueira Marcelina João joga ‘kixiquila’ há mais de cinco anos no bairro. Todos os meses entrega 10.000 kwanzas do que sobra da venda ambulante e a cada cinco meses recebe cinco vezes mais. "Para ajudar, para conseguir juntar o dinheiro. É uma forma de ajudar", diz, em conversa com a Lusa.

Num cenário de "crise, de fome e em que não há dinheiro", este jogo de poupança, afirma, sempre serve para ajudar a pagar algumas contas. "Ajuda a pagar a renda, na escola e outras coisas", admite.

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