Curadora defende que Angola deve “regressar e bem” à Bienal de Veneza

A curadora para o projecto de arte de África na ARCOlisboa, Paula Nascimento, defendeu que Angola “deve regressar, e bem”, à Bienal de Arte de Veneza, onde estará ausente este ano, “começando a pensar já nas próximas edições”.
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Paula Nascimento foi uma das curadoras da participação na Bienal de Arte de Veneza de 2013, com Stefano Pansera, quando o país venceu o Leão de Ouro para o pavilhão nacional, pelo projecto “Luanda, Cidade Enciclopédica”, baseado em fotografias do artista Edson Chagas.

Este ano, o país não está representado na Bienal de Veneza - um dos certames mais antigos e mais importantes do mundo da arte contemporânea - tendo o Governo justificado apenas que a ausência se devia ao facto de "não haver condições" para a participação.

Numa entrevista à agência Lusa, em Lisboa, a arquitecta e curadora angolana disse que não esteve envolvida neste processo, mas teve conhecimento pelos media que houve "alguns atritos" que acabaram por impossibilitar a participação na bienal.

"É uma pena que Angola não participe. Espero que esta ausência seja pontual, e que volte à Bienal, e regresse bem. Uma participação deve ser bem pensada e organizada, e deve-se começar a pensar já no assunto", defendeu.

Quando, em 2013, a atribuição do Leão de Ouro foi anunciada na cerimónia oficial de abertura, em Veneza, houve quem perguntasse, entre o público, em que continente ficava aquele país que se estreava na Bienal de Arte.

Dezenas de jornalistas rodearam a curadora, quando estava a ser entrevistada, no local, pela agência Lusa, e comentavam também que língua era aquela que não percebiam: era português.

Estreante e vencedor, o pavilhão nacional de Angola - com fotografias do artista angolano Edson Chagas, no Palácio Cini, em Veneza - recebeu repentinamente uma onda de visitantes, desde o público interessado em arte, até representantes de alguns dos mais importantes museus e galerias de todo o mundo, que queriam conhecer o projecto.

"Foi como ganhar os jogos olímpicos da arte contemporânea", comentou à Lusa Paula Nascimento, recordando um episódio que viria a ter "grande impacto" na carreira da curadora independente e na do artista.

O percurso expositivo continha pilhas de cópias em grande formato das fotografias de Edson Chagas sobre Angola, que os visitantes podiam levar, se quisessem, envoltas numa capa.

Eram fotografias de objectos e edifícios nas ruas de Luanda, captadas desde o período colonial à modernidade.

Em dois dias, esgotaram a edição de 2000 capas e exemplares das fotografias na exposição e, segundo Paula Nascimento, o pavilhão recebeu, nessa altura, muitos "visitantes interessantes".

A arquitecta angolana sorri quando recorda aqueles momentos de um acontecimento histórico para a arte contemporânea de Angola, com um "impacto muito significativo, imediato e a longo prazo" no país.

Uma "explosão" que acabou por ser "um incentivo para que outras pessoas participassem e se envolvessem em iniciativas" nesta área - disse à Lusa - e um "interesse crescente de participação de países africanos na Bienal de Veneza”.

"Muitas vezes o impacto não é financeiro, mas de projecção do que se tem feito localmente. Abriu-nos muitas portas, em termos de carreira, e gerou uma onda de curiosidade sobre o que Angola estava a fazer na arte contemporânea", recordou.

Edson Chagas, que trabalhava como fotojornalista, conseguiu, depois do prémio, dedicar-se totalmente à arte contemporânea: "A obra dele duplicou ou triplicou o valor", disse a curadora.

Paula Nascimento e o seu ateliê, o Beyond Entropy, presentemente em "ano sabático", receberam muitos convites.

"Coube-nos a nós perceber o que interessava e não interessava. Nós vínhamos de um movimento que já existia, e o prémio foi sendo mais impactante à medida que o tempo passava", lembrou, mas concluiu que "Angola podia ter aproveitado melhor" o galardão.

A presença em certames de arte - como a Bienal de Veneza - representa, na opinião da curadora "uma necessidade de um investimento que deve ser feito de forma pensada e constante". No caso de Angola, Paula Nascimento acredita que "é uma questão de organização".

"É preciso fazer tudo, mas passa muito pela delineação de políticas culturais credíveis, e que possibilitem que os artistas e os agentes possam ter plataformas de apoio ao seu trabalho. Falta uma estruturação política do que é cultura e do que queremos atingir", argumentou.

"Fazer as pessoas fazem. Com muito ou com pouco. Mas não temos toda uma estrutura de apoio ao que está a ser feito neste momento", avaliou.

A curadora disse que tem observado uma tendência interessante nos últimos anos, em Angola: "Há uma criação de novos públicos, em especial no campo das artes visuais. Há mais gente a ver exposições, e mais interesse do sector privado em apoiar projectos. Isso é positivo porque acaba por impulsionar uma diversidade de iniciativas".

Na sua opinião, também a legislação ligada ao sector pode ser melhorada: "Não temos uma lei de mecenato que faça sentido, mas há iniciativa da banca e de privados, o que é positivo".

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