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Vida de garimpeiro, vida de sofrimento

São às dezenas. Irrompem logo pela manhã por entre o capim alto, levando consigo pás, sacos, peneiras e outros instrumentos de trabalho artesanais que os acompanham na dura jornada diária em busca do diamante que lhes pode mudar a vida.

: Lusa
Lusa  

O destino é um braço de rio enlameado, junto à vila mineira de Cafunfo, na província da Lunda Norte, onde os garimpeiros tentam arranjar o sustento do dia-a-dia, numa terra que oferece poucas ou nenhumas oportunidades de trabalho.

"Aqui não há emprego", queixam-se, explicando que só por isso arriscam esta actividade ilícita e um modo de vida em que "sofrimento" é a palavra que mais usam.

Os pais de Sancara Moisés Armando, um dos garimpeiros que a Lusa encontrou, chegaram a trabalhar para a companhia diamantífera estatal, Endiama, mas muitos projectos mineiros da região ficaram paralisados, primeiro por causa da guerra e, a partir de 2008, devido à crise económica e financeira. Foi o caso, por exemplo, de minas localizadas na bacia hidrográfica do Cuango.

Sem outras alternativas, os filhos tentam agora a sorte nas áreas já abandonadas pela Endiama, que actualmente explora, em parceria com a ITM e Lumanhe, através da Sociedade Mineira do Cuango, uma área com cerca de 3000 quilómetros de extensão.

Trabalham arduamente, com os pés enfiados na água barrenta. As horas vão passando, lentas, mas o brilho dos diamantes tarda em aparecer. Os homens lavam pazadas e mais pazadas de cascalho, sacodem os tamises, mas raramente encontram as preciosas pedras.

"As pedras de um grama às vezes não valem mais de 200 ou 300 dólares, a dividir por quatro dá 50 dólares... não nos favorece", diz um deles, lamentando a baixa dos preços.

Os garimpeiros estão organizados em grupos, que podem ir até dez homens, e repartem entre si os lucros da venda, que têm de ser também divididos com os seguranças encarregados de fazer a vigilância das zonas mineiras, a quem pagam para poder garimpar mais à vontade.

Mesmo assim a convivência entre garimpeiros e seguranças é tudo menos pacífica.

"Mesmo quando nós pagamos, nos pegam, levam para longe e temos de regressar longos quilómetros a pé. A empresa da segurança vem atrás de nós quando tentamos a sorte, quando tentamos arranjar qualquer coisa para sustentar os filhos. Às vezes, cobram valores de 20 a 30 mil kwanzas e hoje mesmo vai estar aqui connosco", lamenta Moisés Armando.

Debumba Agostinho Manuel diz que consegue alguns rendimentos no garimpo, mas não o suficiente.

"O governo não nos dá empregos, não nos dá salas de aula, não nos dá bairros com luz, não nos dá energia eléctrica, abandonou-nos. Por isso, vimos para aqui, para nos ajudarmos a nós próprios", desabafa.

Agostinho Manuel diz que correm muitos riscos e sofrem às mãos dos seguranças privados. "Até nos dão corrida com arma de fogo e nos matam", lamenta, culpando "a segurança da mina Cuango" pelos maus tratos.

O que ganha "não é suficiente para sustentar a vida" e às vezes passa-se um mês "sem ver nenhum produto", diz.

"É só cavar e ter paciência até Deus te dar", resigna-se.

O Governo permite a criação de cooperativas, no âmbito da denominada "Operação Transparência" existente desde 2020, uma alternativa ao garimpo ilegal no âmbito da qual legalizou 260 das cerca de mil existentes, mas apenas 20 estão a funcionar.

Mas há queixas sobre o processo, de que as licenças ficam sempre nas mesmas mãos, as dos generais, de pessoas ligadas ao partido do poder (MPLA), dos poderosos.

"As licenças não ficam com os filhos da terra", diz Jordan Muacambiza, defensor dos direitos humanos e morador em Cafunfo, que lamenta que as comunidades locais beneficiem tão pouco da riqueza gerada pelos diamantes.

A região, situada na Lunda Norte, uma das mais pobres do país, é palco de violência de tempos a tempos.

Os incidentes mais recentes aconteceram a 30 de Janeiro, quando uma alegada tentativa de invasão à esquadra local protagonizada por elementos do Movimento do Protectorado da Lunda Tchokwe, resultou em pelo menos seis mortos.

Esta versão oficial é contrariada por testemunhos locais, organizações não-governamentais e partidos da oposição que falam de mais de 20 mortos num protesto pela melhoria das condições de vida.

O descontentamento social e a pobreza são alguns dos factores que estão na base da violência sistémica que caracteriza a região das Lundas, segundo o activista e académico angolano Rafael Marques, que promoveu recentemente um debate em Cafunfo, no qual defendeu uma solução inclusiva para os problemas e que envolva os diferentes actores.

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