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Ambiente

EcoAngola denuncia desmatação no Huambo e Benguela

A organização ambientalista EcoAngola denunciou a devastação de largos hectares de polígonos florestais nas províncias do Huambo e Benguela, alertando que esta situação se vem verificando também em outras regiões do país.

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A denúncia, partilhada nas redes sociais, aponta para a exploração florestal "descontrolada e insustentável em Angola", e exibe vídeos e fotos do polígono florestal do Cuima, município da Caala, do polígono florestal do Sanguengue, município do Cachiungo, ambos na província do Huambo, e do polígono florestal do Alto da Catumbela, município da Ganda, província de Benguela.

Em declarações à agência Lusa, a directora executiva da EcoAngola, Érica Tavares, disse que a denúncia foi feita por um grupo de engenheiros florestais, que manifestaram "muita preocupação com essa situação".

Segundo Érica Tavares, "isso não é algo que está a acontecer agora, e, na realidade, acontece em várias províncias do país".

O problema maior, prosseguiu Érica Tavares, prende-se com a falta de preocupação de reflorestamento dessas áreas.

"Hoje está a ser mais desmatado do que reflorestado, essa é a maior preocupação deles nesse momento", frisou.

Érica Tavares disse que a organização recebeu várias imagens, enviadas por pessoas diferentes, e cuja veracidade foi confirmada nas duas províncias.

Questionada se os denunciantes identificaram as pessoas responsáveis por este crime ambiental, a directora executiva da EcoAngola respondeu que a autoria foi apontada a cidadãos asiáticos.

"Não é uma coisa confirmada. São, infelizmente, cidadãos asiáticos, mas isto tem acontecido sob o olhar silencioso das autoridades locais", acrescentou Érica Tavares, considerando que "um desmatamento daquele tamanho é um bocado óbvio para qualquer um que passar pela zona".

"E não fazer nada é ser conivente com o que está a acontecer", disse a ambientalista, salientando que já enviou a denúncia ao Instituto Nacional da Biodiversidade e Áreas de Conservação (INBAC), preparando-se para fazer chegar também ao Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente, na parte dos crimes ambientais.

A directora executiva da EcoAngola realçou que o facto de o Governo ter deixado de passar licenças para a exploração de diversos tipos de madeira não impediu que a desmatação continue de forma "ilegal e regular".

"E isto é que está fora de controlo e está a preocupar esses engenheiros florestais, porque, na realidade, duas das pessoas que fizeram a denúncia são pessoas que trabalhavam em empresas que faziam esta utilização da madeira e depois voltavam a reflorestar, mas agora têm notado que os sítios em que trabalhavam antigamente estão a ser completamente destruídos, sem nenhum tipo de trabalho de manutenção ou restauração", relatou, sublinhando: "Esta é a maior preocupação".

Em 2018, várias denúncias públicas, através da partilha de vídeos nas redes sociais, de longas filas de camiões carregados de toros de madeira ao longo das estradas, foram feitas relativamente à quantidade elevada de madeira que estava a ser explorada por cidadãos chineses, principalmente no leste de Angola.

Sobre o assunto, os bispos católicos manifestaram preocupação, em 2019, lamentando a desflorestação provocada sobretudo com o corte ilegal de árvores para a comercialização de madeira, que "infelizmente" persistia naquele ano nas províncias do Moxico, Cuando Cubango, Cabinda, Uíje e Bengo, de modo acentuado, e menos no Huambo e Bié.

Na altura, o Governo atribuiu responsabilidade da situação aos cidadãos nacionais, que, violando a lei, faziam o trespasse da licença de exploração aos chineses, e ao défice de fiscalização.

Angola situava-se entre os três maiores detentores de plantações florestais no mundo, constituídas maioritariamente por espécies de eucalipto e pinus, que se estendiam pelas províncias do Huambo, Bié, Benguela, Huíla e Malanje, numa área de 148.000 hectares.

No período colonial português, os perímetros florestais eram compostos por espécies exóticas para abastecimento de matéria-prima para a Companhia de Celulose e papel de Angola e de energia para as locomotivas do Caminho-de-Ferro de Benguela.

Um Plano Estratégico de Intervenção nos Perímetros Florestais elaborado pelo Ministério da Agricultura e Florestas de Angola, que a Lusa divulgou em 2019, caracterizava o estado de conservação destes perímetros como "plantações envelhecidas, degradadas e desajustadas" dos objectivos para os quais foram constituídos.

"Dados do Inventário levado a cabo nas províncias de Benguela, Huambo e Bié, em 2010 e actualizados em 2013, indicavam a existência de uma área plantada de cerca de 60,7 mil hectares, o que representa uma redução de 58,9 por cento da área histórica registada até 1975", revelava o documento.