Walter da Silva: “Precisei apenas de quatro meses para mostrar o meu potencial como ciclista”

“Fecha”, como é mais conhecido, tem 31 anos e é um dos nomes sonantes do ciclismo nacional. Nunca pensou em ser ciclista, mas depois da primeira experiência nunca mais parou. Prefere as competições internacionais, pois as condições são melhores do que em Angola, além de que considera ser mais fácil alcançar uma carreira de sucesso no estrangeiro, por haver mais oportunidades e mais empenho. Foi protagonista de grandes vitórias, e a sua carreira já conta com várias subidas ao pódio. Walter da Silva, acredita no futuro promissor do ciclismo nacional, que tem crescido exponencialmente nos últimos anos, e ambiciona trabalhar com o escalão de formação, com o objectivo de apoiar o desenvolvimento e a robustez do desporto no nosso país.
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Walter em primeiro lugar fale-me de si… Onde nasceu e cresceu, como foi a sua infância, que idade tem…

Apelidado de “Fecha”, por ser o último filho, o caçula, tenho 31 anos e sou de Benguela. A minha infância foi marcada por momentos bons e maus. Falando dos maus, que nem gosto muito de recordar, foi a fase dos conflitos armados. Muitas quedas e travessuras, coisas de criança, também fizeram parte. Já os bons momentos foram vários, como momentos de inocência das crianças, as brincadeiras que eram infinitas, a catequese na igreja… E assim fui crescendo, para muitos menino bom, obediente e humilde, para outros traquina e muito irrequieto… (risos)

Como surgiu o ciclismo na sua vida? Em criança já sonhava com esta carreira?

Nunca pensei em ser ciclista. O ciclismo surgiu porque já praticava, desde pequeno, muitas modalidades desportivas, como atletismo, artes marciais, futebol, andebol e levantamento de pesos. Depois senti necessidade de trabalhar mais na musculação dos membros inferiores e, nessa fase, aparece a bicicleta, tinha eu 18 anos. Um ano antes, aos 17, por ter muita habilidade em arranjar qualquer coisa, já resolvia algumas avarias das bicicletas dos amigos. Nunca tive bicicleta própria, para praticar o desporto, mas não tive dificuldades em enquadrar o grupo de ciclistas que havia na cidade de Benguela. Precisei apenas de quatro meses para mostrar o meu potencial como ciclista, e fui várias vezes chamado de “flecha” por fazer bons resultados nos CRI [Contra-Relógio Individual]. Assim me fui apaixonando cada vez mais pelo ciclismo, e comecei a levar a coisa mais a sério, porque eram vitórias atrás de vitórias, e fazia sempre pódio.

Como é que começou a sua carreira profissional? E porquê o ciclismo e não outra modalidade?

Eu já me considerava profissional, mas tinha uma inquietação, era o lado académico. O ciclismo em Angola não era futuro, e falando mais a fundo, algumas modalidades em Angola não eram futuro. Como eu já resolvia avarias há muito tempo, decidi fazer a formação média no Instituto Médio Industrial de Benguela. Foi uma formação com muitas turbulências, devido às saídas desportivas constantes. Mas consegui formar-me me em electricidade. Voltando ao ciclismo, quem corre por gosto não cansa, e inclinei-me para o ciclismo.

Como é a semana de treinos de um ciclista profissional? E como são as preparações para as provas?

Os dias de treino de um ciclista profissional em Angola são duros. Treinamos de Terça a Domingo e há Segunda é o dia do merecido descanso. Mas muitos ciclistas não vivem só do ciclismo, como eu, que tenho outro ofício, e sou electricista. Vou fazendo alguns trabalhos que vão aparecendo e assim vou sobrevivendo. Quando há provas há um cuidado mais redobrado, e há situações em que é necessário fazer um estágio antes das provas.

Como atleta quais foram as maiores dificuldades que ultrapassou até agora?

As dificuldades foram várias. Ter uma alimentação regrada, as lesões, as quedas foram as principais, e a língua, porque foram várias corridas com atletas de várias nacionalidades e é difícil a comunicação.

E quais os melhores momentos que viveu no ciclismo?

Momentos bons foram correr no exterior, em Moçambique, Namíbia, RDCongo, São Tomé, Cabo Verde, Marrocos, Portugal, Espanha… E fazer parte da primeira volta a Angola.

No ano passado venceu o grande prémio Orped em ciclismo, na classe Elite, mas este ano não conseguiu arrecadar nenhuma medalha, finalizando a prova na 14.ª posição. O que faltou para conseguir subir novamente ao pódio?

Fiquei na décima quarta posição por vários motivos. Não me encontrava bem fisicamente pois durante a preparação para esta prova sofri dois acidentes, nos quais graças a Deus saí ileso, mas a bicicleta ficou danificada. Tive que trocar de bicicleta e não consegui me adaptar à nova, e foram essas as razões da minha má prestação.

Foi o grande vencedor, em 2013, da primeira edição do Grande Prémio Benfica de Luanda em ciclismo. Foi especial para si esta vitória?

Sim claro. Foi uma vitória muito especial para mim. 

Depois de várias camisolas conquistadas e troféus arrecadados ao longo da sua carreira, o que falta ganhar?

Falta ganhar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos!

Também já participou em várias competições internacionais. Prefere competir em Angola ou lá fora?

Eu tenho capacidades para competir em qualquer canto do mundo. Depois de uma década a competir local e internacionalmente, gostaria de estar a correr no exterior, porque há mais competições e melhores condições do que em Angola, onde poderia aprender mais com o ciclismo mundial.

Acha que é mais fácil alcançar o sucesso ao ser-se ciclista em solo nacional ou internacional?

Acho que é mais fácil alcançar o sucesso no exterior, por haver muitas portas abertas e por se trabalhar com mais seriedade. 

Qual o balanço que faz da sua carreira até ao momento?

O balanço da minha carreia até aqui, digo que foi um sucesso. Fui várias vezes protagonista de grandes vitórias, não esquecendo em 2013 da grande fuga na volta à Portugal, e não só. Foram muitos sucessos. 

Como analisa a actual fase do ciclismo nacional? Há apoios para os nossos ciclistas?

Nestes últimos anos, o ciclismo nacional está com um crescimento brutal. Está com uma força que, se continuar assim, vamos ter muitos Walter da Silva e Igor Silva no futuro.

Os apoios vêm de todos os cantos do país. Não vou citar todos, mas falo de um dos meus patrocinadores, um especial, que é o meu grande amigo Jair Carapinha, que hoje formou a equipa Jair Transporte, à qual eu pertenço. 

Neste momento qual é o seu maior objectivo desportivo?

O meu maior objectivo desportivo é estar ligado, directamente, ao escalão de formação. O nosso desporto só se desenvolve e fortalece, quando temos o nosso escalão de formação.

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