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Yuri Quixina: presença na OPEP soma “triplas desvantagens” e é “luxo na miséria”

O economista angolano Yuri Quixina considerou "um luxo na miséria" a presença de Angola na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), onde lidera a conferência de ministros, por somar "triplas desvantagens" para o país.

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"Angola dentro da OPEP representa apenas um luxo na miséria porque o sector petrolífero angolano, do ponto de vista de empresas nacionais, ainda não é muito forte, então porque estar em oligopólio ou cartéis na medida em que a reforma que estamos a implementar é para combater oligopólio e cartéis?", afirmou Quixina.

Para o economista, que falava à Lusa sobre a presidência de Angola na OPEP, "constitui um contrassenso Angola fazer parte de um cartel" e é fundamental o país sair da organização "porque Angola não tem estrutura para continuar neste órgão".

"Como já estamos a presidir, é fundamental este ano Angola preparar a sua saída para o próximo ano. Se não sairmos da OPEP é mais provável que esta década pode ser mais uma década perdida porque no curto prazo não consigo ver Angola com jeito, entusiasmo e talento para diversificar a economia", disse.

Angola preside este ano à conferência de ministros da OPEP, em substituição da Argélia.

Durante a 13.ª Reunião Ministerial da OPEP, realizada na Segunda-feira, o presidente da Conferência da OPEP, o ministro dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, Diamantino Pedro Azevedo, disse que "Angola está a trabalhar para restaurar a estabilidade e a confiança no mercado petrolífero".

Segundo Yuri Quixina, a presença de Angola na OPEP desde 2007, cujos membros estão agora obrigados a fazer cortes diários na sua produção, "não traz qualquer vantagem para o país e foi o maior erro" que cometeu na história.

"Porque o sector petrolífero ainda não era estrondosamente desenvolvido, o nosso sector petrolífero é embrionário, ainda não foi explorado, numa fase em que queremos alterar a estrutura base da exportação da economia, diversificar as fontes de receitas do Estado, o sector petrolífero seria no curto prazo e continuará a ser no curto prazo um investimento de excelência", observou.

Quixina defendeu que a actual presidência de Angola deveria ser antecedida de uma avaliação da primeira presidência do país neste organismo em 2009, porque, sublinhou, sem um balanço da presidência anterior para saber "quais são as vantagens é dar tiro no escuro falar das vantagens".

E "depois o sector petrolífero angolano já vem a regredir em contracção desde 2015, então se um país está há anos secar num determinado sector em recessão o que se deve fazer neste momento é alavancar este sector", frisou.

O especialista em macroeconomia considerou que "não se alavanca o sector petrolífero do país com cortes dentro do cartel", recordando que Angola terá de fazer cortes de 261 mil barris de petróleo/dia até Março próximo.

"E não sabemos, se a economia mundial não recuperar e tivermos novamente a terceira ou quarta etapa da covid-19, muito provavelmente, a OPEP vai continuar a cortar e Angola a presidir à OPEP vai ser o primeiro país a cortar", vincou.

"A presidência anterior foi irrelevante, não aumentou qualquer rentabilidade ao país uma vez que as grandes inovações no sector petrolífero, com grandes investimentos, pesquisas de novas bacias e inovações não aumentou, não crescemos", apontou.

Para o também membro do Conselho Económico e Social, criado em Setembro de 2020 pelo Presidente João Lourenço, desde que o país entrou na OPEP o "declínio natural começou a acontecer".

"O que estou a dizer é que Angola está a ser afectada não só pelo preço, mas sim pelo declínio natural e pelos cortes. Angola está num triângulo de uma tala onde em primeiro lado tem o preço, o declínio natural e o corte da OPEP e é fundamental desfazer essa tala", advogou.

O docente universitário insistiu que Angola "continua com a antropologia da imagem, conduz o Ferrari ou um Lexus, mas dorme na varanda".

"Temos que sair dessa imagem de viver de aparências, temos que nos focar no lucro que tem efeito multiplicador em crianças que ainda não nasceram, isso é que é o mais importante", sustentou.

"Não temos receitas, o sector petrolífero está a decair e nós estamos a perder bilhões de dólares só porque queremos ter imagem. No fundo, só a nossa presença na OPEP esses cortes que estamos a fazer podemos perder mais de 850 milhões de dólares, é muito dinheiro", concluiu.

O empresário angolano do sector petrolífero, Pedro Domingos Godinho, disse à Lusa, em Dezembro, que não faz sentido Angola continuar na OPEP, onde "está a queimar" diariamente milhões de dólares devido a cortes impostos pela organização, considerando que o país está numa "automutilação económica".

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