Máquina do MPLA não dispensa o militante anónimo que corre o país

Um espectáculo aéreo, uma equipa de 500 pessoas que rapidamente monta e desmonta o palco do comício para viajar centenas de quilómetros e um militante que o segue por toda Angola, assim é feita a campanha eleitoral de João Lourenço.
João Silva:
    João Silva

Totalmente oleada e com bases nas 18 províncias do país, a máquina do MPLA, partido no poder em Angola desde 1975, mostra por estes dias a sua mobilização por onde passa o candidato, em campanha eleitoral.

Quarta-feira foi o caso de Malanje, onde o partido fez a festa, com direito a uma fanfarra, artistas nacionais conhecidos em palco para animar o público e até um espectáculo aéreo que colocou 120.000 pessoas - segundo a organização -, de cabeças no ar.

Pontualmente às 11h00, João Lourenço sobe ao palco, ovacionado por apoiantes, mobilizados entre as várias organizações do partido, desde as mulheres, a OMA, à juventude, a JMPLA, mas também autoridades tradicionais e antigos combatentes. Há ainda várias dezenas de autocarros e camiões que transportam apoiantes de todas os municípios da província.

"Depois do almoço posso meter-me no avião e ir descansado para Luanda", destaca o candidato do MPLA à sucessão de 38 anos no poder de José Eduardo dos Santos, para logo a seguir lançar um apelo mais sério: "Temos de trabalhar bastante, temos de produzir".

Um espectáculo que António Luaua, 49 anos, funcionário público e antigo combatente das FAPLA, o braço militar do MPLA, durante a guerra civil angolana, já sabe de cor. Na primeira fila em Malanje, confessa à Lusa já ter perdido a conta aos quilómetros percorridos a acompanhar João Lourenço, como militante, em todo o país.

"Eu nasci no MPLA, cresci no MPLA e vou morrer no MPLA", justifica, enquanto segura de forma religiosa três grandes cartazes com fotos. A de Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola e do MPLA, e de José Eduardo dos Santos, chefe de Estado desde 1979, ao lado da do candidato João Lourenço.

"A força do passado, do presente e do futuro", diz, convicto e de sorriso aberto.

No palco, montado junto à estação de comboios de Malanje, linha construída no tempo colonial e reabilitada por empresas chinesas, após a guerra, João Lourenço faz um discurso de mais de uma hora, sempre animado pelo speaker oficial, incentivando ao "voto no 4", a posição do MPLA no boletim de voto.

Vai alternando nas mensagens para concluir que a grande missão do Governo que sair das eleições gerais de 23 de Agosto é clara: "Pôr toda a gente a trabalhar".

"A nossa felicidade depende de nós, mas sobretudo do nosso trabalho organizado, da nossa dedicação, de não ficarmos à espera que as coisas caiam do céu (...) Temos muito trabalho por fazer, para construímos a nossa felicidade", atira.

A "dedicação" à agricultura, solução face à quebra para metade nas receitas com a exportação de petróleo, recebe nota de destaque, desde logo para Angola "produzir o que necessita", sem importar alimentos, levando Lourenço a traçar outra meta para o país.

"Devemos ter a ambição de ser uma potência na agricultura e na pecuária. Temos todos os ingredientes para que isso seja possível", afirma, embora reconhecendo que a próxima legislatura requer muita atenção do Governo e investimento privado para este sector.

Ainda assim, assume que faltam "ingredientes", como a produção nacional de fertilizantes, alfaias agrícolas e tractores.

Já a cerveja é algo que Angola produz, aparentemente, em excesso, a preços baixos, contrariamente à edição de livros.

"Precisamos de fazer com que o livro seja um produto barato e acessível à grande maioria dos cidadãos angolanos, não apenas em termos de preço, mas também de ter aonde encontrar. A cerveja não pode ser mais barata do que o livro. Não se pode comprar uma cerveja porque não havia uns trocos para um livro", afirma Lourenço.

Isto porque ainda no dia anterior, em Luanda, a mais de 300 quilómetros de Malanje, o candidato do MPLA prometeu apoio aos artistas e criativos angolanos, nomeadamente para criar uma indústria nacional edição de livros.

"Nós queremos um país desenvolvido, com gente culta", diz.

Depois das críticas, da oposição, pelo regresso ao "discurso da guerra", há dias, em que aludia às consequências no tecido produtivo da destruição provocada pelo conflito armado de quase 30 anos, João Lourenço explicou que são referências históricas que não podem ser esquecidas.

"Nós não estamos aqui à caça de culpados. Estamos, às vezes, a buscar o passado apenas para nos prevenimos e evitarmos que cometamos os mesmos erros no futuro. É obrigação da nossa geração alertar os mais jovens: Cuidado, nós no passado fizemos isso, fizemos errado, não repitam o mesmo erro, porque as consequências podem ser graves", concluiu.

Enquanto a música segue no palco, Lourenço faz-se à estrada, primeiro para distribuir bens pela população local e depois em direcção ao aeroporto de Malanje, para regressar a Luanda.

Já a máquina do partido começa a desmobilizar durante a tarde para seguir viagem para a próxima paragem, no Dundo, Lunda Norte, a cerca de 700 quilómetros de distância, para novo comício do MPLA.

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