Walter Faustino: “A prioridade é a evolução como atleta e os pódios são apenas uma consequência”

Nasceu em Luanda e desde criança que o desporto lhe corre nas veias. Foi já com 21 anos que começou a praticar jiu jitsu, mas apenas quatro anos depois sagrou-se campeão mundial da modalidade. Vê a comunidade nacional de jiu jitsu como exemplo a seguir, pois apesar de toda a competição que é vivida intensamente, afirma que a rivalidade é somente no tatame e há um bom ambiente entre os atletas. Trabalho, crença e disciplina são os segredos do sucesso do atleta africano com mais títulos e medalhas em provas internacionais, Walter Faustino, que conta com um leque de seguidores, a quem agradece por todo o apoio e carinho.
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Walter, primeiro comece por falar um pouco de si… Onde nasceu e cresceu, como foi a sua infância…

Nasci em Luanda, município do Rangel. A minha infância foi tranquila. Até aos 17 anos vivi num dos bairros suburbanos de Luanda, bairro da Terra Nova, e depois fui viver na urbanização Nova Vida também em Luanda.

Como surgiu o interesse pelo jiu jitsu e o que mais o incentivou para a prática deste desporto?

Desde criança que gosto de praticar desportos. Depois de muitos anos fazendo futebol, basquetebol e voleibol, decidi fazer artes-marciais... O interesse surgiu porque senti necessidade de apreender uma modalidade de combate.

Com que idade começou a treinar? E as competições quando começaram?

Comecei tarde. Com os meus 18 anos comecei no judo, no jiu jitsu aos 21... As competições começaram no judo, ainda com os meus 19 anos.

De todas as artes marciais, porque escolheu o jiu jitsu?

Preferi dedicar-me mais ao jiu jitsu em relação ao judo pelo facto de existirem mais campeonatos, o que me dava a possibilidade de competir mais.

Além dos seus mestres, quem são as suas referências e ídolos?

As minhas principais referências no desporto são Aurélio Zorzi, Wander Braga e Sérgio Lourenço.

Desde que iniciou a sua carreira, somou vitórias atrás de vitórias. Qual a vitória mais saborosa que já teve? E a derrota mais amarga?

A mais saborosa de certeza que foi a da final que me consagrou campeão mundial em 2012, isto porque representou muito para mim. Foram cerca de dois anos treinando muito, algumas vezes três vezes por dia, e abri mão de muita coisa.

A amarga, não me lembro de nenhuma no momento, isto porque, independentemente do campeonato, vou para me divertir, porque é o que eu mais gosto de fazer, "lutar", por isso mesmo perdendo sinto que me diverti sempre. Mas não me recordo de nenhuma em especial.

Como é a sua rotina de treinos? E antes dos combates? Há cuidados especiais?

Antes quando ainda trabalhava como engenheiro electromecânico, era complicado… Mas agora, que decidi ser apenas atleta, a rotina passou a ser mais tranquila. Treino duas a três vezes por dia, com tempo suficiente para descansar... Antes dos combates o único cuidado especial que tenho é o de descansar ao máximo, treinando menos para prevenir lesões.

A vida de um atleta é de sacrifícios, e é inevitável ficarem algumas marcas no corpo. As lesões? São o pior do Jiu-Jitsu?

Marcas, lesões, tenho várias, mas isso não é o pior. O pior é amares tanto a modalidade, dar tudo por ela, e não teres o apoio e suporte que precisas para treinos e competições. Graças a Deus hoje é diferente, e já não dependo de terceiros para cumprir o calendário anual de competições. Mas no princípio era difícil, tinha de chatear constantemente pais e amigos para me darem suporte financeiro e patrocínio.

Rivalidades no Jiu Jitsu. O que pensa sobre isso? Como é dentro do tatame?

Rivalidades existem, mas a mesma não sai dos tatames... Posso chamar de rivalidade saudável, isto porque, apesar de equipas diferentes os atletas são muito amigos, o que torna a comunidade do jiu jitsu em Angola um exemplo para as outras.

O sucesso internacional surgiu rapidamente, com várias subidas aos pódios e vitórias em campeonatos. Muitos atletas têm sucesso e depois desaparecem um pouco do mapa, pelas mais variadas razões. O Walter não desapareceu do mapa. O que o fez continuar a ambicionar títulos?

Trabalhar sempre. Os meus pais ensinaram-me que tenho de me superar sempre, mesmo quando fico em primeiro lugar. Há sempre algo a ser melhorado, então quero com isso dizer que a prioridade é a evolução constante como atleta, e os pódios são apenas consequência disso.

Sempre que se pergunta o segredo do sucesso de alguém, a resposta é sempre trabalho. Sem dúvida que o trabalho é importante, mas o que é que o diferencia dos outros atletas?

Crença! Não basta apenas trabalhar, trabalho sem crença é uma obra morta... Eu meto muita fé nas metas que traço, essa crença é que me leva a trabalhar duro, e também a disciplina na execução do mesmo.

Walter Faustino é o nome mais sonante do jiu jitsu nacional, e é o atleta africano com mais títulos e medalhas em provas internacionais. Sente-se uma referência ou exemplo para os mais novos dentro da sua academia e até fora dela?

Sinto que sou uma referência para muitos, e isso deixa-me feliz e orgulhoso de mim mesmo. Na realidade eu sempre quis ser um excelente competidor no jiu jitsu, mas nunca pensei que teria muitos seguidores.

Como é a valorização dos atletas de artes marciais em Angola e no estrangeiro?

Existe uma certa valorização dos atletas das artes-marciais, mas ainda é muito pouca, em relação ao que o desporto de combate tem feito por Angola. Penso que já é altura de se valorizar mais os guerreiros.

Para si, o que significa o apoio do público e do povo angolano? E da família?

Significa muito para mim porque não faço jiu jitsu por dinheiro, porque não ganhamos quase nada. Simplesmente faço porque tenho o compromisso com o meu país, e pelos meus seguidores ajudando assim a modalidade a ser mais conhecida no país e incentivando outros a praticar.

Além de atleta de jiu jitsu é também engenheiro electrónico. Em qual das áreas se sente mais realizado?

Sinto-me realizado nas duas, nenhuma mais que a outra. Na engenharia porque era um sonho de infância e no jiu jitsu porque essa modalidade me tornou uma pessoa melhor.

Relativamente ao seu futuro como atleta, tem algum objectivo firmemente definido ou vai aproveitando a viagem e logo se vê onde acaba?

Está já tudo traçado e já é executado desde 2013, ano em que criei o projecto “Matilha”, que consiste em dar aulas à comunidade, ajudando assim os outros a tornarem-se também pessoas melhores.

Por fim, gostaria de deixar uma mensagem aos seus apoiantes?

A mensagem que deixo é obrigado por todo o carinho, o vosso apoio ajuda-me a continuar firme nesta estrada... Estamos até ao fim.

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